Sala de cinema Urdaneta: um espaço de identidade gay

Escrito por José Alirio Peña Zerpa e traduzido por Mario Di Lorenzo, foi publicada na 2ª edição da Revista Memória LGBT.

As salas de cinema pornô como espaços fixos


O cinema pornô é companheiro do cinema comercial; clandestino, ou não, representa uma produção paralela ao cinema oficial. Provavelmente alguns produtos identificados como Made in USA tenham sido elaborados na America Latina, porém o vestígio da nação que o produziu se perdeu pelo mesmo adotar um título em inglês para a sua distribuição. Evidentemente, antes do boom da internet, a distribuição deste cinema se limitava a salas de cinema pornô. Estas salas foram muito populares nos anos 80 e algumas tem permanecido até o século XXI. “Cine Teresa”, no México e o “Teatro Urdaneta”, em Caracas, são exemplos de salas de cinema pornô fechadas, reformadas e reinauguradas por organismos governamentais para a exibição de cinema oficial iberoamericano e estrangeiro.

Ontiveros (1995) retomava as ideias de Hall (1973) sobre os espaços de características fixas que estão moldados pela personalidade e referencias culturais do usuário, fazendo deles lugares que permitem o bem‑estar e sossego mental. Agora, se traduzimos essa descrição àquelas salas de cinema pornô ou outras que existiram durante várias décadas em algumas cidades da America Latina, frequentadas, em sua maioria, pelo público gay. Não faltará aquele que, categoricamente, comente sobre estes lugares como espaços que não proporcionaram valor algum à sociedade.

Na Cidade do México o “Cine Teresa”, inaugurado no dia 8 de junho de 1942, começou a exibir cinema pornô em 1994 para se recuperar de sua forte baixa econômica. Em 2010 foi reformado e em 2011 foi reinaugurado. Hoje em dia forma parte da Cinemateca Nacional e não mais exibe filmes pornôs (Espinoza, 2013). Atualmente, segundo dados da Câmera Nacional da Indústria Cinematográfica
(El Universal Tv, 2010) consultados em García (2013) existem menos de 20 salas de cinema pornô
de um total de 2400 em todo o México.

O “Cine Urdaneta” nasceu no dia 14 de junho de 1951 com o filme “¡Ay amor, cómo me has puesto!”
protagonizado por Tin Tan. Seu nome é em homenagem ao sobrenome do seu primeiro dono (Carlos Urdaneta Carrillo) e formou parte do conjunto de cinemas populares criado nos anos 50, em Caracas. Nos anos 70 já havia imposto a classificação D. “Las insaciables del sexo” (As insaciáveis do sexo), “Morenas Ardientes” (Morenas Ardentes), “Azafatas del Placer (Aeromoças do prazer), “Dulce cálida Lisa” (Doce quente Lisa), “Remolino de Pasiones”, (Moinhos de Paixões) “Pastel para el amor” (Torta para o amor), “Noches de Pasión” (Noites de Paixão), Girl Fever” foram alguns dos títulos
que foram exibidos nesse lugar.

Se lermos as salas de cinema pornô como espaços fixos onde os usuários gays são livres de protagonizar
seus próprios filmes pornôs nos banheiros ou poltronas, então, estamos assumindo, em primeiro lugar, o diferencialismo e em segundo lugar, o rapport entre esses espaços fixos e seus usuários. Com diferencialismo se faz referencia àquela postura de um conjunto de sujeitos individuais e coletivos que não seguem os mesmos direitos do que comumente foi denominado de sociedade heteronormativa. A diferença das associações LGBTI (lesbianas, gays, bissexuais, identidades trans e intersexuais) não almeja o matrimonio civil igualitário nem a constituição de famílias homoparentais. Para eles a vida sexual ativa é valida com varias pessoas. Os conceitos de monogamia e fidelidade não se correspondem ao fato de casar para toda a vida com uma única pessoa. Suprimem a palavra promiscuidade por considerá‑la
estigmatizante. A postura diferencialista é descrita por Vélez (2008) contrapondo‑a a assimilacionista liderada, em sua maioria, pelos coletivos LGBTI. Isso que chamamos de “sexodiversidade” de fato reúne as posturas assimilacionistas e diferencialistas.

Rapport entre a sala de Cinema Urdaneta e seus usuários gays Caracteriza‑se por:
a. A relação com o mobiliário/ objetos: “Sentei e apliquei a mesma da vez anterior… Aventuro‑me às primeiras fileiras para ver o que vou encontrar… Tempos depois se senta um moreno lindo…” (Caracas
Mensex CCS MS/ celebroso, 2009).

b. A experiência espacial que refere a distancia íntima, ou longínqua, que o individuo cria em relação a
outro(s): “Tempinho depois sentou um do meu lado e me punhetou, daí em diante foram se revezando
para me dar umas boas chupadas… Não deixa de me parecer engraçado que é parecido como uma loja de
doces, alguns provam os paus como balas de caramelo…” (Caracas Mensex CCS MS/ perrobravo, 2009).

c. Cada detalhe do local é reconhecido e vivenciado, o qual permite assegurar a continuidade do
grupo: “Um cheiro de sexo e fumo de cigarro impregnam toda a sala. A luz é escassa e só umas pequenas
lâmpadas vermelhas na parede e os letreiros de não fumar iluminam todo o espaço” (Caracas Mensex
CCS MS/ Mamón, 2008). “Bom, vejo que já descobriram que o domingo é o dia no Urdaneta…” (Caracas
Mensex CCSMS/ Carlos, 2009).

