Participe da Rede LGBT de Memória e Museologia Social

A Rede LGBT de Memória e Museologia Social foi criada no dia 22 de novembro de 2012 durante o V Fórum Nacional de Museus na cidade de Petrópolis-RJ . Tal iniciativa tem como objetivo de mapear, identificar, registrar, salvaguardar, fomentar, promover, comunicar a memória e a história da comunidade LGBT. Faça parte você também desta rede!

#EuFaçoCultura

Resgate o seu livro Museologia LGBT: Cartografia das memórias LGBTQI+ em acervos, arquivos, patrimônios, monumentos e museus trangressores!!

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O livro revela um movimento de resistência múltiplo e diverso, com o levantamento de mais de uma centena de iniciativas que positivam as memórias LGBT ao redor do mundo. Trata-se de uma cartografia social, perpassada por subjetividades, aberta e rizomática. Pesquisadores do campo da memória, do patrimônio e dos museus encontrarão aqui um exemplo de estudo antropológico e etnográfico.

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#Pré-venda Museologia LGBT: cartografia das memórias LGBTQI+

Os bens patrimoniais e os museus foram, desde os seus primórdios, espaços de identidades moldadas na figura masculina, na heterossexualidade, na branquitude, na propriedade e na colonialidade. Palcos da norma buscaram – e ainda buscam – o apagamento das diferenças, por vezes encenadas em uma diversidade redutora.

Assim, os corpos, os saberes, os lugares e as expressões LGBT têm sido sistematicamente excluídos das políticas patrimoniais e dos museus institucionalizados. Esse mecanismo de negação dos direitos culturais dessa população é revelador de um sistema hetero-cis-normativo, que busca apagar as histórias e as memórias associadas às sexualidades desobedientes.

Construídas entre afetos e resistências, as memórias transviadas ressurgem em iniciativas reveladoras da força e das redes de pessoas travestis, transexuais, lésbicas, bissexuais e gays.

Essa cartografia, portanto, revela um movimento de resistência múltiplo e diverso, com o levantamento de mais de uma centena de iniciativas que positivam as memórias LGBT ao redor do mundo. Cabe apontar que, como indica o autor, “essa cartografia não se refere exclusivamente a territórios e a lugares, mas sim às relações e aos processos de liberdade e resistência de memórias exiladas de sexualidades desobedientes”. Trata-se de uma cartografia social, perpassada por subjetividades, aberta e rizomática.

Pesquisadorxs do campo da memória, do patrimônio e dos museus encontrarão aqui um exemplo de estudo antropológico e etnográfico.

Museologia LGBT
Museologia LGBT: cartografia das memórias LGBTQI+

Museus, Memórias e Museologia LGBT + Feminismo

Esta é uma edição especial da Revista Memória LGBT por diversos motivos, alguns festivos, outros nem tanto.

Em primeiro lugar, é uma edição cheia de gratidão. Trata-se de um material financiado coletivamente por pessoas que acreditaram neste projeto. Agradecemos a Alexandre Gaspari, Aparecida Paiva, Augusto
Francelino, Benito Schmidt, Camilo Braz, Cassiano Bovo, Cesar Barcelos Junior, Eder Eddine, Eliane Martins de Freitas, Eliane Muratore, Gabriel Andrade de Freitas, Gabriel Thier, Geyzon Dantas, Inês Gouveia, Jezulino Lucio Braga, Luciana Alves, Luiz Morando, Manuelina Duarte Cândido, Marcelo Araujo, Maria Luiza Rodrigues, Ronaldo Oliveira, Simone Ramos, R.M. e Tatielle Brito Nepomuceno.

Em seguida, alegra ver que se trata de uma edição dedicada exclusivamente às palestras do II Seminário Brasileiro de Museus, Memória e Museologia LGBT+Feminismo (SeBraMus LGBT+), evento que reúne
importantes pesquisas acadêmicas desenvolvidas no país quando interseccionam o tema LGBT (sigla em Políticas Públicas) e o feminismo.

