Em destaque

Museus, Memórias e Museologia LGBT + Feminismo

Esta é uma edição especial da Revista Memória LGBT por diversos motivos, alguns festivos, outros nem tanto.

Em primeiro lugar, é uma edição cheia de gratidão. Trata-se de um material financiado coletivamente por pessoas que acreditaram neste projeto. Agradecemos a Alexandre Gaspari, Aparecida Paiva, Augusto
Francelino, Benito Schmidt, Camilo Braz, Cassiano Bovo, Cesar Barcelos Junior, Eder Eddine, Eliane Martins de Freitas, Eliane Muratore, Gabriel Andrade de Freitas, Gabriel Thier, Geyzon Dantas, Inês Gouveia, Jezulino Lucio Braga, Luciana Alves, Luiz Morando, Manuelina Duarte Cândido, Marcelo Araujo, Maria Luiza Rodrigues, Ronaldo Oliveira, Simone Ramos, R.M. e Tatielle Brito Nepomuceno.

Em seguida, alegra ver que se trata de uma edição dedicada exclusivamente às palestras do II Seminário Brasileiro de Museus, Memória e Museologia LGBT+Feminismo (SeBraMus LGBT+), evento que reúne
importantes pesquisas acadêmicas desenvolvidas no país quando interseccionam o tema LGBT (sigla em Políticas Públicas) e o feminismo.

Este evento e textos resultam de duas importantes articulações: a Rede LGBT de Memória e Museologia Social, a cada ano mais próxima de profissionais de museus feministas, e o Grupo de Trabalho Corpo, Gênero e Sexualidade do Seminário Brasileiro de Museologia (Sebramus), lá já a somar quatro edições. Mais do que nunca, o argumento de que tais estudos são inexistentes ou restritos a um coletivo cai por terra: a Museologia LGBT e a Museologia Feminista, plurais em forma e nomeações, consolidam-se como campo de pesquisa presentes na academia e comunidades.

Por fim, nos pesa a dor de estar a escrever e realizar estas atividades no contexto de um país que passa os 100 mil mortos por uma doença que bem poderia ser controlada mediante a adoção de medidas protetivas
massivas. Guardadas as particularidades, é inevitável lembrar o abandono que a comunidade LGBT foi jogada pelo negacionismo político quando a epidemia do HIV alcançou o planeta, fenômeno responsável até hoje por milhares de mortes. No que nos cabe, os museus e a Museologia que nos interessa farão seu papel: não as esqueceremos.

Protejam-se, mas não se calem,
Jean Baptista e Tony Boita

Chamada para artigos – Cadernos de Sociomuseologia – Corpo, Gênero e Dissidências nos Museus e na Museologia

Organização: Judite Primo, Jean Baptista, Tony Boita.

DATA FINAL PARA ENVIO: 30 de outubro de 2020.

CHAMADA: A presente chamada destina-se a promover o debate sobre corpo, gênero e dissidências plurais nos museus e na Museologia. Para tal, propõe a reunião de artigos que versam sobre novos objetos e novas abordagens relativas a identidades que escapam da matriz hegemônica masculina mormente vigente nos museus e na Museologia. Para tal, apoia-se na Resolução no. 4/ICOM (2013), nos Princípios de Yogyakarta (2007), na Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (2002), entre outros documentos que orientam sobre a necessidade de se buscar novas políticas culturais que contemplem a diversidade tendo em vista a superação de desigualdades históricas. Neste sentido, este Dossiê recebe artigos sobre ações e reflexões em múltiplas abordagens teóricas, em especial quando tratam sobre documentação, conservação, expografia, ação educativa, comunicação, política de aquisição e descarte, entre outros ofícios e saberes próprios dos museus e da Museologia, particularmente quando vinculados aos modos de representar ou de esquecer corpos femininos e/ou dissidentes. Em conjunto, este Dossiê objetiva promover a circulação de conhecimentos interessados no aprofundamento do pensamento sociomuseológico diretamente vinculado aos debates de equidade de gênero e orientações plurais, compreendendo os museus e a Museologia enquanto importantes agentes do processo de superação de fobias contemporâneas a essas corporalidades.

Maiores informações: http://www.museologia-portugal.net/noticias/chamada-artigos-cadernos-sociomuseologia-n-17-v-61-2021

Memórias e Patrimônios LGBT

A Revista Ventilando Acervos lançou sua nova edição com o tema Memórias e Patrimônios LGBT!

A presente edição é a materialização das memórias do IV Seminário de Política de Acervos – Memórias e Patrimônios LGBT. O evento foi realizado pelo Museu Victor Meirelles, de 4 a 6 de novembro de 2019, em Florianópolis.

Leia a edição completa aqui: http://ventilandoacervos.museus.gov.br/edicao-atual/

Baixe a edição completa clicando na imagem

Ventilando Acervos

Ser Gay na Favela

Líder comunitário, auxiliar de escritório, passista, técnico em contabilidade, negros, jovens, pais… Gays. Diferentes vidas, ligadas em defesa da liberdade e o respeito.

