Das luzes do Lampião da esquina – Nossas memórias e histórias

Escrito por Almerindo Cardoso Simões Junior e publicado na II edição da Revista Memória LGBT.

O período do fim da ditadura no Brasil marca uma época muito particular de nossa história. Além da abertura política, apresenta‑se a possibilidade de novos discursos, em especial de grupos considerados minoritários ou marginais. Buscando maior visibilidade, vários destes grupos veriam na mídia um meio de propagar suas ideias e apresentar novas posturas identitárias, diferentes daquelas forjadas pela ideologia dominante de então. A efervescência política e social da época propiciava o momento exato para o (re)surgimento de sentidos e vozes considerados esquecidos, discursos escondidos que clamavam por emergir. Vários periódicos aparecem nesse período como forma de resistência ao regime militar e como instrumento capaz de conferir visibilidade às chamadas minorias. Vinculado à esquerda, este tipo
de jornal, muitas vezes de tiragem irregular e produção quase artesanal, inseria em seu discurso as vozes de grupos tidos como minoritários ou marginais. A partir dos anos 60, em especial, surgem os jornais voltados para a comunidade homossexual, particularmente a masculina.

Em fins de 1977, um grupo de jornalistas, intelectuais e artistas se reúne na casa do pintor Darcy Penteado em São Paulo. O ponto embrionário desse encontro teria sido a entrevista que João Antônio
Mascarenhas, na época colunista do Pasquim, havia feito com Winston Leyland, editor do Gay Sunshine, publicação americana dirigida a homossexuais. Não só Mascarenhas como outros jornalistas ficam tão empolgados que decidem lançar uma publicação que relacionasse o homossexual e seu contexto social, que discutisse os mais diversos temas e fosse vendido nas bancas de todo o país. Surge assim O lampião da esquina, primeiro jornal homossexual de circulação nacional.

Créditos: Editora Multifoco

O jornal foi um dos maiores ícones do movimento homossexual do fim da ditadura no Brasil. Vendido nas bancas de 1978 a 1981, suas 37 edições deram vez e voz a inúmeras pessoas que escreviam mensalmente a seus editores. Refletir sobre suas cartas é contemplar não só um movimento de resistência
contra a ditadura militar, mas também o processo de afirmação homossexual, acompanhando as múltiplas construções identitárias pelas quais este grupo passou neste período, cujas consequências nos afetam ainda hoje. O reconhecimento do jornal enquanto lugar de memória e construtor de identidades LGBT legitimou o lampião da esquina na qualidade de produtor de um discurso que deveria ser analisado como representativo do homossexual brasileiro no período de transição entre as décadas de 70 e 80 do século XX.

Assumir e orgulhar‑se de sua homossexualidade, sair dos guetos, transitar como qualquer outro cidadão, ter livre arbítrio para escolher lugares de lazer e, acima de tudo, exprimir sua sexualidade são temas constantes em Lampião. A análise das cartas dos leitores, constituintes da seção cartas na mesa, evidencia três momentos bem nítidos na trajetória do jornal: 1978 apresenta um discurso positivo de afirmação
de identidades. Em 1979, o orgulho de ser homossexual é associado ao ideário de ser este também um cidadão político. As cartas do ano de 1980 privilegiam discursos ligados a movimentos de conscientização homossexual e ao surgimento dos primeiros grupos organizados. O último número de Lampião sai em julho de 1981. Divergências ideológicas entre seus editores, além de aumento dos custos de produção,
queda nas vendas e as próprias mudanças políticas do Brasil fazem com que o jornal pare de circular, deixando um espaço até hoje ão preenchido por nenhuma outra publicação veiculada para o público LGBT.


Imagem da Capa: Fundação Perseu Abramo

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