Parque do Flamengo

Escrito por Tony Boita e publicado na VII edição da Revista Memórias LGBT

“Este é o Aterro do Flamengo” – disse o taxista com orgulho, acostumado com turistas, tão logo chegávamos ao parque – É um ótimo parque feito pelo Burle Marx.

A frase, sem que fosse intensão do profissional, doeu em mim. Há algum tempo estudando
o patrimônio LGBT, já tinha notícias de que a idealização do parque, sua construção e propostas singulares que o caracterizam, são de autoria de uma célebre lésbica, Lota de Macedo Soares (1910‑1967).

Lota manteve um relacionamento produtivo e conturbado com outra lésbica célebre, a escritora estadunidense norte americana Elizabeth Bishop (ao que parece, Bishop apoiou a ditadura militar brasileira). Em 1960, com o Governador Carlos Lacerda eleito, Lotta é convidada a ser responsável por projetar o parque. Em 1961 a seu pedido o governador assina o decreto no 607 que criava juntamente a Superintendência de Urbanização e Saneamento – Sursan o grupo de trabalho para a urbanização do aterrado do Glória‑Flamengo. Este grupo possuía a seguintes funções: a) orientar e projetar todas as obras arquitetônicas, paisagísticas e artísticas, a serem realizadas pela Sursan no aterrado Glória‑Flamengo; b) supervisionar a urbanização e a composição paisagística da faixa do aterrado, na orla marítima Glória‑Flamengo; c) opinar sobre a eventual aquisição e localização de qualquer obra de arte a essa área destinada.

Créditos: Instituto Lotta | Heróis e Heroínas do Rio de Janeiro

Na primeira formação deste grupo de trabalho, Lotta era a presidente e ao montar sua equipe convida para realização do projeto arquitetônico Jorge Machado Moreira e o responsável pelo anteprojeto do parque Affonso Eduardo Reidy. Também integraram o grupo de trabalho Berta Leitchic (engenharia), Ethel Bauzer Medeiros (recreação), Carlos Werneck de Carvalho, Sérgio Bernardes e Hélio Mamede (desenvolvimento de projetos). Esta equipe contou com os serviços técnicos da Roberto Burle Marx e Arquitetos Associados responsáveis pelo serviço paisagístico, encontrados próximos ao Museu de Arte Moderna; o Laboratório de Estudos Marinhos de Lisboa, que solucionou os problemas do aterramento
do parque; e do Richard Kelly contratado especialmente para solucionar a iluminação do parque com os maiores postes de luz mundo inspirados na luz da lua.

Créditos: Instituto Lotta | Heróis e Heroínas do Rio de Janeiro

Burle Marx já era um nome célebre do paisagismo brasileiro e rival político dos aliados de Lota. Publicamente, ele inicia uma campanha para tomar o controle das obras do parque. As alianças de Burle Marx possibilitaram, ao fim, que seu nome viesse à frente, e, ao que parece, a memória oficial do Rio de Janeiro preferiu, ao fim, reconhecer a autoria do parque ao paisagista, o que penetrou no imaginário da cidade e desembocou em minha conversa com o taxista.

Créditos: Instituto Lotta | Heróis e Heroínas do Rio de Janeiro

De fato, o Parque do Flamengo tornou‑se um complexo paisagístico composto por dois parques, museus, monumentos, pistas, quadras de esportes, clubes náuticos e jardins. Ele foi tombado (número do processo
0748‑T‑64) no livro tombo arqueológico, etnográfico e paisagístico em julho de 1965 (IPHAN, 2012), em uma das últimas articulações de Lota para impedir que o parque fosse transformado em área residencial. Nesta conjuntura, tornou‑se mais confortável aos sucessores, sobretudo militares, escamoteá‑la da memória do projeto, o que talvez tenha contribuído para o processo de depressão que culminou em seu suicídio, em 1967.

Créditos: Instituto Lotta | Modices

Após trinta anos da inauguração do parque, em 1995 a prefeitura do Rio de Janeiro através da Secretaria de Cultura e o Departamento Geral de Patrimônio Cultural, realizou uma homenagem à idealizadora
do Parque do Flamengo. Entre as atividades, foi inaugurada uma discreta placa resinificando a autoria do parque com os dizeres “Idealizadora do Parque do Flamengo e presidente do grupo de trabalho
que transformou um aterro em jardim e área de lazer ativo.”

Pensando nessa história, desci do táxi e pela primeira vez caminhei pelo Aterro, alcançando a placa que tenta solucionar a confusão. Queria ter conhecido Lota e dito a ela o quanto seu trabalho é importante
para mim, para as lésbicas, para a comunidade LGBT em geral. E queria lastimar, apesar do empenho, pelo desmerecimento de seu trabalho, apagado da memória nacional, ainda que a tal placa tente dar
conta do recado sem, contudo, advertir o imaginário da cidade. Também observei a movimentação LGBT por ali que, assim como outros grupos, tem o parque como lugar de referência.

E, ao fim, pensei quantos outros lugares nossos – quantos outros patrimônios LGBT – ainda estão silenciados, escondidos por equívocos discriminatórios, aguardando novas significações de sua história.

O Miss Brasil Gay: Patrimônio de Juiz de Fora

Escrito por Henrique Caproni e publicado na VI edição da Revista Memórias LGBT.

O Miss Brasil Gay é um evento que muda o cotidiano de Juiz de Fora. Nos dias em que sucede, a cidade fica mais colorida, enfeitada, os hotéis ficam esgotados, o comércio local se torna mais movimentado, as festas e restaurantes mais badalados, há sempre pessoas novas e diferentes caminhando pelo famoso calçadão de Juiz de Fora.

Entre os moradores da cidade, podem ser vistos turistas, LGBT’s, gogo boys, gogo girls, drag queens, transformistas, personagens e variados artistas. Logo, notamos que é um evento que mexe com a cidade em suas dimensões físicas, econômicas, simbólicas, subjetivas, turísticas, no humor e espírito das pessoas.
Sua relevância reside também em aspectos financeiros como sendo a festa responsável pelo principal turismo em Juiz de Fora há cerca de trinta anos e movimentando cinquenta e um setores da economia direta e indiretamente durante os dias de festa, gerando uma arrecadação de três milhões de reais (GUIA GAY SÃO PAULO, 2014; GLOBO G1, 2014).

Créditos: Miss Brasil Gay

Mas também contempla sua dimensão social, simbólica, subjetiva e política, sendo um evento reconhecido internacionalmente e um dos mais relevantes do calendário LGBT que tem acontecido em Juiz de Fora desde 1976 idealizado pelo cabeleireiro Francisco Motta, para eleger a mais bela transformista do país. Assim, abrangendo um desfile com trajes típicos, destacando as características e elementos culturais das participantes dos estamos brasileiros, desfile com trajes de luxo, bem como shows ou espetáculos com artistas do cenário gay nacional (CINETHEATRO CENTRAL, 2013). Nota‑se
que o que acontece no evento é a arte do transformismo, as participantes ao realizarem shows e perfomaces fazem uso de maquiagens, vestimentas, acessórios, para atuarem como mulheres (LOBATO, 2009), aproximando‑se destarte de uma feminilidade miss elegante e glamourosa.

Créditos: Miss Brasil Gay

O surgimento do evento esteve associado a uma brincadeira ou paródia ao concurso Miss Brasil, no qual apenas mulheres se inscreviam. Seu objetivo primeiro era ajudar uma Escola de Samba da cidade que estava com dificuldades, de tal modo que aspectos carnavalescos e de transformismo demarcavam inicialmente o espetáculo. Antes dele, vários homossexuais da cidade já organizavam em suas casas alguns pequeno concursos. Nesse contexto, o Miss Gay surge também buscando a profissionalização de uma brincadeira. Seu organizador, Chiquinho Mota, salienta que o concurso enfatizou o transformismo no Brasil (RODRIGUES, 2008; LOBATO, 2009).

Hoje, além de ser uma festa luxuosa e glamourosa celebrando a diversidade LGBT, também possui seu caráter político a favor da luta pela igualdade, pelos direitos humanos e contra a homo‑lesbo‑transfobia
(CINE THEATRO CENTRAL, 2013). Logo, o Miss Gay destaca‑se como uma grande festa nacional LGBT, como uma celebração tradicional para a cidade, tendo registro formal de festividade como quarto bem imaterial registrado pela cidade (RODRIGUES, 2008; PEREIRA; ANJOS JUNIOR, 2012).

Créditos: Miss Brasil Gay 2019

É importante destacar que esse é o único tipo de evento que, associado à questão de gênero e sexualidade, é considerado patrimônio cultural registrado até o momento no país (PEREIRA; ANJOS JUNIOR, 2012). Portanto,

“Com vistas a contextualizar brevemente o evento, importa destacar que essa manifestação possui grande representatividade simbólica para Juiz de Fora, passando, inclusive, a fazer parte do calendário oficial de eventos do município e, ainda, foi registrado, em âmbito municipal, como patrimônio imaterial. Esse fato nos parece digno de maior atenção, haja vista que ainda não se tem conhecimento de outros eventos que contemplem a questão LGBT e que sejam registrados no país, o que pode reforçar o caráter de ineditismo que a cidade de Juiz de Fora possuiria quanto ao fato dessa manifestação ser (re)conhecida como componente do patrimônio cultural da cidade, sendo, inclusive, salvaguardada por um decreto municipal” (PEREIRA; ANJOS JUNIOR, 2012, p. 68).

Refletindo sobre esse evento como um patrimônio imaterial, destaca‑se que se relaciona com um sentimento de identidade e de durabilidade no tempo, bem como de respeito à diferença cultural. O Miss Brasil Gay como patrimônio imaterial também se associa a uma forma de se exercer poder político, social e simbólico (LOBATO, 2009) dado a visibilidade que traz às questões LGBT’s e à cidade de Juiz de Fora. Desse modo, enfatiza‑se que:

Créditos: Miss Brasil Gay 2019

“ter como patrimônio imaterial de uma grande cidade do país um evento gay é de extrema importância para que o movimento LGBT possa amenizar as desigualdades existentes no que se refere à apropriação de bens culturais e à exclusão social de seus indivíduos. Patrimônio intangível torna visíveis questões tabus silenciadas, pela sociedade brasileira” (LOBATO, 2009, p. 19).”

Infelizmente, o evento não ocorreu em 2014 (GLOBO G1, 2014; GUIA GAY SÃO PAULO, 2014; ACESSA, 2014), mas haja vista sua relevância econômica, simbólica e política, torcemos para que volte com luz, brilho, diversão e alegria, em todos os anos seguintes, inclusive como uma forma de se preservar a memória e cultura LGBT’s.