No decorrer de sua história, a cidade do Rio de Janeiro foi o cenário de muitas memórias protagonizada por homossexuais. Algumas ainda resistem, como é o caso de Cazuza, Clodovil, Clóvis Bornay e tantas outras celebridades “aceitas” pela sociedade. Existem ainda aqueles invisibilizados, marginalizados e ao longo do tempo banalizados, como Madame Satã e todos aqueles gays residentes em periferias em âmbito urbano e/ou rural. Há, contudo, um ponto em comum entre celebridades e periféricos: ambas as memórias vêm sendo esquecidas ao longo dos 450 anos da cidade maravilhosa.

Para esta exposição em Revista utilizamos parte da memória viva do gigantesco acervo do Museu de Favela Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Através de entrevistas e imagens coletadas pelos mobilizadores do Projeto Memória LGBT no MUF, selecionamos quatro lideranças Gays das Comunidades Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Eles são, jovens homossexuais de diferentes áreas, idades e profissões que reinventam e driblam o preconceito. A exposição Ser Gay na Favela, pretende preservar as memórias até então invisibilizadas, além de, apresentar o protagonismo da juventude gay de favela.

Acesse a exposição em revista no link abaixo:

O Diabo de Mário de Andrade: avanços e riscos para a memória LGBT a partir do debate sobre a sexualidade de Mário de Andrade

Ao refletir sobre os dois retratos que dele foram feitos, Mário de Andrade conclui: ao passo que Portinari teria captado apenas “a parte do Anjo”, Lasar Segall projetara “o que havia de perverso em mim”, ou seja, “a parte do Diabo”. E quando comparadas as pinturas, percebe‑se a que Diabo delicado, sinuoso, sensual, divertido e triste ele estava se referindo. Nesse contraponto e nas alegorias que usou para se explicar, percebemos tensão dicotômica, medo e sofrimento que perseguiram Mário ao longo de sua vida – e o perseguem até hoje.

Mário de Andrade por Portinari
Créditos: Itaú Cultural

Enquanto redige a carta em 1928, certamente é aquele Diabo da pintura de Segall que guia Mário. Ali ele considera sobre os falatórios sobre suas “amizades platônicas”, sua “tão falada homossexualidade” e a “socialisão absolutamente desprezível” de sua vida privada. Embora chame seus algozes de “ridículos” e contraditórios, Mário assegura que se porta “com absoluta e elegante discrição social”, sendo “incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua”. Aquele homem de tantas contribuições
para a cultura no Brasil vivia, de fato, oprimido e difamado: “Me dão todos os vícios que por ignorância
ou por interesse de intriga, são por eles considerados ridículos”. E afirma: “Tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão”. A perseguição política que sofreu até sua precoce morte, aos 51 anos, deprimido, solitário, fumante inveterado e alcoólico, certamente estão vinculados ao resultado dessa pressão em seu cotidiano.

Mário de Andrade por Lasar Segall
Créditos: Itaú Cultural

Há uma enorme importância no ato da CGU determinar que a Fundação Casa de Rui Barbosa abra a misteriosa carta para consulta pública. Trata‑se de um momento significativo para a história da liberdade de informação do país, onde se delimita que princípios como a homofobia não podem ser determinantes para a consulta de arquivos mantidos em boa parte por fundos públicos. Também é relevante porque a partir de agora, oficialmente, não se pode ignorar a sexualidade do célebre autor, já que os trechos da carta provam que o tormento experimentado em vida afetavam sua percepção de mundo e crítica social. A Fundação meteu os pés pelas mãos: membros de sua equipe chegaram a tentar apontar que tal informação era irrelevante, assim como passar a responsabilidade aos herdeiros de Mário, escancarando que arquivos mantidos por fundos públicos estão ao gosto de privados. Ficou claro também que foi contra sua vontade que a Fundação acabou por ceder via determinação judicial, assim como é visível que a instituição não pretende promover um debate para aprofundar as implicações do assunto no âmbito da pesquisa. O que deixa entender é que a Fundação está com uma infantil vergonha de ter em seu acervo um homossexual. A vergonha, neste caso, está em ter tentado guardar esta importante informação para “preservar a integridade do autor”, como se argumentou, mediante um contexto tão violento em que estamos vivendo, onde torna‑se cada vez mais necessário referenciar positivamente os LGBT do passado como estratégia pedagógica. Claro que não será a sexualidade capaz de explicar a vida e obra de Mário de Andrade, mas certamente não é possível compreender ambas sem a considerar. E sem Mário inteiro, não podemos entender o Brasil.