Cinema Urdaneta: um lugar antropológico e
um não lugar

Se nos remetermos aos anos de existência do cinema Urdaneta (1970‑2012) como sala de cinema
pornô poderia distingui‑lo como:

a. Um espaço de identidade que tinha sentido de unidade para seus usuários gays: “O que caralho
ocorre aqui? Se aqui não deixam chupar, ficaremos todas loucas e este cinema arruína‑se… É claro que
o cinema inteiro aplaudiu…” (Caracas Mensex CCSMS/ videólogo, 2007).

b. Um espaço relacional onde se desenvolveu uma linguagem gestual e corporal bem particular que dinamizou formas de fazer, agir, reunir‑se: “De repente fez um movimento… o sacudiu assim como quem
oferece algo a um cachorro… fez‑me um sinal com a cabeça…” (Caracas Mensex CCS MS/ bryan, 2012).

c. Um espaço histórico por quanto podiam sentir falta de tempos passados como melhores: “Ainda lembro
o dia que fui pela primeira vez, em comparação com o dia de hoje, tinha muito mais gente…” (Caracas Mensex CCS MS/ Alfasirius, 2008). “…frequentava o cinema há 15 a 20 anos, era muito diferente… que lembranças tão bonitas e saber que não voltaram mais…” (Caracas Mensex CCS MS/ carlos luis, 2009).

As características anteriores correspondem aos lugares antropológicos descritos por Augé (1993). Mas, a
sala de cinema Urdaneta na sua etapa de censura D também reuniu as condições de área efêmera e de lugar de passo vinculado ao anonimato, para alguns de seus usuários: “… Necessitava escolher o trabalhador, açougueiro, vigilante, motorizado, ou o que fosse para lhe dar porra…” (Caracas Mensex CCS MS/ Campero, 2010). “Deixei atrás o cinema adulto… que na verdade é um hotel onde alguns vão para manter seções de sexo expresso” (Caracas Mensex CCS MS/ Mamón, 2008).

Neste sentido, se trata de um não lugar. E o não lugar e o lugar antropológico não são opostos, são
um jogo continuo e confuso entre a identidade e a relação, onde emerge a apropriação social.

Sobre o autor

Estudante de doutorado em Artes e Cultura para a América Latina e o Caribe (UPEL). Magister Scientiarum em Comunicação. Menção Honrosa (UCV, 2013). Ele estudou na Escola de Cinema e Televisão Caracas (ESCINETV, 2009‑2011). Especialista em Gestão Profissional Empresarial
(Preston University, 2003). Locutor 34.217 (UCV, 2002). Industriólogo, Cum Laude (UCAB, 2000). Presidente da Venezuela LGBTI Film Festival‑FESTDIVQ. Membro da Rede Latino‑Americana
de Audiovisual Narrativas (RedInav) e Rede de Pesquisa em Cinema Latino‑Americano (RICILA). Autor dos livros “Arco‑íris Tricolor. Estereótipos de gays no filme venezuelano (1970‑1999) “(2013) e” Rainbow Tricolor. Venezuela Sexodiversas Audiovisual Productions (1982‑2012) “(2013).

Referências

  1. Augé, M. (1993). Los no lugares. Espacios del anonimato. Una antropología
    de la sobremodernidad (1era. Edición). Barcelona: Gedisa
  2. Caracas Mensex CCS MS/ Alfasirius (2008, julio 31). Cine Urdaneta,
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  7. Caracas Mensex CCS MS/ celebroso (2009, febrero 2). Domingo en Urdaneta‑
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  8. Caracas Mensex CCS MS/ Mamón (2008, diciembre 20). Sexo express
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  9. Caracas Mensex CCS MS/ perrobravo (2009, febrero 3). … y también
    el sábado [Discusión en línea]. Disponible: http://www.network54.com/
    Forum/202926/message/1233631158/Domingo+en+Urdaneta‑Chester
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  10. Caracas Mensex CCS MS/ videólogo (2007, agosto 8). La Rebelión de
    las Locas [Discusión en línea]. Disponible: http://www.network54.com/
    Forum/202926/message/1186590485/La+Rebeli%F3n+de+las+Locas
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  11. El Universal Tv (2010). Cines porno, la función está en las butacas
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  14. Hall, E. (1973). La dimensión oculta. Enfoque antropológico sobre el
    uso del espacio. Madrid: Colección Nuevo Urbanismo
  15. Ontiveros, T. (1995). Densificación, memoria espacial e identidad en
    los territorios populares contemporáneos. En: Amodio, A. y Ontiveros, T.
    (editores), Historias de identidad urbana. Composición y recomposición
    de identidades en los territorios populares urbanos (pp. 31‑44).
    Caracas:
    Fondo Editorial Tropykos/ Ediciones Faces‑
    UCV
  16. Vélez, P. (2008). Minorías sexuales y Sociología de la Diferencia.
    Gays, lesbianas y transexuales ante el debate identitario. Barcelona: Ediciones
    de Intervención Cultural

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