Crédito: Dois Terços

Referências
ACESSA. Miss Brasil Gay não será realizado este ano. 2014 Disponível em http://www.acessa.com/zonapink/arquivo/2014/07/05-miss-brasil-gay-nao-sera-realizado-este-ano/acesso em 15.10.2014
CINE THEATRO CENTRAL. Miss Brasil Gay. 2013.Disponível em http://www.theatrocentral.com.br/agenda/miss-brasil-gay. acesso em 14.10.2014
GLOBO G1. Cancelamento de eventos em MG afetam turismo, afirmam empresários. 2014. Disponível em: http://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2014/07/cancelamento-de-eventos-em-mg-afetam-turismo-afirmam-empresarios.htmlacesso em 14.10.2014
GUIA GAY SÃO PAULO. Cancelamento de Miss Gay Brasil causa prejuízo de R$ 3 milhões a Juiz de Fora. 2014 http://www.guiagaysaopaulo.com.br/1/n– cancelamento-de-miss-brasil-gay-causa- prejuizo-de-r$-3-milhoes-a-juiz-de-fora– 12-07-2014– 536.htm Acesso em 14.10.2014
LOBATO, M. G. de S. Aproximação, intercâmbio e entendimento entre os seres humanos? Reflexões sobre o Miss Brasil Gay como patrimônio imaterial de Juiz de Fora. 45 f. Trabalho de Conclusão de Curso (curso de graduação em ciências sociais). Fundação Getúlio Vargas – Escola Superior de Ciências Sociais, 2009.
PEREIRA, Graziela Dias; ANJOS JUNIOR, Edwaldo Sérgio dos. Vínculos entre Turismo, Eventos e o Patrimônio Imaterial em Juiz de Fora, Minas Gerais: uma reflexão sobre processo de registro do “Miss Brasil Gay”. Anais Brasileiros de Estudos Turísticos, [S.l.], v. 1, n. 2, p. 64-72, mai. 2012
RODRIGUES, M. C. Miss Brasil Gay polêmica na passarela – eventos como instrumento de comunicação alternativa. 147 f. Dissertação (mestrado em comunicação social). Universidade Federal de Juiz de Fora – Faculdade de Comunicação, 2008.

NOTAS SOBRE O USO DE TECNOLOGIAS LIVRES COMO ESTRATÉGIA DE PRESERVAÇÃO E DISPONIBILIZAÇÃO DE ACERVOS LGBTI+

Texto escrito por Humberto da Cunha Alves de SOUZA[1] e Luiz Ernesto MERKLE[2] publicado na 11ª Edição da Revista Memórias LGBT.

É sábado pela manhã e uma equipe de voluntárias e voluntários está reunida na sede do Instituto Brasileiro de Diversidade Sexual (IBDSEX)/Grupo Dignidade, em Curitiba/PR, para mais um dia de organização e catalogação do acervo do Centro de Documentação Prof. Dr. Luiz Mott (CEDOC). Esta atividade se repete semanalmente desde janeiro de 2018, claro, com seus intervalos, como é próprio de qualquer trabalho voluntário.

O CEDOC, o primeiro acervo sobre pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneras, transexuais, intersexo e outras identidades de gênero e/ou orientação sexual (LGBTI+) do Brasil, foi inaugurado em 2007 e batizado com o nome do decano do movimento, o antropólogo baiano Luiz Mott, por escolha de Toni Reis, atual diretor executivo do Grupo Dignidade e diretor da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) na época. O acervo contém livros, jornais, revistas, relatórios, material audiovisual, teses, dissertações, cartilhas, fotos e cartas de/sobre as pessoas e história do movimento LGBTI+ brasileiro, material reunido durante os quase 28 anos de existência do Grupo Dignidade. Recentemente, o CEDOC recebeu todo o acervo do Grupo Gay da Bahia, a mais antiga organização LGBTI+ em atividade no país, doado pelo próprio Luiz Mott. Cerca de 40 caixas completamente lotadas de itens aguardam classificação e organização para serem incorporadas ao CEDOC.

FIGURA 1 – FOTO DO CEDOC

FONTE: ARQUIVO PESSOAL DO AUTOR (2019)

“A ideia é fazer consultas virtuais e tornar possível o acesso ao CEDOC em qualquer lugar do mundo”, previa Enéias Pereira (DAMASCENO, 2007), diretor presidente do Grupo Dignidade na época da inauguração do acervo. O protótipo desta disponibilidade online, sem dúvida, foi o jornal Lampião da Esquina[1], que foi restaurado e digitalizado com apoio de um projeto no Ministério da Cultura em 2009 e disponibilizado online no site do Grupo Dignidade[2]. Os outros materiais, no entanto, não receberam a mesma atenção e foram disponibilizados somente a partir de 2018, e ainda somente para uma consulta dos itens catalogados, que já acumulam 1305 materiais e podem ser consultados online através do link <https://www.zotero.org/groups/2071833/cedoc> coisa que só foi possível graças ao trabalho voluntário mencionado anteriormente, e que envolve o uso de tecnologias livres, especificamente do software livre e de código aberto para gerenciamento de referências, o Zotero. Neste relato-reflexão pretendemos ressaltar a importância do uso destas tecnologias livres como estratégia de preservação e disponibilidade de acervos LGBTI+.

FIGURA 2 – PRINT DE TELA DOS METADADOS DO CEDOC NO SOFTWARE ZOTERO

FONTE: OS AUTORES (2020)

As tecnologias livres “incluem o software livre no desenvolvimento dos aplicativos, o hardware de código aberto na circuitaria associada, e o acesso aberto, na documentação” (BEZERRA JR. et al., 2009, p. 2). São, portanto, o conjunto de hardwares, softwares e processos de criação e distribuição de artefatos tecnológicos em observância a quatro princípios de liberdade: liberdade de uso, de estudo, de modificação e de distribuição/redistribuição. É dizer: os artefatos produzidos devem permitir às pessoas usarem como lhe aprouverem o material (para uso comercial ou particular, por exemplo); os processos de criação devem estar disponíveis para permitir o estudo deste processo (deixar o código-fonte de criação aberto, por exemplo, para que se saiba como tal artefato foi produzido); que essa disponibilidade permita sua modificação, melhoria, atuando assim em comunidade e; que estes processos possam ser distribuídos e redistribuídos pelas pessoas. O software Zotero, utilizado na catalogação do CEDOC, por exemplo, faz parte das chamadas tecnologias livres. Seu código-fonte é livre e aberto, disponibilizado online e isso permite às pessoas personalizar, criar plugins ou extensões e, mais importante, disponibilizar suas modificações para que outras pessoas também possam usar de acordo com suas necessidades.

A filosofia que acompanha a produção das tecnologias livres consiste numa espécie de “cultura livre” que incentiva as pessoas a realizarem seus próprios projetos e a disponibilizarem estas realizações para que outras pessoas consigam também realizar seus projetos.

Algumas outras iniciativas também merecem destaque: 1) O Omeka é um software livre e de código aberto para gerenciamento de coleções digitais. Trata-se de uma aplicação para a web que permite as pessoas criarem registros digitais de seus acervos e até disponibilizem estes itens em arquivos digitais para uso, consulta, download. Acervos LGBTI+ que utilizam a plataforma Omeka, de acordo com o site do software, são: Cork LGBT Archive[3], OutSouth: LGBTQ+ Oral History Project[4], SpeakOut[5] e Wearing Gay History[6]. Não encontramos nenhum acervo brasileiro que utilize Omeka, apesar de nossa intenção de usar o software no CEDOC futuramente. Entre as funcionalidades, o Omeka permite o uso de protocolos amplamente utilizados como o Dublin Core, fundamental para a descrição de arquivos digitais na rede, facilitando inclusive a leitura pelos buscadores. Uma plataforma brasileira que se assemelha ao Omeka é o Tainacan, um plugin para WordPress para gestão de acervos culturais digitais que consta com funcionalidades de registro dos itens, taxonomias personalizadas e busca facetada com filtros. Ambas as ferramentas oferecem temas para a interface de usuário e permitem a troca de dados com outros sistemas, o que chamamos de interoperabilidade.

Seguindo esta questão de interoperabilidade, outra iniciativa a ser destacada é a xZINECOREx[7], um esquema de metadados em construção, similar ao Dublin Core, específico para a catalogação de zines. O xZINECOREx, assim como o Dublin Core[8], permitem não somente a descrição adequada de objetos digitais, mas também a criação e gestão de vocabulários especializados que permitirão que sistemas de busca e informação recuperem mais rapidamente estes dados.

QUADRO DA PRIMEIRA DISCUSSÃO SOBRE O xZINECOREx

FONTE: xoxoMilo (2013)

Ao utilizar estes esquemas de metadados, não somente os sistemas podem trocar dados sobre suas coleções facilmente, quanto buscadores como o Google podem entender adequadamente o conteúdo disponibilizado e, com efeito, entregar adequadamente a página como resultado de pesquisa para qualquer pessoa que esteja buscando justamente pelo conteúdo ofertado da página. Isto facilita, portanto, o trabalho dessas ferramentas de coleta de metadados (harvesting metadata) e sua disponibilização online em plataformas de busca e divulgação, o que facilita, por fim, o acesso das pessoas aos dados e informações seja para suas pesquisas, criações, conhecimento de sua memória e história.

Em Mal de Arquivo: uma impressão freudiana, o filósofo Jacques Derrida (2001) nos alertou para o duplo sentido da palavra arkhé, que remete à arquivo, como começo e comando, isto é, como lugar de memória, mas também de poder. Como lugar de memória, o arquivo/acervo não pode ser encarado somente como depósito de verdades, estas “ilusões das quais se esqueceu que elas assim o são”, como diria Nietzsche (2008, p. 36).

É outra maneira de dizer que o arquivo, como impressão, escritura, prótese ou técnica hipomnésica em geral, não é somente o local de estocagem e de conservação de um conteúdo arquivável passado, que existiria de qualquer jeito e de tal maneira que, sem o arquivo, acreditaríamos ainda que aquilo aconteceu ou teria acontecido. Não, a estrutura técnica do arquivo arquivante determina também a estrutura do conteúdo arquivável em seu próprio surgimento e em sua relação com o futuro. O arquivo tanto produz quanto registra o evento. É também nossa experiência política dos meios chamados de informação (DERRIDA, 2001, p. 28–29).

É ingenuidade pensar, portanto, que um arquivo/acervo diz somente de seu conteúdo como algo do passado e/ou de uma origem, verdadeira e/ou factual dos acontecimentos. Como lugar de poder, as escolhas de seleção, classificação, documentação, organização e/ou disponibilização feitas por qualquer arquivista tornam o acervo um arquivo arquivante. “O arquivista produz o arquivo, e é por isso que o arquivo não se fecha jamais. Abre-se a partir do futuro” (Ibid., p. 88) – que é sua possibilidade mesma de destruição, o que Derrida chamou de Mal de Arquivo. Todo arquivo, diz Derrida, “é ao mesmo tempo instituidor e conservador. Revolucionário e tradicional. […] aberto e subtraído à iteração e à reprodutibilidade técnica” (Ibid., p. 17, 118, tradução modificada). Assim, memória e esquecimento estão intimamente ligados, como nas mitológicas Fontes de Mnemosine e Lete, no Oráculo de Trofônio. Tanto a memória produz poder: poder de oráculo, por exemplo, onde nós, pessoas LGBTI+, recorreremos ao acervo com um desejo nostálgico sobre nossa pretensa origem verdadeira; quanto o poder produz (ou destrói) memórias: quem tem ou não direito à memória, quem pode ou não acessá-la, quem será lembrado ou esquecido na constituição mesma desta memória e, com efeito, que vidas serão “elegíveis ao reconhecimento” (BUTLER, 2009, p. 325), “que tipo de vida será digna de ser vivida, que vida será digna de ser preservada e que vida será digna de ser lamentada” (BUTLER, 2015, p. 85).