Mas beiramos um conjunto de riscos com tamanho avanço. Admitir que somente agora Mário sai do armário é corroborar com a hipocrisia que tentou mantê‑lo por lá. Um olhar minimamente atento à obra do antropofágico já revelava este detalhe: desde o travestismo experimentado por Macunaíma, passando por suas fotos de campo e alcançando o conto Frederico Paciência, tudo está ali, a homoeroticidade e a violência a qual a diversidade sexual sempre foi submetida no país. Além disso, há muito pesquisadores como João Silvério Trevisan e Luiz Mott apontavam tal aspecto, assim como de outros nomes célebres, denunciando o sistema homofóbico institucionalizado na academia e casas de memória. De quebra,
tais pesquisadores foram hostilizados e ridicularizados, desprezando‑se suas conclusões sérias – muitas delas com aspectos mais profundos do que os detalhes revelados na tal carta no caso de Mário. A memória da pesquisa no Brasil sobre a sexualidade de Mário não pode ser obscurecida por uma jogada de marketing empreendida pela editora que encabeça este recente movimento e uma retomada aos clássicos da memória LGBT é, mais do que nunca, necessária.

Mas, sobretudo, o maior risco que se apresenta nesta abordagem é entender o sofrimento de Mário como um padrão da memória LGBT. Não se pode esquecer que o lugar que ocupava o protegeu da homofobia quando dimensionamos a mesma sociedade relacionada com homossexuais, lésbicas, transexuais e travestis populares. A memória LGBT não pode ser construída no Brasil apenas a partir dos nomes da elite. Há uma massa de anônimos sem história e memória que padeceram de horrores muito além das preocupações nascidas em falatórios dos círculos sociais da elite paulista e suas intrigas políticas. Neste ponto reside um calabouço vergonhoso para o país, tomado de desmoralizações, fomes, doenças, desemprego, perseguições, prisões, internações compulsórias, torturas, apedrejamentos e assassinatos que revelam até onde uma sociedade fóbica aos LGBT pode chegar, sobretudo com indivíduos sem a proteção
de sobrenomes, heranças ou cargos políticos. História, essa, que ainda não acabou.

Quando se deu no Rio de Janeiro o recente funeral da transformista Marquesa e o religioso responsável pela celebração final perguntou aos presentes onde estavam os membros da família, Rogéria prontamente respondeu: “A família somos nós”. É nesse “nós”, nesse importante pronome com poder de sensibilização – e por isso de transformação — onde reside a real potência da memória LGBT. A massa de anônimos que recriam suas trajetórias, famílias e comunidades, a partir das brechas que uma sociedade pautada no ódio tem a oferecer, são, sim, os que podem tirar o Brasil do armário e promover uma sociedade justa pautada na paz sem necessidade de demônios ou anjos.

Artigo escrito por Jean Baptista e Tony Boita na 8ª edição da Revista Memória LGBT, “Ser Gay na Favela”.

Museus e Iniciativas Lésbicas paras visitar online

As Lésbicas são invisibilizadas duplamente na maioria dos museus e iniciativas em memória no Brasil e no mundo. Primeiro por ser mulher (machismo), segundo por ser lésbica (lesbofobia). Infelizmente, suas memórias, histórias e trajetórias são ocultadas e/ou forjadas de forma explícita.

Isso se dá pelo fato dos espaços de memória serem contruídos a partir de uma “matriz heterossexual” (Butler, 2003). Por sua vez, Adrienne Rich (2010) mostra a estratégia do “fechamento de arquivos e da destruição de documentos relacionados com a existência lésbica” (2010, p. 24). De fato, invisibilizar as lesbianidades, perpassa o machismo e lesbofobia.

Recentemente compartilhei aqui os museus virtuais LGBTIQ, posteriormente as iniciativas voltadas para a preservação da memória travesti e trans aqui. Trata-se do resultado parcial da pesquisa que desenvolvo, cartografando museus e iniciativas comunitárias em memória da comunidade LGBTIQ.

Tenha uma ótima visita virtual a estes importantes espaços!

Mazer Lesbian Archives – Estados Unidos
Iniciativa voltada para a preservação e difusão das memórias lésbicas.

Charlotte Museum Trust – Nova Zelândia

Museu dedicado a preservação das memórias, cultura e dos registros materiais de mulheres lésbicas na Nova Zelândia.

Museum Of New Zealand Te Papa Tongarewa – Nova Zelândia

O museu promove exposições temporárias, eventos e apresentações culturais em seus espaços voltados para a comunidade lésbica. Possui uma coleção significativa.

Lesbian Herstory Archives – Estados Unidos

Arquivo dedicado a pesquisar, preservar e difundir as memórias de mulheres lésbicas.

Escrito por Tony Boita – tony@memorialgbt.org

Das luzes do Lampião da esquina – Nossas memórias e histórias

Escrito por Almerindo Cardoso Simões Junior e publicado na II edição da Revista Memória LGBT.

