Rua Augusta: reconstruindo a história através da vida noturna

Escrito por Ananda de Souza Viana e Edhilson Dantas Alves, publicado na 12ªEdição da Revista Memória LGBTIQ+.

A Rua Augusta como polo de lazer noturno e de encontro de tribos alternativas que conhecemos hoje tem precedentes na década de 1960, quando boates e bares que tocavam rock n’ roll eram frequentados por jovens em busca de casas noturnas que promovessem rupturas comportamentais e estéticas com os padrões das casas noturnas de elite da época.  Desde então, diversas transformações sociais e econômicas ocorreram naquela região e contribuíram para conformar a Augusta atual, transformando seus usos e o perfil de seus frequentadores. A conformação desse espaço como ponto de encontro e de identidade LGBT é o assunto que discutiremos nesse texto.

Na foto observa-se uma típica noite na Rua Augusta, onde o espaço público é extensão das casas noturnas da região. Foto: Revista “A Capa”.

O primeiro acontecimento decisivo para a ocupação da Augusta pelo público LGBT foi a criação e o sucesso da festa Grind, no clube A Lôca, em 1998. A festa, que existe até hoje, foi responsável por transformar o clube em “point GLS” em 2003, contribuindo para a consolidação da Rua Frei Caneca (sede do clube) como “Rua Gay”, e possibilitando que outras boates se instalassem na Augusta e obtivessem sucesso de público, ao atrair quem já frequentava os bares e casas noturnas da Frei Caneca.

Em 2005, a fundação do Vegas Club é um marco na consolidação da Augusta como referência na vida noturna na cidade. Criada com o conceito de diversidade musical, a casa, fechada desde 2012 devido a uma oferta milionária ao dono do imóvel, foi responsável pela divulgação midiática ostensiva da vida noturna na região, chamada, a partir de então, de “Baixo Augusta”, e pelo consequente surgimento de novas boates na vizinhança, uma vez que seu sucesso despertou o interesse de diversos empresários do ramo pela Rua. Felipe Melo Pissardo (2013), em “A Rua apropriada: estudos sobre as transformações e usos urbanos na Rua Augusta (1891-2012)” identifica duas grandes ondas de surgimento das casas noturnas: a primeira, entre 2006 e 2008, na qual observa-se uma concentração de novos estabelecimentos no entorno da Vegas, e a segunda, em 2009, que coincide com uma ampla divulgação midiática e reconhecimento social da Rua Augusta como polo de lazer noturno em São Paulo. No mapa a seguir estão identificados os clubes noturnos e bares existentes em na Augusta 2020, sendo possível perceber a permanência da identidade desse local, mesmo em face das pressões exercidas pelo setor imobiliário nos últimos anos.

Legenda: Lazer noturno na rua Augusta em 2018. Mapa elaborado pelos autores.

A partir de levantamento realizado pelos autores observa-se uma maior concentração de casas noturnas no lado “Centro”, região apelidada de “Baixo Augusta” após sua reocupação pelos jovens a partir de 2005. No lado “Jardins” da Rua, observa-se uma distribuição mais esparsa de bares e baladas, em conformidade com a dinâmica desse bairro que se torna mais residencial à medida em que se aproxima da Avenida Brasil. É interessante notar que, das 24 principais opções de lazer noturno na Augusta, 9 são voltadas ao público LGBT ou denominadas “LGBT friendly” por veículos de comunicação e divulgação do turismo paulistano, o que representa 37% das opções de lazer noturno disponíveis. A seguir, veremos quais eventos marcaram a história dessa  rua e contribuíram para que ela se tornasse ao mesmo tempo sinônimo de vida noturna e de diversidade de público.

Reconstrução histórica

Como o seu próprio nome tem o propósito de significar, sendo uma das maiores e mais importantes de São Paulo, a Rua Augusta é majestosa e venerável. Projetada para ser uma das ligações da Av. Paulista ao Centro, temos atualmente noites agitadas e uma diversidade de “tribos” que convivem mutuamente, sendo referência para todo e qualquer turista que esteja em busca de se divertir, interagir e socializar.

Criada em 1875, foi inspiração para artistas como Ronnie Cord e Emicida, cantores de diferentes épocas que, com suas músicas chamadas “Rua Augusta”, trazem em seus versos, a partir de uma análise, algumas caracterizações do local. 

Escrita por Hervé Cordovil, a canção de 1963, traz os versos Entrei na rua Augusta a 120 por hora / Botei a turma toda do passeio pra fora / Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina / Parei a 4 dedos da vitrina”. A velocidade descrita não evidencia, no entanto, o grande tráfego de veículos. Se trata de uma idealização a respeito da mobilidade e, apontando como a região era ainda marcada pela presença predominante da elite paulistana, o carro que estaria passando seria um dos luxuosos da época. Seja, como exemplo, um Ford F-100 ou um Porshe 356, também precisaria ser grande o suficiente para caber a “turma toda” em seu interior.