Em nossa tarefa de recuperar, produzir, significar e continuar significando memórias LGBTI+ e de resistir à sua destruição, pensar as práticas de liberdades nos/dos acervos é salutar, posto que “não há poder político sem controle do arquivo, e mesmo da memória. A democratização efetiva pode sempre ser medida por este critério essencial: a participação e o acesso ao arquivo, sua constituição e sua interpretação” (Ibid., p. 16, em nota, tradução modificada). Lutar por participação e acesso livres é lutar por acervos LGBTI+ democráticos que continuem produzindo sentidos, condição de sua existência. Especialmente nestes tempos em que o poder institucionalizado busca acintosamente destruir estes acervos, um gesto que, no caso de acervos LGBTI+, implica a exclusão das pessoas que não se encaixam na norma, que nada mais é do que os arquivamentos produzidos pelo próprio poder.

REFERÊNCIAS

BEZERRA JR., Arandi Ginane et al. Tecnologias livres e Ensino de Física: uma experiência na UTFPR. Anais do XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física – SNEF 2009, 2009. Disponível em: <http://www.cienciamao.usp.br/dados/snef/_tecnologiaslivreseensino.traba-lho.pdf>. Acesso em: 14/01/2020.

BUTLER, Judith. Performatividad, precariedad y políticas sexuales. AIBR. Revista de Antropologia Iberoamericana, v. 4, n. 3, p. 321–336, 2009. Disponível em: <http://www.redalyc.org/pdf/623/62312914003.pdf>. Acesso em: 14/01/2020.

______. Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? Tradução: Sérgio Tadeu de Niemeyer Lamarão; Arnaldo Marques Da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

DAMASCENO, Sandramara. Grupo Dignidade cria centro de documentação. O Tempo, 14 dez. 2007. Disponível em: <https://www.otempo.com.br/diversao/magazine/grupo-dignidade-cria-centro-de-documentacao-1.306240>. Acesso em: 14/01/2020.

DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Tradução: Cláudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

FERREIRA, Carlos. Imprensa Homossexual: surge o Lampião da Esquina. Revista Alterjor, v. 1, n. 1, p. 1–13, 2010. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/alterjor/article/view/88195>. Acesso em: 14/01/2020.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Sobre verdade e mentira. Tradução: Fernando de Moraes Barros. São Paulo: Hedra, 2008.

XOXOMILO. xZINECOREx: an introduction. [S.l: s.n.], 2013. Disponível em: <http://zinelibraries.info/wordpress/wp-content/uploads/2013/04/Zinecore-Zine-Flats1.pdf>. Acesso em: 14/01/2020.


[1] Importante “jornal homossexual não pornô-erótico que circulou no Brasil no período de 1978 a 1981. A publicação representou uma classe que não possuía voz na sociedade, mostrando-se importante para a construção de uma identidade nacional pluralista […] o Lampião inicialmente estava mais preocupado em retirar o gay da margem social, abrindo também o discurso às minorias. Já em sua fase final o jornal se adapta ao gueto e torna-se mais ousado, contendo até mesmo ensaios sensuais e abordando temas mais polêmicos do que fazia em sua fase inicial” (FERREIRA, 2010, p. 4–5).

[2] Cf. <http://www.grupodignidade.org.br/projetos/lampiao-da-esquina/>.

[3] Cf. <http://corklgbtarchive.com/>.

[4] Cf. <https://nunncenter.net/outsouth/gallery>.

[5] Cf. <https://exhibits.library.dartmouth.edu/s/SpeakOut/page/home>.

[6] Cf. <http://wearinggayhistory.com/>.

[7] Cf. <http://archive.qzap.org/index.php/About/Index>.

[8] Cf. <https://dublincore.org/>.


[1] Doutorando em Tecnologia e Sociedade, pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Mestre em Comunicação, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pesquisa performatividade, pragmática da comunicação, tecnologias de si, cibercultura e diversidade sexual e de gênero. É coordenador de comunicação do Grupo Dignidade e foi diretor de Comunicação e Pesquisa do Instituto Brasileiro de Diversidade Sexual (IBDSEX), onde ainda coordena a organização do CEDOC. E-mail: hu.souza@gmail.com. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

[2] Doutor em Ciência da Computação pela Western University (UWO). Professor do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade (PPGTE) e do Departamento Acadêmico de Informática (DAINF) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). E-mail: merkle@utfpr.edu.br

Sala de cinema Urdaneta: um espaço de identidade gay

Escrito por José Alirio Peña Zerpa e traduzido por Mario Di Lorenzo, foi publicada na 2ª edição da Revista Memória LGBT.

As salas de cinema pornô como espaços fixos


O cinema pornô é companheiro do cinema comercial; clandestino, ou não, representa uma produção paralela ao cinema oficial. Provavelmente alguns produtos identificados como Made in USA tenham sido elaborados na America Latina, porém o vestígio da nação que o produziu se perdeu pelo mesmo adotar um título em inglês para a sua distribuição. Evidentemente, antes do boom da internet, a distribuição deste cinema se limitava a salas de cinema pornô. Estas salas foram muito populares nos anos 80 e algumas tem permanecido até o século XXI. “Cine Teresa”, no México e o “Teatro Urdaneta”, em Caracas, são exemplos de salas de cinema pornô fechadas, reformadas e reinauguradas por organismos governamentais para a exibição de cinema oficial iberoamericano e estrangeiro.

Ontiveros (1995) retomava as ideias de Hall (1973) sobre os espaços de características fixas que estão moldados pela personalidade e referencias culturais do usuário, fazendo deles lugares que permitem o bem‑estar e sossego mental. Agora, se traduzimos essa descrição àquelas salas de cinema pornô ou outras que existiram durante várias décadas em algumas cidades da America Latina, frequentadas, em sua maioria, pelo público gay. Não faltará aquele que, categoricamente, comente sobre estes lugares como espaços que não proporcionaram valor algum à sociedade.

Na Cidade do México o “Cine Teresa”, inaugurado no dia 8 de junho de 1942, começou a exibir cinema pornô em 1994 para se recuperar de sua forte baixa econômica. Em 2010 foi reformado e em 2011 foi reinaugurado. Hoje em dia forma parte da Cinemateca Nacional e não mais exibe filmes pornôs (Espinoza, 2013). Atualmente, segundo dados da Câmera Nacional da Indústria Cinematográfica
(El Universal Tv, 2010) consultados em García (2013) existem menos de 20 salas de cinema pornô
de um total de 2400 em todo o México.

O “Cine Urdaneta” nasceu no dia 14 de junho de 1951 com o filme “¡Ay amor, cómo me has puesto!”
protagonizado por Tin Tan. Seu nome é em homenagem ao sobrenome do seu primeiro dono (Carlos Urdaneta Carrillo) e formou parte do conjunto de cinemas populares criado nos anos 50, em Caracas. Nos anos 70 já havia imposto a classificação D. “Las insaciables del sexo” (As insaciáveis do sexo), “Morenas Ardientes” (Morenas Ardentes), “Azafatas del Placer (Aeromoças do prazer), “Dulce cálida Lisa” (Doce quente Lisa), “Remolino de Pasiones”, (Moinhos de Paixões) “Pastel para el amor” (Torta para o amor), “Noches de Pasión” (Noites de Paixão), Girl Fever” foram alguns dos títulos
que foram exibidos nesse lugar.

Se lermos as salas de cinema pornô como espaços fixos onde os usuários gays são livres de protagonizar
seus próprios filmes pornôs nos banheiros ou poltronas, então, estamos assumindo, em primeiro lugar, o diferencialismo e em segundo lugar, o rapport entre esses espaços fixos e seus usuários. Com diferencialismo se faz referencia àquela postura de um conjunto de sujeitos individuais e coletivos que não seguem os mesmos direitos do que comumente foi denominado de sociedade heteronormativa. A diferença das associações LGBTI (lesbianas, gays, bissexuais, identidades trans e intersexuais) não almeja o matrimonio civil igualitário nem a constituição de famílias homoparentais. Para eles a vida sexual ativa é valida com varias pessoas. Os conceitos de monogamia e fidelidade não se correspondem ao fato de casar para toda a vida com uma única pessoa. Suprimem a palavra promiscuidade por considerá‑la
estigmatizante. A postura diferencialista é descrita por Vélez (2008) contrapondo‑a a assimilacionista liderada, em sua maioria, pelos coletivos LGBTI. Isso que chamamos de “sexodiversidade” de fato reúne as posturas assimilacionistas e diferencialistas.

Rapport entre a sala de Cinema Urdaneta e seus usuários gays Caracteriza‑se por:
a. A relação com o mobiliário/ objetos: “Sentei e apliquei a mesma da vez anterior… Aventuro‑me às primeiras fileiras para ver o que vou encontrar… Tempos depois se senta um moreno lindo…” (Caracas
Mensex CCS MS/ celebroso, 2009).

b. A experiência espacial que refere a distancia íntima, ou longínqua, que o individuo cria em relação a
outro(s): “Tempinho depois sentou um do meu lado e me punhetou, daí em diante foram se revezando
para me dar umas boas chupadas… Não deixa de me parecer engraçado que é parecido como uma loja de
doces, alguns provam os paus como balas de caramelo…” (Caracas Mensex CCS MS/ perrobravo, 2009).

c. Cada detalhe do local é reconhecido e vivenciado, o qual permite assegurar a continuidade do
grupo: “Um cheiro de sexo e fumo de cigarro impregnam toda a sala. A luz é escassa e só umas pequenas
lâmpadas vermelhas na parede e os letreiros de não fumar iluminam todo o espaço” (Caracas Mensex
CCS MS/ Mamón, 2008). “Bom, vejo que já descobriram que o domingo é o dia no Urdaneta…” (Caracas
Mensex CCSMS/ Carlos, 2009).

Cinema Urdaneta: um lugar antropológico e
um não lugar

Se nos remetermos aos anos de existência do cinema Urdaneta (1970‑2012) como sala de cinema
pornô poderia distingui‑lo como:

a. Um espaço de identidade que tinha sentido de unidade para seus usuários gays: “O que caralho
ocorre aqui? Se aqui não deixam chupar, ficaremos todas loucas e este cinema arruína‑se… É claro que
o cinema inteiro aplaudiu…” (Caracas Mensex CCSMS/ videólogo, 2007).

b. Um espaço relacional onde se desenvolveu uma linguagem gestual e corporal bem particular que dinamizou formas de fazer, agir, reunir‑se: “De repente fez um movimento… o sacudiu assim como quem
oferece algo a um cachorro… fez‑me um sinal com a cabeça…” (Caracas Mensex CCS MS/ bryan, 2012).

c. Um espaço histórico por quanto podiam sentir falta de tempos passados como melhores: “Ainda lembro
o dia que fui pela primeira vez, em comparação com o dia de hoje, tinha muito mais gente…” (Caracas Mensex CCS MS/ Alfasirius, 2008). “…frequentava o cinema há 15 a 20 anos, era muito diferente… que lembranças tão bonitas e saber que não voltaram mais…” (Caracas Mensex CCS MS/ carlos luis, 2009).

As características anteriores correspondem aos lugares antropológicos descritos por Augé (1993). Mas, a
sala de cinema Urdaneta na sua etapa de censura D também reuniu as condições de área efêmera e de lugar de passo vinculado ao anonimato, para alguns de seus usuários: “… Necessitava escolher o trabalhador, açougueiro, vigilante, motorizado, ou o que fosse para lhe dar porra…” (Caracas Mensex CCS MS/ Campero, 2010). “Deixei atrás o cinema adulto… que na verdade é um hotel onde alguns vão para manter seções de sexo expresso” (Caracas Mensex CCS MS/ Mamón, 2008).