Este evento e textos resultam de duas importantes articulações: a Rede LGBT de Memória e Museologia Social, a cada ano mais próxima de profissionais de museus feministas, e o Grupo de Trabalho Corpo, Gênero e Sexualidade do Seminário Brasileiro de Museologia (Sebramus), lá já a somar quatro edições. Mais do que nunca, o argumento de que tais estudos são inexistentes ou restritos a um coletivo cai por terra: a Museologia LGBT e a Museologia Feminista, plurais em forma e nomeações, consolidam-se como campo de pesquisa presentes na academia e comunidades.

Por fim, nos pesa a dor de estar a escrever e realizar estas atividades no contexto de um país que passa os 100 mil mortos por uma doença que bem poderia ser controlada mediante a adoção de medidas protetivas
massivas. Guardadas as particularidades, é inevitável lembrar o abandono que a comunidade LGBT foi jogada pelo negacionismo político quando a epidemia do HIV alcançou o planeta, fenômeno responsável até hoje por milhares de mortes. No que nos cabe, os museus e a Museologia que nos interessa farão seu papel: não as esqueceremos.

Protejam-se, mas não se calem,
Jean Baptista e Tony Boita

Chamada para artigos – Cadernos de Sociomuseologia – Corpo, Gênero e Dissidências nos Museus e na Museologia

Organização: Judite Primo, Jean Baptista, Tony Boita.

DATA FINAL PARA ENVIO: 30 de outubro de 2020.

CHAMADA: A presente chamada destina-se a promover o debate sobre corpo, gênero e dissidências plurais nos museus e na Museologia. Para tal, propõe a reunião de artigos que versam sobre novos objetos e novas abordagens relativas a identidades que escapam da matriz hegemônica masculina mormente vigente nos museus e na Museologia. Para tal, apoia-se na Resolução no. 4/ICOM (2013), nos Princípios de Yogyakarta (2007), na Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (2002), entre outros documentos que orientam sobre a necessidade de se buscar novas políticas culturais que contemplem a diversidade tendo em vista a superação de desigualdades históricas. Neste sentido, este Dossiê recebe artigos sobre ações e reflexões em múltiplas abordagens teóricas, em especial quando tratam sobre documentação, conservação, expografia, ação educativa, comunicação, política de aquisição e descarte, entre outros ofícios e saberes próprios dos museus e da Museologia, particularmente quando vinculados aos modos de representar ou de esquecer corpos femininos e/ou dissidentes. Em conjunto, este Dossiê objetiva promover a circulação de conhecimentos interessados no aprofundamento do pensamento sociomuseológico diretamente vinculado aos debates de equidade de gênero e orientações plurais, compreendendo os museus e a Museologia enquanto importantes agentes do processo de superação de fobias contemporâneas a essas corporalidades.

Maiores informações: http://www.museologia-portugal.net/noticias/chamada-artigos-cadernos-sociomuseologia-n-17-v-61-2021

Memórias e Patrimônios LGBT

A Revista Ventilando Acervos lançou sua nova edição com o tema Memórias e Patrimônios LGBT!

A presente edição é a materialização das memórias do IV Seminário de Política de Acervos – Memórias e Patrimônios LGBT. O evento foi realizado pelo Museu Victor Meirelles, de 4 a 6 de novembro de 2019, em Florianópolis.

Leia a edição completa aqui: http://ventilandoacervos.museus.gov.br/edicao-atual/

Baixe a edição completa clicando na imagem

Ventilando Acervos

Ser Gay na Favela

Líder comunitário, auxiliar de escritório, passista, técnico em contabilidade, negros, jovens, pais… Gays. Diferentes vidas, ligadas em defesa da liberdade e o respeito.

No decorrer de sua história, a cidade do Rio de Janeiro foi o cenário de muitas memórias protagonizada por homossexuais. Algumas ainda resistem, como é o caso de Cazuza, Clodovil, Clóvis Bornay e tantas outras celebridades “aceitas” pela sociedade. Existem ainda aqueles invisibilizados, marginalizados e ao longo do tempo banalizados, como Madame Satã e todos aqueles gays residentes em periferias em âmbito urbano e/ou rural. Há, contudo, um ponto em comum entre celebridades e periféricos: ambas as memórias vêm sendo esquecidas ao longo dos 450 anos da cidade maravilhosa.