O período do fim da ditadura no Brasil marca uma época muito particular de nossa história. Além da abertura política, apresenta‑se a possibilidade de novos discursos, em especial de grupos considerados minoritários ou marginais. Buscando maior visibilidade, vários destes grupos veriam na mídia um meio de propagar suas ideias e apresentar novas posturas identitárias, diferentes daquelas forjadas pela ideologia dominante de então. A efervescência política e social da época propiciava o momento exato para o (re)surgimento de sentidos e vozes considerados esquecidos, discursos escondidos que clamavam por emergir. Vários periódicos aparecem nesse período como forma de resistência ao regime militar e como instrumento capaz de conferir visibilidade às chamadas minorias. Vinculado à esquerda, este tipo
de jornal, muitas vezes de tiragem irregular e produção quase artesanal, inseria em seu discurso as vozes de grupos tidos como minoritários ou marginais. A partir dos anos 60, em especial, surgem os jornais voltados para a comunidade homossexual, particularmente a masculina.

Em fins de 1977, um grupo de jornalistas, intelectuais e artistas se reúne na casa do pintor Darcy Penteado em São Paulo. O ponto embrionário desse encontro teria sido a entrevista que João Antônio
Mascarenhas, na época colunista do Pasquim, havia feito com Winston Leyland, editor do Gay Sunshine, publicação americana dirigida a homossexuais. Não só Mascarenhas como outros jornalistas ficam tão empolgados que decidem lançar uma publicação que relacionasse o homossexual e seu contexto social, que discutisse os mais diversos temas e fosse vendido nas bancas de todo o país. Surge assim O lampião da esquina, primeiro jornal homossexual de circulação nacional.

Créditos: Editora Multifoco

O jornal foi um dos maiores ícones do movimento homossexual do fim da ditadura no Brasil. Vendido nas bancas de 1978 a 1981, suas 37 edições deram vez e voz a inúmeras pessoas que escreviam mensalmente a seus editores. Refletir sobre suas cartas é contemplar não só um movimento de resistência
contra a ditadura militar, mas também o processo de afirmação homossexual, acompanhando as múltiplas construções identitárias pelas quais este grupo passou neste período, cujas consequências nos afetam ainda hoje. O reconhecimento do jornal enquanto lugar de memória e construtor de identidades LGBT legitimou o lampião da esquina na qualidade de produtor de um discurso que deveria ser analisado como representativo do homossexual brasileiro no período de transição entre as décadas de 70 e 80 do século XX.

Assumir e orgulhar‑se de sua homossexualidade, sair dos guetos, transitar como qualquer outro cidadão, ter livre arbítrio para escolher lugares de lazer e, acima de tudo, exprimir sua sexualidade são temas constantes em Lampião. A análise das cartas dos leitores, constituintes da seção cartas na mesa, evidencia três momentos bem nítidos na trajetória do jornal: 1978 apresenta um discurso positivo de afirmação
de identidades. Em 1979, o orgulho de ser homossexual é associado ao ideário de ser este também um cidadão político. As cartas do ano de 1980 privilegiam discursos ligados a movimentos de conscientização homossexual e ao surgimento dos primeiros grupos organizados. O último número de Lampião sai em julho de 1981. Divergências ideológicas entre seus editores, além de aumento dos custos de produção,
queda nas vendas e as próprias mudanças políticas do Brasil fazem com que o jornal pare de circular, deixando um espaço até hoje ão preenchido por nenhuma outra publicação veiculada para o público LGBT.


Imagem da Capa: Fundação Perseu Abramo

Rua Augusta: reconstruindo a história através da vida noturna

Escrito por Ananda de Souza Viana e Edhilson Dantas Alves, publicado na 12ªEdição da Revista Memória LGBTIQ+.

A Rua Augusta como polo de lazer noturno e de encontro de tribos alternativas que conhecemos hoje tem precedentes na década de 1960, quando boates e bares que tocavam rock n’ roll eram frequentados por jovens em busca de casas noturnas que promovessem rupturas comportamentais e estéticas com os padrões das casas noturnas de elite da época.  Desde então, diversas transformações sociais e econômicas ocorreram naquela região e contribuíram para conformar a Augusta atual, transformando seus usos e o perfil de seus frequentadores. A conformação desse espaço como ponto de encontro e de identidade LGBT é o assunto que discutiremos nesse texto.

Na foto observa-se uma típica noite na Rua Augusta, onde o espaço público é extensão das casas noturnas da região. Foto: Revista “A Capa”.

O primeiro acontecimento decisivo para a ocupação da Augusta pelo público LGBT foi a criação e o sucesso da festa Grind, no clube A Lôca, em 1998. A festa, que existe até hoje, foi responsável por transformar o clube em “point GLS” em 2003, contribuindo para a consolidação da Rua Frei Caneca (sede do clube) como “Rua Gay”, e possibilitando que outras boates se instalassem na Augusta e obtivessem sucesso de público, ao atrair quem já frequentava os bares e casas noturnas da Frei Caneca.