Neste sentido, se trata de um não lugar. E o não lugar e o lugar antropológico não são opostos, são
um jogo continuo e confuso entre a identidade e a relação, onde emerge a apropriação social.

Sobre o autor

Estudante de doutorado em Artes e Cultura para a América Latina e o Caribe (UPEL). Magister Scientiarum em Comunicação. Menção Honrosa (UCV, 2013). Ele estudou na Escola de Cinema e Televisão Caracas (ESCINETV, 2009‑2011). Especialista em Gestão Profissional Empresarial
(Preston University, 2003). Locutor 34.217 (UCV, 2002). Industriólogo, Cum Laude (UCAB, 2000). Presidente da Venezuela LGBTI Film Festival‑FESTDIVQ. Membro da Rede Latino‑Americana
de Audiovisual Narrativas (RedInav) e Rede de Pesquisa em Cinema Latino‑Americano (RICILA). Autor dos livros “Arco‑íris Tricolor. Estereótipos de gays no filme venezuelano (1970‑1999) “(2013) e” Rainbow Tricolor. Venezuela Sexodiversas Audiovisual Productions (1982‑2012) “(2013).

Referências

  1. Augé, M. (1993). Los no lugares. Espacios del anonimato. Una antropología
    de la sobremodernidad (1era. Edición). Barcelona: Gedisa
  2. Caracas Mensex CCS MS/ Alfasirius (2008, julio 31). Cine Urdaneta,
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    network54.com/Forum/202926/message/1217547012/CINE+URDANETA,+
    datos+actuales+Julio+2008… [Consulta: 2013, noviembre 2013]
  3. Caracas Mensex CCS MS/ bryan (2012, noviembre 16). Aah el Urdaneta
    [Discusión en línea]. Disponible: http://www.network54.com/Forum/
    202926/message/1353073568/aah+el+Urdaneta [Consulta: 2013,
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  4. Caracas Mensex CCS MS/ Campero (2010, julio 22). El morbo y los celos
    fueron al Urdaneta un día… [Discusión en línea]. Disponible: http://
    http://www.network54.com/Forum/202926/message/1294120069/TITULO‑+
    EL+MORBO+Y+LOS+CELOS+FUERON+AL++URDANETA++UN+D
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  5. Caracas Mensex CCS MS/ Carlos (2009, febrero 3). Más puntos al Urdaneta…
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  8. Caracas Mensex CCS MS/ Mamón (2008, diciembre 20). Sexo express
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    EN+CINE+URDANETA [Consulta: 2013, noviembre 2013]
  9. Caracas Mensex CCS MS/ perrobravo (2009, febrero 3). … y también
    el sábado [Discusión en línea]. Disponible: http://www.network54.com/
    Forum/202926/message/1233631158/Domingo+en+Urdaneta‑Chester
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  10. Caracas Mensex CCS MS/ videólogo (2007, agosto 8). La Rebelión de
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  15. Ontiveros, T. (1995). Densificación, memoria espacial e identidad en
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    (editores), Historias de identidad urbana. Composición y recomposición
    de identidades en los territorios populares urbanos (pp. 31‑44).
    Caracas:
    Fondo Editorial Tropykos/ Ediciones Faces‑
    UCV
  16. Vélez, P. (2008). Minorías sexuales y Sociología de la Diferencia.
    Gays, lesbianas y transexuales ante el debate identitario. Barcelona: Ediciones
    de Intervención Cultural

Já parou para pensar que a sua boate pode ser tombada?

Por Victor Urresti publicado na 2ª Edição da Revista Memória LGBT, 2014.

Vamos citar a história do Cine Ideal! Uma boate que (infelizmente) recentemente fechou suas portas
(#todaschoram) e que tem uma longa história por trás do seu nome, do seu espaço e do próprio
termo pelo qual era intitulado: “Templo da House Music”.

Créditos: Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro – http://www.ctac.gov.br


O atual Cine Ideal está localizado à Rua da Carioca,no centro do Rio de Janeiro, ao lado da Praça Tiradentes, onde outrora foi a praça dos cinemas e teatros. Os poucos que restaram são contemporâneos ao passo dos cinemas da rua do Cine Ideal. O Cine Ideal, já foi conhecido como Cinematographo Ideal, inaugurado em 1908. Prédio tombado junto a um conjunto arquitetônico que engloba a Rua da Carioca, do número 02 ao 87 (o nosso cine é o número 60‑62). Possui uma linda cúpula que nos seus tempos áureos de cinema se abria no verão.

Créditos: Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro – http://www.ctac.gov.br

Bom, ao pensar no “templo da house music”, título da boate, devemos olhar sua fachada para
entender isso. É uma fachada eclética com pilastras nas janelas, arcos plenos ladeando, frontões,
cornijas e um toque art nouveau fechando a decoração. Na verdade, nunca tinha parado para ligar
o “1+1” que os idealizadores fizeram, de repente não sou o único, porque o badalo lá é certo! Em
dias de festa, quem vai olhar a arquitetura?

Créditos Foursquare

O mais interessante de tudo isso é a ocupação da comunidade LGBT nestes espaços, a festa durou
anos, onze para ser exato. Ora! Um espaço que poderia muito bem estar à quem apenas tendo vistoria
do patrimônio uma vez na vida e outra na morte, estava em uso. Ainda tinha funcionalidade e não tinha
uma bee se quer que não tenha ouvido falar do Cine Ideal ou se jogado nas suas pistas open bar.

O BAILE DAS CHIQUITAS: Conflitos e Negociações de um Patrimônio LGBT

Texto de Jaddson Luiz publicado na 3ª edição da Revista Memória LGBT

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré ocorre em Belém do Pará, na segunda semana de outubro, especificamente no segundo domingo. Mas também possui várias comemorações que o antecede. Destacamos entre as atividades que o envolve: 1) a Passeata dos Motoqueiros que acompanham a imagem de Nossa Senhora de Nazaré até o município de Icoaraci; 2) o Círio Fluvial, quando a imagem retorna de Icoaraci à cidade Belém e 3) a trasladação que ocorre no sábado e tem como característica a transportação da imagem da santa do Colégio Gentil à Igreja da Sé. É neste momento que observamos a existência da festa sobre a qual esta análise se debruça.

Documentário As Filhas de Chiquita  – Diretora PRISCILLA BRASIL

Quando a imagem na trasladação – atividade que ocorre na virada de sexta‑feira para o sábado – passa
pela Praça da República, local onde se encontra o Teatro da Paz, inicia‑se a festa mais antiga no território
brasileiro que homenageia o público LGBT. Na manhã de domingo, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré é “obrigado” a conviver com os resquícios do que fora abandonado pelos participantes do Baile das Chiquitas.

Para o desenvolvimento deste trabalho, observaremos a seguir considerações sobre patrimônio cultural.

Destarte, o patrimônio cultural, sendo considerado por determinado conjunto social como sua cultura própria, que sustenta sua identidade e o diferencia de outros grupos, não abarca apenas os monumentos históricos, como foi por bastante tempo considerado, mas também o desenho urbanístico e outros bens físicos, e a experiência vivida condensada em linguagens, conhecimentos, tradições imateriais, modos de usar os bens e os espaços físicos (Canclini, 1990, p. 99).
Tendo como ponto de partida a afirmação acima, o principal objetivo deste artigo vem a ser o de apresentar a existência do Baile das Chiquitas. Este, ligado a um dos mais antigos patrimônios imateriais do Brasil, O Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Por este caminho que escolhi traçar, serão também abordados os conceitos de Sincretismo e Patrimônio Imaterial com o intuito de apresentar as mudanças, o antagonismo e a convergência presentes entre o Baile das Chiquitas e o Círio de Nossa Senhora de Nazaré.

HISTÓRICO DO MOVIMENTO
O Baile das Chiquitas na época de sua gênese, em 1978, não passava de um simples bloco de carnaval que contava com a participação de alguns intelectuais, jornalistas e artistas paraenses, ou seja, personagens da cidade de Belém os quais podemos classificar, poeticamente, como os frequentadores das “vigílias etílicas” promovidas pelo Bar do Parque, local onde até hoje ocorre esta manifestação cultural. Resumindo, este evento começou como um encontro de amigos cheios de irreverência e aparentemente sem discriminação, mas que na atualidade galgou dimensões bastante expressivas.

Com o passar do tempo, como é de se esperar em qualquer manifestação cultural, a festa não conseguiu
permanecer imutável. Tal fato para uns pode representar o declínio de toda a “magia” contida no evento. Porém, para outros pode representar a “ascensão” do Baile das Chiquitas devido à mega produção do evento e o grande número de participantes. Fato que pode ser associado ao pensamento desenvolvido por Sant’Anna:

Não podendo ser fundada em seus conceitos de permanência e autenticidade. Os bens culturais de
natureza imaterial são dotados de uma dinâmica de desenvolvimento e transformação que não cabe
nesses, sendo mais importante, nesses casos, registro e documentação do que intervenção, restauração
e conservação (Sant’Anna, 2009, p. 55).

Créditos: Portal Cultura

No início o evento mantinha um caráter cordial entre os participantes e toda a concentração da festa acontecia ao lado do Bar do Parque em frente ao Teatro da Paz. Todavia, a festa das Chiquitas, a cada
ano que passa, aumenta expressivamente o número de participantes e estes passaram a ocupar todas as
áreas da Praça da República.

Mesmo com as acusações daqueles que defendendo uma suposta pureza pretérita e não concordam
com algumas mudanças que ocorreram com o decorrer do tempo, O Baile das Chiquitas ainda
mantêm muitas de suas atrações principais, sendo uma delas o prêmio O Veado de Ouro que é dado
à personalidade paraense que mais se dedicou durante todo o ano corrente a luta pelos direitos dos
homossexuais, como pode ser observado:

Já o ápice da noite, o prêmio Veado de Ouro, entregue aos que mais se dedicam na comunidade durante
o ano por sua contribuição contra a homofobia, é o que atrai o público. ‘Este ano o escolhido foi
Adilson Oliveira, que está defendendo uma dissertação sobre discriminação de professores homossexuais
nas faculdades’ […] (O Liberal; 2007 p.4).

Crédito: 360Meridianos

Contudo, embora esta manifestação cultural tenha sido batizada com um nome bem sugestivo, o que poderia restringir os participantes somente a comunidade LGBT, vários são os representantes da sociedade belenense que frequentam o evento.

AMOR E ÓDIO: O EMBATE ENTRE O BAILE E A IGREJA
O animador oficial da festa é Eloy Iglesias, que aparece no documentário ‘As Filhas da Chiquita’. Numa das cenas, o artista conta que a festa convive em harmonia com o festejo religioso. Atribui a contradição
da parada gay e o Círio ao monopólio que a igreja tenta impor. Mas diz que a participação popular
é um fenômeno incontrolável.