Com as palavras “turma do passeio” e “vitrina” – terminada em “a” em referência ao português lusitano – observa-se que a música é produzida se desvencilhando dos efeitos do início da precarização do ambiente público e desvalorização imobiliária da década. Dessa forma, permanecendo para o autor a memória da década anterior, com lojas e moradias, tornavam a rua um grande centro de compras e com transporte público reduzido. 

Nas palavras de Felipe Melo Pissardo (2013), em sua dissertação denominada “A Rua apropriada: estudos sobre as transformações e usos urbanos na Rua Augusta (1891-2012)”, disserta as principais características. Na década de 1940, o transporte público estava em declínio na região, devido a elite local com o comércio voltado a ela, o aumento dos automóveis e maus olhos para o sistema público de transporte. 

O tempo passou e o povoamento da região fez com que edifícios de mais de um pavimento começassem a tomar conta da via. Na década de 1950, a opção arquitetônica que prevaleceu foi pelo edifício de uso misto, aqueles com estabelecimentos comerciais no térreo e moradias nos demais andares. (DEUS, Laura, 2013)

Os bondes sequer tiveram seus contratos renovados, uma vez que não valia mais a pena o investimento, por causa do crescimento da cidade. A Light, empresa que administrava o serviço, opera até o ano de 1947, quando, após acordos financeiros, o acervo dos bondes passa à Companhia municipal de transportes coletivos (CMTC)  (p.85). No ano de 1959, a operação na Augusta foi implantada e a priorização do transporte público foi um dos principais assuntos discutidos, entretanto, não se chegava a um consenso em que ainda fosse possível obter a redução do tráfego e as decisões permaneceram estagnadas.

Infelizmente, como não existem dados consistentes, a nomenclatura da Augusta talvez seja um mistério eterno para a cidade. Entretanto, o significado dessa localidade para a cidade pode ser relembrado. O começo da década de 50, em nível global, marca o surgimento das primeiras influências de fenômeno que começava aparecer nos Estados Unidos e em parte da Europa: uma cultura juvenil.

No Brasil essa influência também fez parte do nosso cotidiano, mas de maneira um pouco diferente, fazendo com que os jovens rompessem alguns padrões impostos pela sociedade vigente da época e começassem a “tomar” as ruas. Talvez o maior símbolo desse fenômeno juvenil foi o grande programa Jovem Guarda, que passava na TV Record em 1965 e durou até 1968. (Oliveira de, Abrahão, 2013)

A rua vivia sua glória principalmente depois da criação do Shopping Center Iguatemi, sob slogan “O primeiro de São Paulo, o maior da América do Sul”, com objetivo de dar comodidade aos que tinham maior poder de compra, tendo em vista que poderiam permanecer no mesmo ambiente para realizá-las em diferentes departamentos – em seus primeiros anos, o Shopping buscava justamente convencer comerciantes para abrir filiais em seu interior. Com êxito pela aceitação entre a classe média e a classe alta, se causa uma “revolução” no sistema de compras paulistano. Se outrora, na década de 1970 e 1980, havia grandes hotéis luxuosos se instalando na Rua Augusta, pólo hoteleiro, seus arredores logo mais também sentiram a influência – contudo, a estabilidade se perde na década seguinte. Em 1990, se instaura uma crise no setor, devido a falta de manutenção na rua e arredores – reforçada pela mídia-  e ocasionada também pela valorização imobiliária, que tornou a rua caríssima para se morar ou permanecer no comércio e o surgimento de novos hotéis mais tecnológicos em seus serviços em outros locais.

Tais mudanças na essência da Augusta provocaram uma maneira alternativa de se conseguir dinheiro, se desde 1970 havia prostituição na rua, a intensidade depois de 1980 se dobra. 

Já na segunda metade da década de 1980, observa-se que a rua Augusta tem um número significativo de casas relacionadas à prática de prostituição, concentradas principalmente na região intermediária do lado central da rua. Apesar de modificarem os serviços e o nome das casas ao longo do tempo, muitas casas continuaram até a primeira metade da década de 2000 nos mesmos locais. Um exemplo é a boate Maison (rua Augusta, 660), da qual se tem um registro nos jornais em 1980 como uma cada de relax for men cok serviço de massagens (O ESTRADO DE S. PAULO, 17/06/1980), incluindo a requisitada técnica japonesa, e no começo de 2000 é caracterizada como um “american bar” (FOLHA DE S. PAULO, 20/02/2011) mas ainda ocupando o mesmo imóvel.