Em 2005, a fundação do Vegas Club é um marco na consolidação da Augusta como referência na vida noturna na cidade. Criada com o conceito de diversidade musical, a casa, fechada desde 2012 devido a uma oferta milionária ao dono do imóvel, foi responsável pela divulgação midiática ostensiva da vida noturna na região, chamada, a partir de então, de “Baixo Augusta”, e pelo consequente surgimento de novas boates na vizinhança, uma vez que seu sucesso despertou o interesse de diversos empresários do ramo pela Rua. Felipe Melo Pissardo (2013), em “A Rua apropriada: estudos sobre as transformações e usos urbanos na Rua Augusta (1891-2012)” identifica duas grandes ondas de surgimento das casas noturnas: a primeira, entre 2006 e 2008, na qual observa-se uma concentração de novos estabelecimentos no entorno da Vegas, e a segunda, em 2009, que coincide com uma ampla divulgação midiática e reconhecimento social da Rua Augusta como polo de lazer noturno em São Paulo. No mapa a seguir estão identificados os clubes noturnos e bares existentes em na Augusta 2020, sendo possível perceber a permanência da identidade desse local, mesmo em face das pressões exercidas pelo setor imobiliário nos últimos anos.

Legenda: Lazer noturno na rua Augusta em 2018. Mapa elaborado pelos autores.

A partir de levantamento realizado pelos autores observa-se uma maior concentração de casas noturnas no lado “Centro”, região apelidada de “Baixo Augusta” após sua reocupação pelos jovens a partir de 2005. No lado “Jardins” da Rua, observa-se uma distribuição mais esparsa de bares e baladas, em conformidade com a dinâmica desse bairro que se torna mais residencial à medida em que se aproxima da Avenida Brasil. É interessante notar que, das 24 principais opções de lazer noturno na Augusta, 9 são voltadas ao público LGBT ou denominadas “LGBT friendly” por veículos de comunicação e divulgação do turismo paulistano, o que representa 37% das opções de lazer noturno disponíveis. A seguir, veremos quais eventos marcaram a história dessa  rua e contribuíram para que ela se tornasse ao mesmo tempo sinônimo de vida noturna e de diversidade de público.

Reconstrução histórica

Como o seu próprio nome tem o propósito de significar, sendo uma das maiores e mais importantes de São Paulo, a Rua Augusta é majestosa e venerável. Projetada para ser uma das ligações da Av. Paulista ao Centro, temos atualmente noites agitadas e uma diversidade de “tribos” que convivem mutuamente, sendo referência para todo e qualquer turista que esteja em busca de se divertir, interagir e socializar.

Criada em 1875, foi inspiração para artistas como Ronnie Cord e Emicida, cantores de diferentes épocas que, com suas músicas chamadas “Rua Augusta”, trazem em seus versos, a partir de uma análise, algumas caracterizações do local. 

Escrita por Hervé Cordovil, a canção de 1963, traz os versos Entrei na rua Augusta a 120 por hora / Botei a turma toda do passeio pra fora / Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina / Parei a 4 dedos da vitrina”. A velocidade descrita não evidencia, no entanto, o grande tráfego de veículos. Se trata de uma idealização a respeito da mobilidade e, apontando como a região era ainda marcada pela presença predominante da elite paulistana, o carro que estaria passando seria um dos luxuosos da época. Seja, como exemplo, um Ford F-100 ou um Porshe 356, também precisaria ser grande o suficiente para caber a “turma toda” em seu interior.

Com as palavras “turma do passeio” e “vitrina” – terminada em “a” em referência ao português lusitano – observa-se que a música é produzida se desvencilhando dos efeitos do início da precarização do ambiente público e desvalorização imobiliária da década. Dessa forma, permanecendo para o autor a memória da década anterior, com lojas e moradias, tornavam a rua um grande centro de compras e com transporte público reduzido. 

Nas palavras de Felipe Melo Pissardo (2013), em sua dissertação denominada “A Rua apropriada: estudos sobre as transformações e usos urbanos na Rua Augusta (1891-2012)”, disserta as principais características. Na década de 1940, o transporte público estava em declínio na região, devido a elite local com o comércio voltado a ela, o aumento dos automóveis e maus olhos para o sistema público de transporte. 

O tempo passou e o povoamento da região fez com que edifícios de mais de um pavimento começassem a tomar conta da via. Na década de 1950, a opção arquitetônica que prevaleceu foi pelo edifício de uso misto, aqueles com estabelecimentos comerciais no térreo e moradias nos demais andares. (DEUS, Laura, 2013)

Os bondes sequer tiveram seus contratos renovados, uma vez que não valia mais a pena o investimento, por causa do crescimento da cidade. A Light, empresa que administrava o serviço, opera até o ano de 1947, quando, após acordos financeiros, o acervo dos bondes passa à Companhia municipal de transportes coletivos (CMTC)  (p.85). No ano de 1959, a operação na Augusta foi implantada e a priorização do transporte público foi um dos principais assuntos discutidos, entretanto, não se chegava a um consenso em que ainda fosse possível obter a redução do tráfego e as decisões permaneceram estagnadas.