‘O Círio de Nazaré já faz parte da cultura paraense. Extrapola a fronteira religiosa. Durante o Círio, em todos os municípios do Pará existem homenagens exclusivamente religiosas, cada uma com sua peculiaridade. A festa sempre teve o lado profano. (O Liberal; 2007 p. 4)

Curta o Fauno Sagrado – Dirigido e Produzido por Ryan Lm
Sobre a obra de Eloi Iglesias

Por parte das hierarquias católicas, há uma relutância em aceitar a ligação da festa considerada profana com a festa religiosa da qual os católicos paraenses tanto se “envaidecem”. Para tanto, por ser uma vertente do pensamento judaico‑cristão, o catolicismo assim como o cristianismo como um todo, condena as práticas homossexuais. Assim sendo, negam a legitimidade do Baile.
O argumento por parte da Igreja é o de que as práticas homossexuais são biblicamente consideradas
pecado, portanto, condenadas pelo catolicismo. Esse pensamento é fundamentado pelo trecho bíblico a seguir: Com homem não te deitarás como se fosse mulher; é abominação e se também um homem se
deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável; serão mortos;
o seu sangue cairá sobre eles. (BÍBLIA; Levítico 18:22, Levítico 20:13)

De fato, o que não se pode é cair no erro de acreditar que um festejo com tamanha grandiosidade como é o caso do Círio de Nazaré, não irá apresentar junções de várias culturas mesmo que antagônicas.

Crédito: Researchgate

Os que torcem o nariz para tanta tolerância terão mesmo é que se acostumar porque a festa da Chiquita atrai mais gente a cada ano. Ela consta no calendário oficial dos festejos do Círio de Nazaré, reconhecido pelo ministério da cultura, que […] tombou a festa como patrimônio imemorial do povo brasileiro. E desde 2004, é reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil. (O Liberal; 2007 p. 4)

Esta junção que por agora compreenderemos como sincretismo cultural, diferente do que o nome
pode deixar parecer, não ocorre de forma harmônica como em um sincronismo, mas sim de uma forma
sofrível, movida por um jogo irtercultural que prevê perdas e ganhos, trocas e negociações. Para que se
possa compreender a dimensão que ronda o que aqui entendemos como sincretismo, afirmamos que: […] sincretismo como termo‑chave para a compreensão da transformação que está se dando naquele processo de globalização/localização que envolve, transforma e arrasta os modos tradicionais de produção de cultura, consumo, comunicação. Essa palavra não somente abre portas à compreensão de um contexto feito de arrancadas e confusas mutações, mas também pode permitir direcionar esta crescente desordem comunicativa ao longo de correntes criativas, descentradas, abertas (CANEVACCI, 1996, p. 4).

Para que se possa perceber o sincretismo no Círio de Nossa Senhora de Nazaré, não precisamos recorrer
a livros ou a comentários de terceiros. Basta apenas que os curiosos que queiram conhecer um pouco mais sobre o que ocorre nas entranhas deste evento acompanhem todas as atividades que envolvem esta festa religiosa. Serão visíveis, para este neófito, as várias manifestações religiosas antagônicas ao catolicismo e que coadunam com o Círio, sem que ocorra repressão direta. Para a tristeza dos clérigos católicos, o Círio de Nazaré já transcendeu as pequenas paredes da instituição da qual outrora se originou.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As discussões que rondam a relação entre O Baile das Chiquitas e o Círio de Nazaré acabam por nos
guiar a duas questões básicas. Apontamos aqui, em primeiro lugar, o fato de que se devem considerar
as manifestações populares. As mesmas, ao entrarem em conflito com as tradições hegemônicas da instituição religiosa da qual podemos atribuir a patente do Círio, abre espaço para uma nova realidade social que não é mais tal igual à realidade social da qual se originou. Esta ocorrência permite a inserção das mais variadas e contraditórias relações culturais, quando este fato é colocado em pauta, abrem‑se também as dimensões de estudos que rondam as duas manifestações, ampliando as discussões com relação ao Patrimônio. Seja ele Patrimônio Material, Imaterial, Cultural, Global, entre outros.

Em segundo lugar, não podemos esquecer sobre as questões que tangem os registros de ambos os movimentos culturais. Em suma, ao concluir este trabalho, podemos afirmar que apesar de todo o caráter
espontâneo que é inerente a um Patrimônio Imaterial nos dias de hoje, graças às iniciativas de alguns órgãos patrimoniais se tem feito muito para que haja um registro desses patrimônios, para que estes em
alguns casos, não deixem de existir sem que se conheça algo sobre eles.

REFERÊNCIAS
CANEVACCI, Massimo. Uma exploração das hibridações culturais. São Paulo: Studio Nobel, 1996.
CANCLINI, Néstor Garcia. O patrimônio cultural e a construção imaginária nacional. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 23. Rio de Janeiro, 1990.
Vianna, L. Dinâmica e preservação das culturas populares: experiências de políticas no Brasil. Revista Tempo Brasileiro, 2001.
SANT’ANNA, Márcia. A face imaterial do patrimônio cultural: os novos instrumentos de reconhecimentos e valorização. In: ABREU,Regina e CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio deJaneiro: DP&A, 2003. p.46‑55.

Coligay, torcida formada por homossexuais, tem história contada em livro

Matéria Publicada por Mário Magalhães 05/12/2013- http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/
@mariomagalhaes_

Vem aí um grande acerto de contas com a história do futebol e da luta contra a intolerância no Brasil: já estão nas mãos da Editora Libretos os originais do livro que reconstitui a trajetória da
Coligay, torcida gremista pioneira dos anos 1970, formada por homossexuais.
Ainda não está batido o martelo, conta o jornalista Léo Gerchmann, autor da obra, mas é possível
que título e subtítulo sejam “Coligay – O Grêmio, tricolor e de todas as cores”.
A Coligay nasceu em Porto Alegre, durante a ditadura, no governo do ditador gaúcho Ernesto Geisel, cujo antecessor havia sido outro ditador gaúcho, Emílio Garrastazu Médici. Seus integrantes foram de uma audácia épica, que agora será contada pelo gremista Léo Gerchmann, um dos jornalistas mais talentosos com quem eu tive a oportunidade de trabalhar. Cobrimos juntos a Copa de 98, na França, e ao menos uma eleição para governador do Rio Grande do Sul.
O livro será (foi) lançado em março. Na entrevista ao blog, o Léo fala sobre seu trabalho e a saga da Coligay.

O que foi a Coligay? Como a torcida foi recebida em seu tempo?
A Coligay foi uma torcida organizada do Grêmio formada por homossexuais. Mais precisamente,
por frequentadores da boate gay Coliseu, de Porto Alegre. Foi a primeira torcida desse tipo que
realmente vingou. Dois anos depois, Clóvis Bornay, que ironicamente era vascaíno, fundou a Flagay,
que não chegou a vingar. A Coligay existiu de 1977 a 1983, em plena ditadura militar.
Até hoje, torcedores rivais do Grêmio usam a figura da Coligay como motivo de flauta, e, na época, a própria torcida organizada gremista Eurico Lara, que era oficial do Grêmio, a rejeitou. A direção do clube, porém, na medida em que percebeu o jeito que a moçada torcida, até espaço físico no Olímpico lhes cedeu para guardar as bandeiras e instrumentos de percussão. E que jeito era esse? Eles torciam o tempo todo, independentemente de o time estar ou não jogando bem, e não se envolviam com violência. Os jogadores da época dizem que eles os incentivavam muito.

O primeiro vídeo do Projeto Histórias de Vida e Ação Política conta com a participação de Volmar Santos. Volmar Santos foi o criador da Coligay, uma torcida organizada do Grêmio integrada por homossexuais


Por que a Coligay acabou?
Basicamente, porque seu idealizador e líder, o Volmar Santos, voltou para Passo Fundo, sua cidade, em 1983. O Volmar, gerente e depois proprietário da Coliseu, era a alma da Coligay.

Por que você fez um livro sobre a Coligay?
Em primeiro lugar, porque sou gremista, e acho que o Grêmio tem nessa história uma página muito edificante. Como torcedor, é uma história que me orgulha. Mas ressalvo: não é um livro somente para gremistas, é um livro para todos, mesmo para quem nem gosta de futebol ou torce para outro clube, independentemente, também, de preferências sexuais. Como costumamos dizer nas reuniões de pautas dos jornais, é uma baita história.

Registro do Livro Coligay – O Grêmio, tricolor e de todas as cores

Há flautas homofóbicas?
Claro, mas não são essas as reações que me interessam. Elas, aliás, até justificam a importância de uma obra assim. Também porque sou um entusiasta da diversidade e da evolução dos costumes. Para mim, esse é um tema muito caro, provavelmente por ser judeu, neto de sobreviventes do horror nazista e por trazer esse sentimento muito enraizado. Meu pai era conselheiro gremista, e cresci frequentando o
Estádio Olímpico. Acho que a Coligay foi um grupo transgressor que contribuiu muito para essa evolução. Levou aos estádios um jeito diferente de torcer, mais comprometido com o time e mais vibrante.

Quais as passagens mais marcantes da torcida?
Foram muitas. Eles surgiram em abril de 1977, quando o Grêmio formava um grande time (Corbo;
Eurico, Ancheta, Oberdan e Ladinho; Vitor Hugo, Tadeu e Iúra; Tarciso, André e Éder), que terminou com a hegemonia do Internacional, à época octacampeão gaúcho (na época, os títulos regionais tinham bem mais importância), contando com jogadores como Falcão e Valdomiro.
Sempre tive a opinião de que esse time do Internacional e o do Flamengo do início dos anos 80 foram os melhores que vi jogar, talvez rivalizando com a academia palmeirense de 1972, que mal peguei, porque era ainda muito guri.
Hoje, relativizo um pouco essa visão, o próprio Grêmio formou grandes times, que idealizei menos porque a idade já era outra. A Coligay ficou, então, com a fama de pé quente. Mas há muitos episódios interessantes dessa época difícil, em que pessoas eram torturadas nos porões da ditadura, e um grupo de gays se aventurou nas arquibancadas.

Registro do Livro Coligay – O Grêmio, tricolor e de todas as cores

Hoje há mais tolerância para a existência de torcidas como a Coligay ou o futebol continua
sendo um meio muito preconceituoso?

Apesar da truculência das atuais organizadas, hoje as pessoas ficam mais à vontade para assumir suas preferências sexuais. As próprias mulheres, quando iam ao estádio, 40 anos atrás, eram xingadas. Sim, isso acontecia! Eram chamadas de putas, vadias etc. São coisas, hoje, inconcebíveis, inimagináveis. Espero que quando nossos filhos crescerem eles olhem para trás e pensem, “Pô, por que os caras não podiam se casar, levar a vida como querem, se não prejudicam os outros?’’ Me parece meio básico.
Tenho dois filhos (um menino de 11 anos e uma menina de seis) e percebo neles que sentimentos
como a homofobia e outros preconceitos ficarão como uma triste e incompreensível história, a exemplo da escravidão, o Holocausto e de outras barbáries. A homofobia ainda é aceita socialmente, o que faz dela um grande tema a ser abordado e, evidentemente, repudiado por todos nós que respeitamos as diferenças, quaisquer que sejam elas.

O que fazem hoje os principais integrantes da Coligay? Ainda acompanham o Grêmio onde o
Grêmio estiver?

É triste, mas em meio a tudo isso houve a aids. A maioria deles morreu. Os integrantes com quem falei continuam acompanhando o Grêmio de perto. O Volmar Santos é colunista social e agitador cultural em Passo Fundo, outro é cabeleireiro. Todos frequentam a Arena quando possível. O Volmar chega a viajar de Passo Fundo a Porto Alegre no seu carro, mais de 300 quilômetros, e passar a noite num hotel só para ir a jogos do Grêmio.