Emicida, em seus versos, aponta a realidade das vítimas da desigualdade social que se agrava em São Paulo como um todo, que recorrem à prostituição para sobrevivência. Ao escrever As maquiagem forte esconde os hematoma na alma”, demonstra como, na visão do autor, que se apresenta aparentemente compadecido, é um trabalho árduo; e de acordo com o verso a seguir são, em suma, homens que “escapam” dos seus casamentos os maiores clientes: “Os que vem e não te tem são se necessário homem de bem fujão”.  Em seguida, “Cortando as hora com um casaco de “vizon”/ No olho a cor tá combinando com o batom/ Atenta nas buzina ela vai pelo som/ Escrevendo sua história com neon”, caracteriza o fluxo movimentado e uma vestimenta que pode refletir que existe uma rentabilidade na profissão nesse local, uma vez que, atualmente, custa na faixa de 5 a 13 mil reais.

De acordo com a matéria publicada pela Folha de São Paulo, em 2018 , que disserta sobre a série “Rua Augusta”, aborda as facetas da prostituição. No primeiro, Mika, a protagonista, de família rica, pôde escolher fazer parte das noites paulistanas após visitar duas casas Studio SP e Vegas; é claro que, ela, por mais que fictícia, representa um número ínfimo em um panorama onde sequer possuem oportunidade de permanecer educação – como escreve a música “Auto-ditada aprimora o estilo enquanto trabalha/ E se flagra chorando em frente ao espelho/ Bola mais um acende puxa disfarça o olho vermelho volta”. 

Se discute, no entanto, que foi a própria prostituição que fez da rua como ela é hoje, com a diversidade que convive que bares e baladas, festas e cafés e criam uma atmosfera de aceitação entre, em sua maioria, jovens. Assim, podemos dizer que o caráter plural e festivo da Augusta hoje difundido pela mídia e por nós tomado como verdade é fruto de diversos processos sociais, políticos e econômicos, muitas vezes contraditórios, que envolveram a Rua desde sua criação.

A prostituição ainda é vista como um símbolo da rua, mesmo tendo predominado apenas de meados da década de 70 até o início dos anos 2000. O comunicólogo explica que “[os artistas e intelectuais] começam a se atrair por este mundo da prostituta e a representá-lo, então a Rua Augusta começa a se tornar um símbolo da prostituição”. Esta reputação foi uma das responsáveis por, a partir de 2005, casas noturnas surgirem e iniciarem o processo de atração dos atuais frequentadores. Na pesquisa, Pissardo concluiu que a ambientação de parte desses locais remetia a um conceito de prostituição idealizado, mas que foi suficiente para tirar a Rua Augusta da obscuridade e transformá-la em um dos principais palcos da juventude de classe média paulistana. Este cenário de intensa agitação cultural está promovendo o fenômeno de valorização dos imóveis da região, com a construção de novos prédios e até a demolição de algumas construções antigas.

Referências Bibliográficas

ABDO, Humberto. Divirta-se visitamos dez baladas do Baixo. São Paulo, 11 jan. 2018. Disponível em: <https://cultura.estadao.com.br/blogs/divirta-se/divirta-se-visitamos-dez-baladas-do-baixo-augusta/>. Acesso em: 08 jan. 2020.

Clássico da Rua Augusta, clube vegas fecha as portas após sete anos. São paulo, 16 abr. 2012. Disponível em: <https://guia.folha.uol.com.br/noite/1076962-classico-da-rua-augusta-clube-vegas-fecha-as-portas-apos-sete-anos.shtml&gt;. Acesso em: 09 jan. 2020.

PISSARDO, Felipe Melo. A Rua apropriada: estudos sobre as transformações e usos urbanos na Rua Augusta (1891-2012). 2013. 231 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16136/tde-12082013-101209/publico/FelipePissardo_ARuaApropriada_baixa.pdf&gt;. Acesso em: 20 dez. 2019

Região da Frei Caneca vira point GLS. 22/06/2003. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2206200321.htmff2206200321.htm. Acesso em: 09 jan. 2020.

USO ATUAL DA RUA AUGUSTA TEM RELAÇÃO COM SUA HISTÓRIA, REVELA PESQUISA DA FAU: Prostituição, declive do terreno e outros fatores influenciaram forma de lazer noturno de seus frequentadores. São Paulo, 04 out. 2013. Disponível em: <https://www5.usp.br/34190/uso-atual-da-rua-augusta-tem-relacao-com-sua-historia/&gt;. Acesso em: 05 jan. 2020.

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