Infelizmente, como não existem dados consistentes, a nomenclatura da Augusta talvez seja um mistério eterno para a cidade. Entretanto, o significado dessa localidade para a cidade pode ser relembrado. O começo da década de 50, em nível global, marca o surgimento das primeiras influências de fenômeno que começava aparecer nos Estados Unidos e em parte da Europa: uma cultura juvenil.

No Brasil essa influência também fez parte do nosso cotidiano, mas de maneira um pouco diferente, fazendo com que os jovens rompessem alguns padrões impostos pela sociedade vigente da época e começassem a “tomar” as ruas. Talvez o maior símbolo desse fenômeno juvenil foi o grande programa Jovem Guarda, que passava na TV Record em 1965 e durou até 1968. (Oliveira de, Abrahão, 2013)

A rua vivia sua glória principalmente depois da criação do Shopping Center Iguatemi, sob slogan “O primeiro de São Paulo, o maior da América do Sul”, com objetivo de dar comodidade aos que tinham maior poder de compra, tendo em vista que poderiam permanecer no mesmo ambiente para realizá-las em diferentes departamentos – em seus primeiros anos, o Shopping buscava justamente convencer comerciantes para abrir filiais em seu interior. Com êxito pela aceitação entre a classe média e a classe alta, se causa uma “revolução” no sistema de compras paulistano. Se outrora, na década de 1970 e 1980, havia grandes hotéis luxuosos se instalando na Rua Augusta, pólo hoteleiro, seus arredores logo mais também sentiram a influência – contudo, a estabilidade se perde na década seguinte. Em 1990, se instaura uma crise no setor, devido a falta de manutenção na rua e arredores – reforçada pela mídia-  e ocasionada também pela valorização imobiliária, que tornou a rua caríssima para se morar ou permanecer no comércio e o surgimento de novos hotéis mais tecnológicos em seus serviços em outros locais.

Tais mudanças na essência da Augusta provocaram uma maneira alternativa de se conseguir dinheiro, se desde 1970 havia prostituição na rua, a intensidade depois de 1980 se dobra. 

Já na segunda metade da década de 1980, observa-se que a rua Augusta tem um número significativo de casas relacionadas à prática de prostituição, concentradas principalmente na região intermediária do lado central da rua. Apesar de modificarem os serviços e o nome das casas ao longo do tempo, muitas casas continuaram até a primeira metade da década de 2000 nos mesmos locais. Um exemplo é a boate Maison (rua Augusta, 660), da qual se tem um registro nos jornais em 1980 como uma cada de relax for men cok serviço de massagens (O ESTRADO DE S. PAULO, 17/06/1980), incluindo a requisitada técnica japonesa, e no começo de 2000 é caracterizada como um “american bar” (FOLHA DE S. PAULO, 20/02/2011) mas ainda ocupando o mesmo imóvel.

Emicida, em seus versos, aponta a realidade das vítimas da desigualdade social que se agrava em São Paulo como um todo, que recorrem à prostituição para sobrevivência. Ao escrever As maquiagem forte esconde os hematoma na alma”, demonstra como, na visão do autor, que se apresenta aparentemente compadecido, é um trabalho árduo; e de acordo com o verso a seguir são, em suma, homens que “escapam” dos seus casamentos os maiores clientes: “Os que vem e não te tem são se necessário homem de bem fujão”.  Em seguida, “Cortando as hora com um casaco de “vizon”/ No olho a cor tá combinando com o batom/ Atenta nas buzina ela vai pelo som/ Escrevendo sua história com neon”, caracteriza o fluxo movimentado e uma vestimenta que pode refletir que existe uma rentabilidade na profissão nesse local, uma vez que, atualmente, custa na faixa de 5 a 13 mil reais.

De acordo com a matéria publicada pela Folha de São Paulo, em 2018 , que disserta sobre a série “Rua Augusta”, aborda as facetas da prostituição. No primeiro, Mika, a protagonista, de família rica, pôde escolher fazer parte das noites paulistanas após visitar duas casas Studio SP e Vegas; é claro que, ela, por mais que fictícia, representa um número ínfimo em um panorama onde sequer possuem oportunidade de permanecer educação – como escreve a música “Auto-ditada aprimora o estilo enquanto trabalha/ E se flagra chorando em frente ao espelho/ Bola mais um acende puxa disfarça o olho vermelho volta”. 

Se discute, no entanto, que foi a própria prostituição que fez da rua como ela é hoje, com a diversidade que convive que bares e baladas, festas e cafés e criam uma atmosfera de aceitação entre, em sua maioria, jovens. Assim, podemos dizer que o caráter plural e festivo da Augusta hoje difundido pela mídia e por nós tomado como verdade é fruto de diversos processos sociais, políticos e econômicos, muitas vezes contraditórios, que envolveram a Rua desde sua criação.