Registro do Livro Coligay – O Grêmio, tricolor e de todas as cores

Para um gremista, como você, qual a principal lembrança da Coligay?
Quando eles surgiram, eu tinha entre 12 e 13 anos. No Olímpico, eu assistia ao jogo das cadeiras,
e eles ficavam longe. Mas em Gre‑Nais que ocorriam no Beira‑Rio, o espaço reservado aos torcedores do Grêmio, os visitantes, era o mesmo. Tchê, era divertidíssimo. Eu e meus colegas dávamos risada com o humor dos caras, que realmente não paravam de incentivar o time e de dançar, com uma charanga muito
barulhenta e ritmada.

Esse texto foi republicado na 2ª edição da Revista Memória LGBT.

Ode a Giuseppe Campuzano

Esse texto foi publicado em 2014 na 2ª edição da Revista Memória LGBT, em co-autoria entre Jean Baptista e Tony Boita.

Não queremos falar da dor que nos provoca a morte de Giuseppe Campuzano, fundador do Museu Travesti (Peru). Queremos nostravestir de Campuzano, usar maquiagem incaica, manto de plumas da aves sagradas e peruca de longos fios negros para pensar a imensa contribuição que deixa não só para seu país de origem, mas para todos nós, profissionais de museus interessados na democratização da memória no Brasil.

Giusepe Campuzano, 2009 – Hemispheric Institute of Performance and Politics

Há dez anos, Campuzano criou uma vivência museal que se tornou um marco na museologia LGBT: El Museu Travesti possuía no corpo do próprio diretor pilares de seu acervo e na história do Peru os fundamentos da natureza trans dos museus. “O Museu Travesti do Peru nasce da necessidade de uma história própria”, diz Giuseppe no site do Museu, “ensaiando uma arqueologia das maquiagens e uma filosofia dos corpos para propor uma elaboração de metáforas mais produtivas que qualquer catalogação excludente”. Na vanguarda do debate, Campuzano traveste­‑se em Virgem Maria, em deusas incaicas, em virgens destinadas a sacrifícios ritualísticos de antigos povos indígenas. Na metáfora, denuncia o racismo e a transfobia católica, estatal, peruana, latino­‑americana, o não­‑lugar de cada um de nós LGBT. E o fez respondendo toda brutalidade com uma exposição exemplar, com cores vivas, com figurinos extraordinários, com pesquisas antropológicas e com discursos de união/paz que encontravam seu próprio corpo em performances que não podem ser esquecidas.


Embora a transfobia tenha determinado a exclusão do pensamento trans da produção museológica, Campuzano demonstrou que a capacidade de transicionar esta na essência da museologia.
Nos museus, transicionamos patrimônio, reencontramos suas identidades em espaços contemporâneos e travestimos os objetos com novos sentidos, sentidos contemporâneos. O Museu, é de fato, um espaço travesti.

Giuseppe Campuzano, Museu Travesti do Peru, Intervenção no Parque da Exposição, Lima, 2004. Foto: Claudia Alva, Cortesia do arquivo Giuseppe Campuzano. https://www.gasworks.org.uk/events/museum-musex-mutext-mutant-giuseppe-campuzanos-transvestite-machine-2016-06-23/


Das musas gregas (em verdade, dos musos travestidos no teatro antigo), acompanhamos a transformação constante dos museus. Hoje pretendem ser inclusivos, combater discriminações, defender o direito à memória. No contexto latino­‑americano e no Brasil que mais mata LGBT no mundo, essa nova performance dos museus é emergencial. Contudo, o direito à memória se tornou um grande chavão na museologia, ao menos no que se refere aos LGBT e em especial aos T da longa sigla. No Brasil, a ideia de
um Museu Trans ou LGBT demora a pegar: seja pela força da fobia aos LGBT que domina as políticas culturais, seja pelo lugar do museu no Brasil, intencionalmente excludente, que teima em coquetéis e escandalosos banquetes do mais do mesmo ao invés de se democratizar.

Giuseppe Campuzano, Hemispheric Institute 7th Encuentro: Staging Citizenship, Cultural Rights in the Americas (Bogotá, Colômbia, Agosto de 2009)

No âmbito geral dos museus, impera o raciocínio excludente: “não tenho nada contra”, nos disse certo diretor de um museu mantido por fundos públicos, “mas esta não é a missão do meu museu”. Assim tem sido: os museus de arte, medicina, história, tecnologia ou até mesmo os comunitários protegem­‑se em suas missões que, evidentemente, não incluem a questão LGBT justamente por terem sido construídas em contextos fóbicos aos mesmos. Perde­‑se, com isso, a possibilidade de discutir com a sociedade os
resultados de uma história violenta e as alternativas de paz que se poderiam construir.

Silêncios nos museus, silêncios na academia. A falta de políticas de combate à fobia aos LGBT nas
universidades, a incapacidade das Ifes em possuir um programa de acesso (onde o nome social fosse utilizado desde o início dos processos seletivos) e permanência LGBT, a ausência de linhas de pesquisa ou publicações sobre o tema, a negativa de orientação constante aos estudantes interessados em pesquisar o tema (a desculpa recorrente é a ausência de produção), entre outros fatores, evidenciam a conivência acadêmica com a homo, lesbo e transfobia. Eventos da museologia tratando especificamente do tema? Nenhum até o momento, é claro.

Disso tudo, longas dúvidas: o que podemos afirmar sobre a comunidade museológica brasileira a partir do fato dos mais de 3 mil museus do Brasil não abordarem a questão LGBT? O que faz com que nem mesmo exposições temporárias, com curadoria trans por exemplo, possam ser montadas? E por que não uma Primavera nos Museus LGBT promovida pelo Ibram? Por que parece ser absolutamente impossível pensar que o Brasil possa ter uma experiência como a do Museu Travesti no Peru? Será a comunidade museológica brasileira homo, lesbo e transfóbica?

Giuseppe Campuzano, 2008, Centro Cultural de España, Limahttp://archivoartea.uclm.es/obras/museo-travesti-del-peru/

Novidades recentes, entretanto, temos para contar a partir de 2013. O Museu da Diversidade em São Paulo, um museu sub‑way na estação da República, dedicou sua primeira exposição, O T da questão, para população trans. Foi a primeira exposição em um museu mantido por fundos públicos a adotar este tema, ao menos que temos notícia. Logo em seguida, esse mesmo museu montou a exposição Crisálidas, composta por fotografias de Madalena Schwartz feitas com a população trans dos anos de 1970. Já o Museu das Bandeiras (Muban) promoveu a I Semana do Babado, dedicada a discutir a homo, lesbo e
transfobia em Goiás: rodas de conversas, espetáculos de divas trans e uma exposição com fotos de membros da comunidade LGBT de todo país fizeram parte da extensa programação. Na fachada do Muban, uma imensa bandeira arco­‑íris foi erguida pela primeira vez em um museu do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram­‑Minc). Tanto no Museu da Diversidade quanto no Muban, avanços democratizantes: a população LGBT percorrendo os espaços museais, representando­‑se e vendo­‑se representar. Paralelamente, o absurdo da segregação: protestos de setores conservadores que insistem em afirmar que o lugar dos LGBT não é nos museus.

Giuseppe Campuzano, 2008, Centro Cultural de España, Limahttp://archivoartea.uclm.es/obras/museo-travesti-del-peru/


Obviamente, nascidos em um mundo que diz não ser para nós, encontramos alternativas criativas para essas barreiras – trata­‑se da capacidade de se recriar que o pensamento trans possibilita. Nesse sentido, temos feito nossa parte. A criação da Rede LGBT de Memória e Museologia Social e a presente revista são algumas das ações que tem feito diferença em amplos setores. Na universidade, tocamos em fren‑
te um programa de Extensão chamado Comuf (Comunidades+Universidades Federais), onde um de seus projetos é destinado a acolher o membro comunitário e o acadêmico LGBT, possibilitando seu acesso e permanência ao Ensino Superior por meio da formação do extensionista‑pesquisador LGBT: não queremos ficar falando em nome dos T; queremos, sim, formar museóloges trans!

Giuseppe Campuzano, 2008, Centro Cultural de España, Limahttp://archivoartea.uclm.es/obras/museo-travesti-del-peru/

Também oferecemos um mini­‑curso para cursos de museologia, museus, escolas e movimentos sociais sobre a história e memória LGBT – até o momento, nenhum museu ou universidade solicitou tal serviço ao contrário dos demais setores. Mas bora lá trabalhar, sem desanimar.

Mas e você, profissional de museus­‑patrimônio‑memória, o que tem feito? Sugiro que comece se travestindo para experimentar na pele o brilho de outras almas, como a de Campuzano, e com isso encontrar caminhos que recriem a museologia brasileira, transicionando­‑a, de fato, em uma museologia efetivamente democratizadora.

Ao que parece esse foi o último registro fotográfico e performace de Giuseppe.
Performance em cores realizada para a inauguração da última exposição do Museo Travesti del Perú em Lima, março de 2013.
https://thereisnoithaca.tumblr.com/post/77829554599/dos-reinterpretaciones-de-las-dos-fridas-1

Conheça o site do Museu Travesti, com fotos, vídeos e textos:
http://hemi.nyu.edu/hemi/es/campuzano‑presentacion

Entrevista Madame Satã

De família pobre, o pernambucano João Francisco dos Santos (1900-1976), o Madame Satã, fixou residência na Lapa, bairro boêmio e maldito do Rio de Janeiro. Em 1971, quando já figura
célebre no cenário nacional, cedeu uma entrevista ao Pasquim, gerando um importante documento para a história e memória LGBT no Brasil. Faleceu em 12 de abril de 1976.


Entrevistado por Sergio Cabral, Paulo Francis, Millôr Fernandes, Chico Júnior, Paulo Garcez, Jaguar e Fortuna, para O Pasquim, de 05/05/1971, e republicada no livro ALTMAN, Fábio. A arte da entrevista. São Paulo: Scritta, 1995.


A personagem da entrevista desta semana era lenda no meu tempo de menino em Botafogo.
Uma espécie de gunfighter da Lapa, fechando bares e enfrentando as terríveis Polícia Especial e D.G.I. (Departamento Geral de Investigações), que enchiam de pavor quem andasse nas ruas, coisa
que os garotos da época, na maioria, faziam. E havia o paradoxo aparente de homossexualismo de Madame Satã. Aparente, sim, porque e Julio César, Alexandre o Grande, ou, próximo de nós, Heydrich e Goering? Pensar que violência é característica heterossexual não passa de balela primitiva.
Satã nos impressionou bastante, porque é um tipo completamente fora do nosso âmbito de experiência. Todos nós duvidamos de tudo, inclusive de nós mesmos. Convertemos nossos superegos em catedrais em que nos ajoelhamos e pedimos perdão a nós mesmos, sem resultado. Satã tem certeza das coisas que faz. Eu disse, na entrevista, que ele me parece literatura, à parte mais sofisticado e legítimo do que Jean Genet (o que Sartre escreveria sobre ele, fico pensando). Não esconde o jogo. Se aceita como é. Há coisa mais dificil? Pra nós (um mítico nós e todos, bem entendido, mas os incluídos se reconhecerão) impossível.
Eu diria mais: que Satã representa a verdadeira contracultura brasileira, que essa que aí está, apesar de seus valores intrínsecos e universais, nos foi imposta de fora pra dentro, o que às vezes é bom, outras, não. Já Satã emergiu deste asfalto, deste clima, deste ragu cultural brasileiro, que tentamos negar inutilmente, mas que, tal qual o rio do poema de Eliot, é um deus primitivo, capaz de adormecer, apenas e sempre vivo, vingativo
e traiçoeiro. A sociedade urbana, de consumo, aqui, é puro verniz, descascando visivelmente. Outras forças, suprimidas, estão aí, poderosamente latentes, acumulando impacto.
A inocência de Satã das coisas da moda elitista, de modelos de raciocínio, é completa.
Mas nenhum de nós se sentiu tentado a ironizá-lo. Não por medo. Ele é bem mais educado do que a maioria dos grã-finos que conheço (um bom número, acrescento). Foi por respeito. Sentimos uma personalidade realizada. Quantos de nós podem dizer a mesma coisa? Nesse mundinho de classe média pra cima, que muita gente boa (tradução poderosa) imagina ser o Brasil, e que é, no duro, uma ínfima e arrogante minoria, pouco existe de igual em termos de tipo. Quem vai prevalecer? Não percam o próximo e emocionante capítulo.
(Paulo Francis)


Sérgio – Quantos anos você esteve preso?
Madame Satã – Ao todo eu tirei 27 anos e oito meses.
Sérgio – E há quantos anos você está liberdade
Madame Satã – Há seis anos. Saí no dia 3 de maio, há seis anos.
Sérgio – Mas você continua morando na Ilha Grande.
Madame Satã – Continuo morando na Ilha Grande porque eu achei que é um lugar onde eu posso viver mais sossegado, mais descansado das perseguições da polícia e mesmo da vida agitada
que eu levava.