Para esta exposição em Revista utilizamos parte da memória viva do gigantesco acervo do Museu de Favela Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Através de entrevistas e imagens coletadas pelos mobilizadores do Projeto Memória LGBT no MUF, selecionamos quatro lideranças Gays das Comunidades Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Eles são, jovens homossexuais de diferentes áreas, idades e profissões que reinventam e driblam o preconceito. A exposição Ser Gay na Favela, pretende preservar as memórias até então invisibilizadas, além de, apresentar o protagonismo da juventude gay de favela.

Acesse a exposição em revista no link abaixo:

O Diabo de Mário de Andrade: avanços e riscos para a memória LGBT a partir do debate sobre a sexualidade de Mário de Andrade

Ao refletir sobre os dois retratos que dele foram feitos, Mário de Andrade conclui: ao passo que Portinari teria captado apenas “a parte do Anjo”, Lasar Segall projetara “o que havia de perverso em mim”, ou seja, “a parte do Diabo”. E quando comparadas as pinturas, percebe‑se a que Diabo delicado, sinuoso, sensual, divertido e triste ele estava se referindo. Nesse contraponto e nas alegorias que usou para se explicar, percebemos tensão dicotômica, medo e sofrimento que perseguiram Mário ao longo de sua vida – e o perseguem até hoje.

Mário de Andrade por Portinari
Créditos: Itaú Cultural

Enquanto redige a carta em 1928, certamente é aquele Diabo da pintura de Segall que guia Mário. Ali ele considera sobre os falatórios sobre suas “amizades platônicas”, sua “tão falada homossexualidade” e a “socialisão absolutamente desprezível” de sua vida privada. Embora chame seus algozes de “ridículos” e contraditórios, Mário assegura que se porta “com absoluta e elegante discrição social”, sendo “incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua”. Aquele homem de tantas contribuições
para a cultura no Brasil vivia, de fato, oprimido e difamado: “Me dão todos os vícios que por ignorância
ou por interesse de intriga, são por eles considerados ridículos”. E afirma: “Tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão”. A perseguição política que sofreu até sua precoce morte, aos 51 anos, deprimido, solitário, fumante inveterado e alcoólico, certamente estão vinculados ao resultado dessa pressão em seu cotidiano.

Mário de Andrade por Lasar Segall
Créditos: Itaú Cultural

Há uma enorme importância no ato da CGU determinar que a Fundação Casa de Rui Barbosa abra a misteriosa carta para consulta pública. Trata‑se de um momento significativo para a história da liberdade de informação do país, onde se delimita que princípios como a homofobia não podem ser determinantes para a consulta de arquivos mantidos em boa parte por fundos públicos. Também é relevante porque a partir de agora, oficialmente, não se pode ignorar a sexualidade do célebre autor, já que os trechos da carta provam que o tormento experimentado em vida afetavam sua percepção de mundo e crítica social. A Fundação meteu os pés pelas mãos: membros de sua equipe chegaram a tentar apontar que tal informação era irrelevante, assim como passar a responsabilidade aos herdeiros de Mário, escancarando que arquivos mantidos por fundos públicos estão ao gosto de privados. Ficou claro também que foi contra sua vontade que a Fundação acabou por ceder via determinação judicial, assim como é visível que a instituição não pretende promover um debate para aprofundar as implicações do assunto no âmbito da pesquisa. O que deixa entender é que a Fundação está com uma infantil vergonha de ter em seu acervo um homossexual. A vergonha, neste caso, está em ter tentado guardar esta importante informação para “preservar a integridade do autor”, como se argumentou, mediante um contexto tão violento em que estamos vivendo, onde torna‑se cada vez mais necessário referenciar positivamente os LGBT do passado como estratégia pedagógica. Claro que não será a sexualidade capaz de explicar a vida e obra de Mário de Andrade, mas certamente não é possível compreender ambas sem a considerar. E sem Mário inteiro, não podemos entender o Brasil.