A prostituição ainda é vista como um símbolo da rua, mesmo tendo predominado apenas de meados da década de 70 até o início dos anos 2000. O comunicólogo explica que “[os artistas e intelectuais] começam a se atrair por este mundo da prostituta e a representá-lo, então a Rua Augusta começa a se tornar um símbolo da prostituição”. Esta reputação foi uma das responsáveis por, a partir de 2005, casas noturnas surgirem e iniciarem o processo de atração dos atuais frequentadores. Na pesquisa, Pissardo concluiu que a ambientação de parte desses locais remetia a um conceito de prostituição idealizado, mas que foi suficiente para tirar a Rua Augusta da obscuridade e transformá-la em um dos principais palcos da juventude de classe média paulistana. Este cenário de intensa agitação cultural está promovendo o fenômeno de valorização dos imóveis da região, com a construção de novos prédios e até a demolição de algumas construções antigas.

Referências Bibliográficas

ABDO, Humberto. Divirta-se visitamos dez baladas do Baixo. São Paulo, 11 jan. 2018. Disponível em: <https://cultura.estadao.com.br/blogs/divirta-se/divirta-se-visitamos-dez-baladas-do-baixo-augusta/>. Acesso em: 08 jan. 2020.

Clássico da Rua Augusta, clube vegas fecha as portas após sete anos. São paulo, 16 abr. 2012. Disponível em: <https://guia.folha.uol.com.br/noite/1076962-classico-da-rua-augusta-clube-vegas-fecha-as-portas-apos-sete-anos.shtml&gt;. Acesso em: 09 jan. 2020.

PISSARDO, Felipe Melo. A Rua apropriada: estudos sobre as transformações e usos urbanos na Rua Augusta (1891-2012). 2013. 231 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16136/tde-12082013-101209/publico/FelipePissardo_ARuaApropriada_baixa.pdf&gt;. Acesso em: 20 dez. 2019

Região da Frei Caneca vira point GLS. 22/06/2003. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2206200321.htmff2206200321.htm. Acesso em: 09 jan. 2020.

USO ATUAL DA RUA AUGUSTA TEM RELAÇÃO COM SUA HISTÓRIA, REVELA PESQUISA DA FAU: Prostituição, declive do terreno e outros fatores influenciaram forma de lazer noturno de seus frequentadores. São Paulo, 04 out. 2013. Disponível em: <https://www5.usp.br/34190/uso-atual-da-rua-augusta-tem-relacao-com-sua-historia/&gt;. Acesso em: 05 jan. 2020.

II Seminário Museus, Memória e Museologia LGBT+ Feminismo


Por que nossas memórias e histórias não estão nos museus?

II Seminário Brasileiro Museus, Memória e Museologia LGBT+Feminismo será realizado de 27 a 28 de agosto de 2020 em sala virtual da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O tema desta edição versa sobre a relação entre a questão LGBT+ e o feminismo na produção acadêmica nacional sobre memória, museus e Museologia.

O evento reúne pesquisadorxs acadêmicxs que produzem conhecimento intelectual inovador, decolonial e comprometido com a superação da discriminação de mulheres e pessoas LGBT+ nos museus e na Museologia, sobretudo quando articulam o campo a políticas públicas, justiça social e intersecções entre cor/raça, classe, gênero, identidade de gênero e orientação sexual. 

De modo a respeitar as regras de distanciamento social orientadas pela OMS, o evento teve sua data deslocada para 27 e 28 de agosto de 2020 e se transformou em virtual. 

As inscrições se dão via online, neste site, de 13/06 a 25/08, estando condicionada a posterior inscrição na sala virtual conforme orientações que a comissão organizadora enviará.

A atividade será certificada.

Se você deseja participar do evento online mas não possui meios tecnológicos para tal, ou conhece alguém nesta condição, entre em contato conosco.

Programação

27/08 – Quinta-Feira

14:00 – Abertura
Com Jezulino Lúcio Braga, Ana Audebert e Tony Boita
14:30 -Roda de Conversa Museus e Museologia Feminista
Com Suzy Santos, Ana Audebert, Camila Moraes Wichers, Marijara Queiroz, Luzia Ferreira, Alinny Raphaelle e Karyna Dultra.

28/08 – Sexta-Feira

10:00 – Roda de Conversa Ensino de Museologia Feminista e LGBT
Com Jean Baptista, Jezulino Lúcio Braga, Marlise Giovanaz, Camila Moraes Wichers, Felipe Areda e Tony Boita.
14:00 – Roda de Conversa Museus, Memória e Museologia LGBT
Com Vinicius Zacarias, Leonardo Vieira, Rafael Machado, Thainá Castro, Geanine Escobar e Tony Boita.
17:00 – Encerramento
Jean Baptista, Jezulino Lúcio Braga e Representante institucional do próximo evento


Dúvidas: contato@memorialgbt.org

Parque do Flamengo

Escrito por Tony Boita e publicado na VII edição da Revista Memórias LGBT

“Este é o Aterro do Flamengo” – disse o taxista com orgulho, acostumado com turistas, tão logo chegávamos ao parque – É um ótimo parque feito pelo Burle Marx.