Millôr – Que idade você tem?
Madame Satã -Tenho 71 anos de idade.
Sérgio – Com essa cara?! É verdade que você tem mãe viva, ainda?
Madame Satã – Tenho sim, está com 103 anos e mora no interior de Pernambuco.

Mestre de Cerimônia da Boate Cafona’s 5/07/1971 – Arquivo Nacional (Fundo Correio da Manhã)


Millôr – Você é pernambucano?
Madame Satã – Sou.
Millôr – Você está no Rio há quantos anos?
Madame Satã – Eu cheguei no Rio em 1907 e fui morar na rua Moraes e Vale, 27, ali no largo da Lapa.


Millôr – E que profissão você exercia?
Madame Satã – Eu sempre fui cozinheiro. Até 1923 eu fui cozinheiro. Em 1924 eu ingressei na Casa de Caboclo.
Millôr – Que nível de instrução você tem?
Madame Satã – Sou analfabeto de pai e mãe.
Millôr – Pelos seus amigos você é chamado como? De Madame Satã ou é chamado pelo seu
próprio nome?
Madame Satã – De Satã.
Millôr – Como é seu nome todo?
Madame Satã – Meu nome todo é João Francisco dos Santos, sou filho de Manoel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição.
Millôr – Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?
Madame Satã – É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.
Millôr – Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter
uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção
em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi
um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.
Madame Satã – Isso é o que diz a história, né?

Sérgio – Mas você é homossexual?
Madame Satã – Sempre fui, sou e serei.


Millôr – De onde vem a sua fama de extraordinária masculinidade? Eu sei que foi através de inúmeras brigas. Conte alguma coisa.
Madame Satã – Eu comecei em 1928. Deram um tiro em um guarda civil na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá e mataram, né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso. Eu tinha 28 anos. Aí eu fui para o Depósito de Presos e daí para a Penitenciária e fui condenado a 26 anos. Na penitenciária, não. Na Casa de Correção.
Millôr – Segundo você, injustamente.
Madame Satã – Injustamente.
Sérgio – Mas você não deu o tiro no guarda?
Madame Satã – Não, o revólver é que disparou na minha mão. Casualmente.
Sérgio – Foi a bala que matou?
Madame Satã – Não, a bala fez o buraco. Quem matou foi Deus.
Sérgio – Balas que saíram do seu revólver mataram quantos?
Madame Satã – Bala que saiu do meu revólver só matou esse porque os outros era a polícia que matava
e dizia que era eu.

Sérgio – Mas você usava muito era a navalha, né?
Madame Satã – Às vezes, não era sempre não.
Chico – Eu ouvi dizer que você matou um com um soco.
Madame Satã – Não, eu fui acusado de ter matado o falecido compositor Geraldo Pereira com um
soco. Mas o caso foi o seguinte: eu entrei no Capela e estava sentado tomando um chope.
Ele chegou com uma amante dele (ainda vive essa mulher), pediu dois chopes e sentou ao
meu lado. Aí tomou uns goles do chope dele e cismou que eu tinha que tomar o chope dele e
ele tinha que tomar o meu. Ele pegou o meu copo e eu disse pra ele: olha, esse copo é meu.
Aí ele achou que aquele copo era dele e não era o meu. Então eu peguei meu copo e levei
para a minha mesa. Aí ele levantou e chamou pra briga. Disse uma porção de desaforos, uma
porção de palavras obscenas, eu não sei nem dizer essas coisas. Aí eu perdi a paciência, dei
um soco nele, ele caiu com a cabeça no meio-fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo do
médico, porque foi para a assistência vivo.

Sérgio – Teve uma vez que você deu uma navalhada na traseira de um sargento. Como é que foi
essa história?
Madame Satã – Eu não dei navalhada na traseira do sargento não. Eu estava sentado ali no Canaã
e entrou um sargento do Exército e me deu seis tiros. Não me conhecia, não sabia quem
era eu, eu nunca tinha visto ele, não avisou nem nada, de uma mesa pra outra. Quando
ele acabou de dar o último tiro guardou a Mauser e saiu pela porta afora. Eu olhei prum
lado e olhei pro outro, não vi sangue e falei: bem, então eu estou vivo. E saí correndo atrás
dele. Quando estava subindo ali a rua Taylor, parece que ele passou por uma cerca de
arame farpado, sei lá, e se rasgou todo. Eu sei que ele levou quarenta e poucos pontos.

Millôr – Você ainda briga hoje, ainda tem energia?
Madame Satã – Brigar eu não brigo porque eu nunca briguei, mas na minha casa a gente come o que Deus dá e o que faltar Nossa Senhora inteira.
Chico – Satã, você respondeu a quantos processos?
Madame Satã – Eu tenho 29 processos, sendo 19 absolvições e 10 condenações.
Chico – E quantos homicídios?
Madame Satã – Três.
Chico – E agressões?
Madame Satã – Ah, meu filho, somente nove.
Millôr – Em quantas brigas você calcula que tenha entrado?
Madame Satã – Ah, que eu não fui preso, deve ter umas três mil. Eu gostava da briga. Eu nunca briguei com paisano na minha vida. Essa mania da polícia chegar, bater e começar a fazer covardia, eu levantava e pedia a eles pra não fazer isso. Afinal de contas, se o sujeito estiver errado, eles prendam, botem na cadeia, processem,tá certo.Agora, bater no meio da rua fica ridiculo. Afinal nós
somos seres humanos. Eles achavam que eu estava conspirando contra eles, então já viu, né.

Millôr – Quer dizer que você tinha raiva da opressão policial.
Madame Satã – Sempre tive e morro com ela.
Sérgio – Satã, me diga uma coisa: essa história de que você pegava garoto à força é verdadeira?
Madame Satã – É coisa que eu nunca fiz na minha vida, porque era coisa que não precisava fazer. O senhor deve entender, o senhor que é da vida moderna, sabe muito bem que isso é uma coisa que não se precisa pegar ninguém à força.
Sérgio – Eu sempre ouvi falar, desde garotinho, quando eu ia passear na Lapa e falavam comigo: cuidado que o Madame Satã vai te pegar.
Madame Satã – Conversa fiada, eu não era tão tarado assim.
Millôr – A Lapa foi durante muito tempo um centro de boemia. Você conheceu gente famosa,
além dos marginais?
Madame Satã – Fui amicíssimo do Chico Alves, fiz muitas serenatas com ele, Noel Rosa, Orlando
Silva, Vicente Celestino.


Chico – Quem é que te deu esse apelido de Madame Satã?
Madame Satã – Esse apelido de Madame Satã ganhei em 1938, no Bloco Caçador de Veados, depois passou para Caçador da Floresta e morreu com esse nome. Depois nasceu como Turunas de Monte Alegre.
Sérgio – Mas você era caçado ou caçador?
Madame Satã – Eu era caçador.

Madame Satã – Arquivo Nacional (Fundo Correio da Manhã)


Chico – Mas conta a história do apelido.
Madame Satã – Bem, havia o baile de carnaval e o concurso. Então eu me exibi com a fantasia de
Madame Satã no Teatro da República e ganhei o primeiro lugar. Ganhei um tapete de mesa e um rádio Emerson, feito um balezinho, ele abria do lado, assim, feito uma portinha. O último ano que eu desfilei foi em 1941. Eu estava preso, mas anulei um processo e vim passar o carnaval na rua. Desfilei com a Dama de Vermelho.

Sérgio – O que que você acha do Clóvis Bornay?
Madame Satã – Eu vou te explicar uma coisa: eu não tenho o que dizer dessas bichas velhas, não.
Chico – Ainda agora nós estávamos conversando sobre Osvaldo Nunes. É verdade que ele
briga bem?
Madame Satã – Eu conheci o Osvaldo Nunes, mas ele não era cantor ainda. Mas eu não acho que ele
brigue bem, não. De quando em quando eu fico sabendo dos escândalos que eles fazem por aí. Eu acho que do jeito que eles brigam não é briga, é escândalo.

Millôr – O Osvaldo Nunes declara publicamente que o homossexualismo dele veio através da prisão. Ele teria sido preso e foi violentado.
Madame Satã – Conversa fiada, é mentira. É mentira porque na cadeia ninguém faz isso no peito.Tirei
27 anos e oito meses de cadeia e nunca vi ninguém fazer isso no peito. Fazem por livre e espontânea vontade porque querem fazer. Quando eu fui para a cadeia já era pederasta, já era viciado, nunca fiz isso no peito.

Millôr – Peraí, você está chamando isso de viciado? Eu não chamo de viciado não. Você está dando outro nome.
Madame Satã – Eu não desdigo o que digo, mas para uma parte é.
Jaguar – Nesse negócio de prisão, o Lucena tá me falando aí, que todo criminoso primário tem que
entrar em pua. É verdade isso?
Madame Satã – Isso é conversa fiada.
Chico – E a história do xerife? O garoto novo entra na cela e o xerife, ó.
Madame Satã – Houve a história do xerife.
Paulo Garcez – O Paulo Francis foi o nosso xerife.
Madame Satã – Mesmo no tempo do xerife só se viciava quem queria. O sujeito chegava lá, filho de
papai e mamãe, tinha o olho grande, apanhava o cigarro do chefe do alojamento, comia a comida do chefe do alojamento porque queria comer uma comidinha melhor, queria dormir na manta do chefe do alojamento, queria tomar banho com o sabão do chefe do alojamento, ora

Millôr – Alguma vez você já foi violentamente apaixonado? Você já foi casado no sentido homossexual?
Madame Satã – Não, eu nunca fui dessas coisas não, esse negócio de amiguinho, casamento. Nunca fui porque sempre achei feio, achava ridículo. Esse negócio de andar apaixonado, de fazer escândalo no meio da rua, isso é pouca vergonha.
Millôr – E com mulher, você é casado?
Madame Satã – Sou casado. Tenho seis filhos de criação.
Chico – Esse seu passado não influiu na sua relação com a sua mulher? Como é que ela encara o
seu passado?
Madame Satã – Se ela não quiser encarar, ela que se suicide. O que é que eu tenho com isso? Quando ela me conheceu já sabia minha vida, casou comigo porque quis casar.
Millôr – Você casou com que idade?
Madame Satã – Casei com 34 anos.
Millôr – E está com a mesma mulher até hoje?
Madame Satã – A mesma mulher.
Sérgio – Você disse que foi amigo do Francisco Alves. O que você achava dele?
Madame Satã – O Chico Alves pra mim foi uma grande pessoa, não só como cantor, mas também
como companheiro de farra e como amigo.

