O Diabo de Mário de Andrade: avanços e riscos para a memória LGBT a partir do debate sobre a sexualidade de Mário de Andrade

Ao refletir sobre os dois retratos que dele foram feitos, Mário de Andrade conclui: ao passo que Portinari teria captado apenas “a parte do Anjo”, Lasar Segall projetara “o que havia de perverso em mim”, ou seja, “a parte do Diabo”. E quando comparadas as pinturas, percebe‑se a que Diabo delicado, sinuoso, sensual, divertido e triste ele estava se referindo. Nesse contraponto e nas alegorias que usou para se explicar, percebemos tensão dicotômica, medo e sofrimento que perseguiram Mário ao longo de sua vida – e o perseguem até hoje.

Mário de Andrade por Portinari
Créditos: Itaú Cultural

Enquanto redige a carta em 1928, certamente é aquele Diabo da pintura de Segall que guia Mário. Ali ele considera sobre os falatórios sobre suas “amizades platônicas”, sua “tão falada homossexualidade” e a “socialisão absolutamente desprezível” de sua vida privada. Embora chame seus algozes de “ridículos” e contraditórios, Mário assegura que se porta “com absoluta e elegante discrição social”, sendo “incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua”. Aquele homem de tantas contribuições
para a cultura no Brasil vivia, de fato, oprimido e difamado: “Me dão todos os vícios que por ignorância
ou por interesse de intriga, são por eles considerados ridículos”. E afirma: “Tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão”. A perseguição política que sofreu até sua precoce morte, aos 51 anos, deprimido, solitário, fumante inveterado e alcoólico, certamente estão vinculados ao resultado dessa pressão em seu cotidiano.

Mário de Andrade por Lasar Segall
Créditos: Itaú Cultural

Há uma enorme importância no ato da CGU determinar que a Fundação Casa de Rui Barbosa abra a misteriosa carta para consulta pública. Trata‑se de um momento significativo para a história da liberdade de informação do país, onde se delimita que princípios como a homofobia não podem ser determinantes para a consulta de arquivos mantidos em boa parte por fundos públicos. Também é relevante porque a partir de agora, oficialmente, não se pode ignorar a sexualidade do célebre autor, já que os trechos da carta provam que o tormento experimentado em vida afetavam sua percepção de mundo e crítica social. A Fundação meteu os pés pelas mãos: membros de sua equipe chegaram a tentar apontar que tal informação era irrelevante, assim como passar a responsabilidade aos herdeiros de Mário, escancarando que arquivos mantidos por fundos públicos estão ao gosto de privados. Ficou claro também que foi contra sua vontade que a Fundação acabou por ceder via determinação judicial, assim como é visível que a instituição não pretende promover um debate para aprofundar as implicações do assunto no âmbito da pesquisa. O que deixa entender é que a Fundação está com uma infantil vergonha de ter em seu acervo um homossexual. A vergonha, neste caso, está em ter tentado guardar esta importante informação para “preservar a integridade do autor”, como se argumentou, mediante um contexto tão violento em que estamos vivendo, onde torna‑se cada vez mais necessário referenciar positivamente os LGBT do passado como estratégia pedagógica. Claro que não será a sexualidade capaz de explicar a vida e obra de Mário de Andrade, mas certamente não é possível compreender ambas sem a considerar. E sem Mário inteiro, não podemos entender o Brasil.

Mas beiramos um conjunto de riscos com tamanho avanço. Admitir que somente agora Mário sai do armário é corroborar com a hipocrisia que tentou mantê‑lo por lá. Um olhar minimamente atento à obra do antropofágico já revelava este detalhe: desde o travestismo experimentado por Macunaíma, passando por suas fotos de campo e alcançando o conto Frederico Paciência, tudo está ali, a homoeroticidade e a violência a qual a diversidade sexual sempre foi submetida no país. Além disso, há muito pesquisadores como João Silvério Trevisan e Luiz Mott apontavam tal aspecto, assim como de outros nomes célebres, denunciando o sistema homofóbico institucionalizado na academia e casas de memória. De quebra,
tais pesquisadores foram hostilizados e ridicularizados, desprezando‑se suas conclusões sérias – muitas delas com aspectos mais profundos do que os detalhes revelados na tal carta no caso de Mário. A memória da pesquisa no Brasil sobre a sexualidade de Mário não pode ser obscurecida por uma jogada de marketing empreendida pela editora que encabeça este recente movimento e uma retomada aos clássicos da memória LGBT é, mais do que nunca, necessária.

Mas, sobretudo, o maior risco que se apresenta nesta abordagem é entender o sofrimento de Mário como um padrão da memória LGBT. Não se pode esquecer que o lugar que ocupava o protegeu da homofobia quando dimensionamos a mesma sociedade relacionada com homossexuais, lésbicas, transexuais e travestis populares. A memória LGBT não pode ser construída no Brasil apenas a partir dos nomes da elite. Há uma massa de anônimos sem história e memória que padeceram de horrores muito além das preocupações nascidas em falatórios dos círculos sociais da elite paulista e suas intrigas políticas. Neste ponto reside um calabouço vergonhoso para o país, tomado de desmoralizações, fomes, doenças, desemprego, perseguições, prisões, internações compulsórias, torturas, apedrejamentos e assassinatos que revelam até onde uma sociedade fóbica aos LGBT pode chegar, sobretudo com indivíduos sem a proteção
de sobrenomes, heranças ou cargos políticos. História, essa, que ainda não acabou.

Quando se deu no Rio de Janeiro o recente funeral da transformista Marquesa e o religioso responsável pela celebração final perguntou aos presentes onde estavam os membros da família, Rogéria prontamente respondeu: “A família somos nós”. É nesse “nós”, nesse importante pronome com poder de sensibilização – e por isso de transformação — onde reside a real potência da memória LGBT. A massa de anônimos que recriam suas trajetórias, famílias e comunidades, a partir das brechas que uma sociedade pautada no ódio tem a oferecer, são, sim, os que podem tirar o Brasil do armário e promover uma sociedade justa pautada na paz sem necessidade de demônios ou anjos.

Artigo escrito por Jean Baptista e Tony Boita na 8ª edição da Revista Memória LGBT, “Ser Gay na Favela”.

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