A frase, sem que fosse intensão do profissional, doeu em mim. Há algum tempo estudando
o patrimônio LGBT, já tinha notícias de que a idealização do parque, sua construção e propostas singulares que o caracterizam, são de autoria de uma célebre lésbica, Lota de Macedo Soares (1910‑1967).

Lota manteve um relacionamento produtivo e conturbado com outra lésbica célebre, a escritora estadunidense norte americana Elizabeth Bishop (ao que parece, Bishop apoiou a ditadura militar brasileira). Em 1960, com o Governador Carlos Lacerda eleito, Lotta é convidada a ser responsável por projetar o parque. Em 1961 a seu pedido o governador assina o decreto no 607 que criava juntamente a Superintendência de Urbanização e Saneamento – Sursan o grupo de trabalho para a urbanização do aterrado do Glória‑Flamengo. Este grupo possuía a seguintes funções: a) orientar e projetar todas as obras arquitetônicas, paisagísticas e artísticas, a serem realizadas pela Sursan no aterrado Glória‑Flamengo; b) supervisionar a urbanização e a composição paisagística da faixa do aterrado, na orla marítima Glória‑Flamengo; c) opinar sobre a eventual aquisição e localização de qualquer obra de arte a essa área destinada.

Créditos: Instituto Lotta | Heróis e Heroínas do Rio de Janeiro

Na primeira formação deste grupo de trabalho, Lotta era a presidente e ao montar sua equipe convida para realização do projeto arquitetônico Jorge Machado Moreira e o responsável pelo anteprojeto do parque Affonso Eduardo Reidy. Também integraram o grupo de trabalho Berta Leitchic (engenharia), Ethel Bauzer Medeiros (recreação), Carlos Werneck de Carvalho, Sérgio Bernardes e Hélio Mamede (desenvolvimento de projetos). Esta equipe contou com os serviços técnicos da Roberto Burle Marx e Arquitetos Associados responsáveis pelo serviço paisagístico, encontrados próximos ao Museu de Arte Moderna; o Laboratório de Estudos Marinhos de Lisboa, que solucionou os problemas do aterramento
do parque; e do Richard Kelly contratado especialmente para solucionar a iluminação do parque com os maiores postes de luz mundo inspirados na luz da lua.

Créditos: Instituto Lotta | Heróis e Heroínas do Rio de Janeiro

Burle Marx já era um nome célebre do paisagismo brasileiro e rival político dos aliados de Lota. Publicamente, ele inicia uma campanha para tomar o controle das obras do parque. As alianças de Burle Marx possibilitaram, ao fim, que seu nome viesse à frente, e, ao que parece, a memória oficial do Rio de Janeiro preferiu, ao fim, reconhecer a autoria do parque ao paisagista, o que penetrou no imaginário da cidade e desembocou em minha conversa com o taxista.

Créditos: Instituto Lotta | Heróis e Heroínas do Rio de Janeiro

De fato, o Parque do Flamengo tornou‑se um complexo paisagístico composto por dois parques, museus, monumentos, pistas, quadras de esportes, clubes náuticos e jardins. Ele foi tombado (número do processo
0748‑T‑64) no livro tombo arqueológico, etnográfico e paisagístico em julho de 1965 (IPHAN, 2012), em uma das últimas articulações de Lota para impedir que o parque fosse transformado em área residencial. Nesta conjuntura, tornou‑se mais confortável aos sucessores, sobretudo militares, escamoteá‑la da memória do projeto, o que talvez tenha contribuído para o processo de depressão que culminou em seu suicídio, em 1967.

Créditos: Instituto Lotta | Modices

Após trinta anos da inauguração do parque, em 1995 a prefeitura do Rio de Janeiro através da Secretaria de Cultura e o Departamento Geral de Patrimônio Cultural, realizou uma homenagem à idealizadora
do Parque do Flamengo. Entre as atividades, foi inaugurada uma discreta placa resinificando a autoria do parque com os dizeres “Idealizadora do Parque do Flamengo e presidente do grupo de trabalho
que transformou um aterro em jardim e área de lazer ativo.”

Pensando nessa história, desci do táxi e pela primeira vez caminhei pelo Aterro, alcançando a placa que tenta solucionar a confusão. Queria ter conhecido Lota e dito a ela o quanto seu trabalho é importante
para mim, para as lésbicas, para a comunidade LGBT em geral. E queria lastimar, apesar do empenho, pelo desmerecimento de seu trabalho, apagado da memória nacional, ainda que a tal placa tente dar
conta do recado sem, contudo, advertir o imaginário da cidade. Também observei a movimentação LGBT por ali que, assim como outros grupos, tem o parque como lugar de referência.

E, ao fim, pensei quantos outros lugares nossos – quantos outros patrimônios LGBT – ainda estão silenciados, escondidos por equívocos discriminatórios, aguardando novas significações de sua história.