Mas beiramos um conjunto de riscos com tamanho avanço. Admitir que somente agora Mário sai do armário é corroborar com a hipocrisia que tentou mantê‑lo por lá. Um olhar minimamente atento à obra do antropofágico já revelava este detalhe: desde o travestismo experimentado por Macunaíma, passando por suas fotos de campo e alcançando o conto Frederico Paciência, tudo está ali, a homoeroticidade e a violência a qual a diversidade sexual sempre foi submetida no país. Além disso, há muito pesquisadores como João Silvério Trevisan e Luiz Mott apontavam tal aspecto, assim como de outros nomes célebres, denunciando o sistema homofóbico institucionalizado na academia e casas de memória. De quebra,
tais pesquisadores foram hostilizados e ridicularizados, desprezando‑se suas conclusões sérias – muitas delas com aspectos mais profundos do que os detalhes revelados na tal carta no caso de Mário. A memória da pesquisa no Brasil sobre a sexualidade de Mário não pode ser obscurecida por uma jogada de marketing empreendida pela editora que encabeça este recente movimento e uma retomada aos clássicos da memória LGBT é, mais do que nunca, necessária.

Mas, sobretudo, o maior risco que se apresenta nesta abordagem é entender o sofrimento de Mário como um padrão da memória LGBT. Não se pode esquecer que o lugar que ocupava o protegeu da homofobia quando dimensionamos a mesma sociedade relacionada com homossexuais, lésbicas, transexuais e travestis populares. A memória LGBT não pode ser construída no Brasil apenas a partir dos nomes da elite. Há uma massa de anônimos sem história e memória que padeceram de horrores muito além das preocupações nascidas em falatórios dos círculos sociais da elite paulista e suas intrigas políticas. Neste ponto reside um calabouço vergonhoso para o país, tomado de desmoralizações, fomes, doenças, desemprego, perseguições, prisões, internações compulsórias, torturas, apedrejamentos e assassinatos que revelam até onde uma sociedade fóbica aos LGBT pode chegar, sobretudo com indivíduos sem a proteção
de sobrenomes, heranças ou cargos políticos. História, essa, que ainda não acabou.

Quando se deu no Rio de Janeiro o recente funeral da transformista Marquesa e o religioso responsável pela celebração final perguntou aos presentes onde estavam os membros da família, Rogéria prontamente respondeu: “A família somos nós”. É nesse “nós”, nesse importante pronome com poder de sensibilização – e por isso de transformação — onde reside a real potência da memória LGBT. A massa de anônimos que recriam suas trajetórias, famílias e comunidades, a partir das brechas que uma sociedade pautada no ódio tem a oferecer, são, sim, os que podem tirar o Brasil do armário e promover uma sociedade justa pautada na paz sem necessidade de demônios ou anjos.

Artigo escrito por Jean Baptista e Tony Boita na 8ª edição da Revista Memória LGBT, “Ser Gay na Favela”.

Museus e Iniciativas Lésbicas paras visitar online

As Lésbicas são invisibilizadas duplamente na maioria dos museus e iniciativas em memória no Brasil e no mundo. Primeiro por ser mulher (machismo), segundo por ser lésbica (lesbofobia). Infelizmente, suas memórias, histórias e trajetórias são ocultadas e/ou forjadas de forma explícita.

Isso se dá pelo fato dos espaços de memória serem contruídos a partir de uma “matriz heterossexual” (Butler, 2003). Por sua vez, Adrienne Rich (2010) mostra a estratégia do “fechamento de arquivos e da destruição de documentos relacionados com a existência lésbica” (2010, p. 24). De fato, invisibilizar as lesbianidades, perpassa o machismo e lesbofobia.

Recentemente compartilhei aqui os museus virtuais LGBTIQ, posteriormente as iniciativas voltadas para a preservação da memória travesti e trans aqui. Trata-se do resultado parcial da pesquisa que desenvolvo, cartografando museus e iniciativas comunitárias em memória da comunidade LGBTIQ.

Tenha uma ótima visita virtual a estes importantes espaços!

Mazer Lesbian Archives – Estados Unidos
Iniciativa voltada para a preservação e difusão das memórias lésbicas.

Charlotte Museum Trust – Nova Zelândia

Museu dedicado a preservação das memórias, cultura e dos registros materiais de mulheres lésbicas na Nova Zelândia.

Museum Of New Zealand Te Papa Tongarewa – Nova Zelândia

O museu promove exposições temporárias, eventos e apresentações culturais em seus espaços voltados para a comunidade lésbica. Possui uma coleção significativa.

Lesbian Herstory Archives – Estados Unidos

Arquivo dedicado a pesquisar, preservar e difundir as memórias de mulheres lésbicas.

Escrito por Tony Boita – tony@memorialgbt.org

Das luzes do Lampião da esquina – Nossas memórias e histórias

Escrito por Almerindo Cardoso Simões Junior e publicado na II edição da Revista Memória LGBT.

O período do fim da ditadura no Brasil marca uma época muito particular de nossa história. Além da abertura política, apresenta‑se a possibilidade de novos discursos, em especial de grupos considerados minoritários ou marginais. Buscando maior visibilidade, vários destes grupos veriam na mídia um meio de propagar suas ideias e apresentar novas posturas identitárias, diferentes daquelas forjadas pela ideologia dominante de então. A efervescência política e social da época propiciava o momento exato para o (re)surgimento de sentidos e vozes considerados esquecidos, discursos escondidos que clamavam por emergir. Vários periódicos aparecem nesse período como forma de resistência ao regime militar e como instrumento capaz de conferir visibilidade às chamadas minorias. Vinculado à esquerda, este tipo
de jornal, muitas vezes de tiragem irregular e produção quase artesanal, inseria em seu discurso as vozes de grupos tidos como minoritários ou marginais. A partir dos anos 60, em especial, surgem os jornais voltados para a comunidade homossexual, particularmente a masculina.

Em fins de 1977, um grupo de jornalistas, intelectuais e artistas se reúne na casa do pintor Darcy Penteado em São Paulo. O ponto embrionário desse encontro teria sido a entrevista que João Antônio
Mascarenhas, na época colunista do Pasquim, havia feito com Winston Leyland, editor do Gay Sunshine, publicação americana dirigida a homossexuais. Não só Mascarenhas como outros jornalistas ficam tão empolgados que decidem lançar uma publicação que relacionasse o homossexual e seu contexto social, que discutisse os mais diversos temas e fosse vendido nas bancas de todo o país. Surge assim O lampião da esquina, primeiro jornal homossexual de circulação nacional.

Créditos: Editora Multifoco

O jornal foi um dos maiores ícones do movimento homossexual do fim da ditadura no Brasil. Vendido nas bancas de 1978 a 1981, suas 37 edições deram vez e voz a inúmeras pessoas que escreviam mensalmente a seus editores. Refletir sobre suas cartas é contemplar não só um movimento de resistência
contra a ditadura militar, mas também o processo de afirmação homossexual, acompanhando as múltiplas construções identitárias pelas quais este grupo passou neste período, cujas consequências nos afetam ainda hoje. O reconhecimento do jornal enquanto lugar de memória e construtor de identidades LGBT legitimou o lampião da esquina na qualidade de produtor de um discurso que deveria ser analisado como representativo do homossexual brasileiro no período de transição entre as décadas de 70 e 80 do século XX.

Assumir e orgulhar‑se de sua homossexualidade, sair dos guetos, transitar como qualquer outro cidadão, ter livre arbítrio para escolher lugares de lazer e, acima de tudo, exprimir sua sexualidade são temas constantes em Lampião. A análise das cartas dos leitores, constituintes da seção cartas na mesa, evidencia três momentos bem nítidos na trajetória do jornal: 1978 apresenta um discurso positivo de afirmação
de identidades. Em 1979, o orgulho de ser homossexual é associado ao ideário de ser este também um cidadão político. As cartas do ano de 1980 privilegiam discursos ligados a movimentos de conscientização homossexual e ao surgimento dos primeiros grupos organizados. O último número de Lampião sai em julho de 1981. Divergências ideológicas entre seus editores, além de aumento dos custos de produção,
queda nas vendas e as próprias mudanças políticas do Brasil fazem com que o jornal pare de circular, deixando um espaço até hoje ão preenchido por nenhuma outra publicação veiculada para o público LGBT.


Imagem da Capa: Fundação Perseu Abramo