Sérgio – E Noel Rosa, era bom sujeito?
Madame Satã – Noel Rosa já desceu de Vila Isabel como um bom sujeito, pelo menos como cantor e
como companheiro.

Jaguar – Você conheceu a Araci de Almeida?
Madame Satã – Araci de Almeida eu conheci menina, ainda, quando ela começou a gravar as músicas de Noel Rosa. Pra mim foi uma grande amiga e uma grande companheira. Era o meu tipo, o tipo assim que quando se queimava já viu, né.
Millôr – Nessas suas prisões qual foi o criminoso mais bárbaro que você conheceu?
Madame Satã – O criminoso mais bárbaro que eu conheci na cadeia foi o falecido Feliciano.
Sérgio – O que é que ele fez?
Madame Satã – Me parece que o crime dele foi em 1945 ou 1946. Ele tinha matado o sogro e botado
fogo. Na cadeia, quase todo o ano ele matava dois. O último que ele matou foi o Gregório.

Millôr – Ah, ele é o tal que matou o Gregório. E você conheceu o Gregório?
Madame Satã – Eu conhecia o Gregório desde o tempo de São Borja.
Sérgio – E o que você foi fazer lá?
Madame Satã – Eu era muito amigo da família Mostardero, do Rio Grande do Sul, o capitão Manoel
Mostardero, que veio ser diretor da penitenciária várias vezes, e eu ia sempre lá passear. O Gregório era cocheiro do pai do falecido Getúlio.

Millôr – E você foi amigo do Gregório (chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas)?
Madame Satã – Amicíssimo, ele morreu nos meus braços. Eu estava a uns 15 metros quando ele levou a facada.
Millôr – Você quer contar a história?
Madame Satã – O que eu sei é a legítima história, a verdadeira. Isso eu sei porque na época eu estava sumariando, porque tinha muito processo, e muitas vezes eu desci da Colônia para a penitenciária e trouxe muito bilhete do Feliciano para o Gregório e levei muita roupa e muito dinheiro para o Feliciano na Colônia. Mas a história é a seguinte: entrou em cana um rapazinho lá de São Borja, muito amigo do Gregório. Trabalhava na rouparia com o falecido Gregório, mas um dia o rapazinho brigou no pátio e foi para a Colônia, de castigo.
Sérgio – Frota Aguiar, que é o presidente do IPEG hoje?
Madame Satã – Por mim ele pode ser até presidente da República. Ele vivia me perseguindo. Um dia eu telefonei para ele e disse que era mentira. Ele disse que não era, que ia me dar um pau e me mandar pra cadeia. Então, eu disse pra ele: bem, eu vou falar com o senhor, já sabe que eu vou quebrar a sua cara. Aí eu fui.
Sérgio – E como é que foi?
Madame Satã – Quebrei a cara dele e me deram uma surra que quase que me mataram, mas quebrei a cara dele. Ele ia me bater na minha casa, eu já estava lá, lá mesmo apanhava.
Sérgio – Está me chamando atenção uma coisa: você não sabia capoeira, nenhuma luta especial e
no entanto você brigava contra rádio-patrulhas?
Madame Satã – Eu não brigava, eu me defendia.
Sérgio – Mas você se defendia contra vários e no entanto você não é nenhum atleta. Você tem que
altura?
Madame Satã – Eu devo ter 1,85m, mais ou menos.
Sérgio – E quanto que você pesa?
Madame Satã – Agora eu devo estar pesando 73 quilos.
Sérgio – Pois é, você não é um físico privilegiado.
Madame Satã – Naquela época eu pesava 88,89.
Millôr – Você acha que você tem o corpo fechado?
Madame Satã – Bom, eu não tenho corpo aberto. Se eu tivesse corpo aberto eu estava fedendo. Fechado eu tenho que ter.
Millôr – Por que você se fixou na idade de 84 anos?
Madame Satã – Pode anotar aí. Se o senhor não estiver vivo, talvez seus filhos estejam. Deixe gravado
aí porque eu vou morrer com 84 anos.

Millôr – Você disse que é analfabeto. Mas eu queria saber qual é o tipo de informação que você tem
a respeito das coisas. Você está sempre a par da política nacional? Você sabe, por exemplo, quem
é o presidente da República? Quem é Aristóteles Onassis, casado com a Jacqueline Kennedy?
Madame Satã – Eu sei que ele é a primeira fortuna dos Estados Unidos.Agora, o que ele é eu não sei.
Millôr – Charles de Gaulle, você sabe quem é?
Madame Satã – Foi durante muitos anos o primeiro-ministro da França, não é?
Millôr – Você sabe o que é um avião supersônico?
Madame Satã – “O governador Carlos Lacerda? Eu conheci muito o falecido pai dele, conheci menino ainda. O Carlos passeava sempre na Lapa quando era rapazinho.”Eu não sei explicar muito bem, não.
Millôr – Eu acho que ninguém aqui sabe.
Jaguar – Quando Nelson Cavaquinho foi da polícia, ele nunca te prendeu, não?
Madame Satã – Nunca. Nelson Cavaquinho é muito meu amigo, sempre foi.
Jaguar – Mas ele não era civil.
Madame Satã – Mas era muito meu amigo.
Millôr – Pra você saber como você é um homem glorioso na história do Rio de Janeiro, eu já escrevi um show musical em que tinha um quadro em que você entrava. Você brigava na Lapa com
uma rádio-patrulha inteira, eles não tinham maneira de prender você. De repente eles empurram
você em cima de um carrinho-de-mão, te amarram e saem no pau com você no carrinho-de-mão
amarrado. Isso nunca aconteceu, não?
Madame Satã – Aconteceu quase igual. Antes de vir a Viúva Alegre eu saí muitas vezes num carrinho-de-mão amarrado.
Millôr – Que coisa impressionante! Eu não sabia disso.
Fortuna – O que era a Viúva Alegre e por que tinha esse nome?
Madame Satã – A Viúva Alegre era um carro de polícia assim como esses jipes, mas não era bacana
assim. Era um tipo de viúva bem mixa. Era um tipo de jipe com grade em volta era pintado
de preto. Depois é que veio o tintureiro.

Millôr – E os seus filhos e a sua mulher?
Madame Satã – Eu tenho uma filha que é professora de acordeão e funcionária pública do Ministério
da Justiça.Tenho outro que mora em Nova Iguaçu e é delegado de Polícia.

Millôr – Delegado?
Madame Satã – É. Tenho outro que é soldado da polícia e tem uma que mora em Belém do Pará.
Chico – São filhos de criação, não é?
Madame Satã – São.
Millôr – Você não ganha ordenado?
Madame Satã – Não, eu tenho ordenado. Eu crio galinha, crio pato, dou peixadas, cozinho em festas de casamento, faço tudo.
Millôr – Você não cobra um preço por isso?
Madame Satã – Eu cobro, mas não é todo dia que se encontra um casamento, né?
Sérgio – Se alguém quiser utilizar os seus serviços o que faz? Se uma família quiser que você
faça uma peixada, como é que faz?
Madame Satã – É só escrever: Ilha Grande, Vila Abraão, Madame Satã.
Millôr – Apesar de toda luta que você teve na vida, se você tiver que dizer alguma coisa sobre a
sua vida você vai dizer que você foi um homem feliz?
Madame Satã – Eu fui sempre um homem muito feliz porque, graças a Deus, eu fui sempre um sujeito de muita saúde.
Francis – Talvez você não conheça a pessoa, mas é um grande elogio. Você é muito mais autêntico e muito mais sofisticado do que Jean Genet. Você conheceu um homem chamado Frade Ávalo?
Madame Satã – Não.
Sérgio – E Manuel Bandeira?
Madame Satã – Manuel Bandeira?
Sérgio – Morava no beco.
Madame Satã – No Beco das Carmelitas?
Sérgio – É
Madame Satã – Não, assim de nome, não.
Sérgio – E Carlos Lacerda?
Madame Satã – O governador Carlos Lacerda? Eu conheci muito o falecido pai dele, conheci menino
ainda. O Carlos passeava sempre na Lapa quando era rapazinho.

Millôr – Odilo Costa Filho?
Madame Satã – Não, eu conheci um Odilo que hoje é major da polícia.
Millôr – Mário de Andrade?
Madame Satã – O Mário de Andrade que eu conheci era bicheiro.
Millôr – Você conheceu algum jornalista, intelectual, escritor, daquele tempo?
Madame Satã – O jornalista que eu conheci lá foi o falecido Mário dos Santos e um tal de Macedo.
Chico – Satã, você respondeu os seus processos sob vários nomes. Quantos nomes você tem?
Madame Satã – Acho que uns cinco só. Gilvan Vasconcelos Dutra, Satã Etambatajá.
Millôr – É francês?
Madame Satã – Etambatajá não é francês não, é indígena. Tem ainda Gilvan da Silva e Pedro Filismino. Quando um nome tava muito cheio de processo eu dava outro.
Millôr – Você conheceu um cara famosíssimo na vida marginal, o Meneghetti?
Madame Satã – O Meneghetti não era marginal, era ladrão de jóias. Eu tirei cana dura com ele em São Paulo. Ainda até pouco tempo ele estava recolhendo dinheiro para pagar a passagem dele para a Itália. Ele podia dar um curso de ladroagem, foi um dos maiores ladrões de jóias. Ele e o Alexandre Lacombe.
Millôr – Você ouviu falar no Febrônio?
Madame Satã – Índio Febrônio do Brasil
Sérgio – Como é que é? Febrônio Índio do Brasil?
Madame Satã – Não, Índio Febrônio do Brasil.
Millôr – Peraí, vamos esclarecer. Ele pegou garotos, esses troços?
Madame Satã -Quando ele praticou aqueles crimes ele morava na avenida Gomes Freire, 115. Ele
era dentista. Eu me dava muito bem com ele.

Millôr – Qual foi o crime dele?
Madame Satã – Parece que ele matou uns dez ou 12 garotos. Ele matava, enterrava, depois ficava
comendo até apodrecer. Quando apodrecia, ele matava outro. Foi para o Manicômio Judiciário.
Francis – Você conheceu um rapaz, eu não sei o nome dele todo, mas eu jogava sinuca muito
com ele, malandro muito perigoso. Eu só me lembro do primeiro nome dele: Pedrinho. Sei que
ele pegou uma cana feroz.
Madame Satã – O Pedrinho do Catete, eu me dava muito com ele.
Francis – Onde é que ele está, hein?
Madame Satã – Eu não sei porque a última cadeia que ele tirou foi na Colônia Penal Cândido Mendes. Depois que ele saiu nunca mais eu vi.
Francis – Ele quis ser meu guarda-costas, uma vez.
Sérgio – E aqueles malandros famosos na Lapa, o Edgar, o Meia-Noite?
Madame Satã – O Meia-noite não era propriamente valente. Valente era o fantoche dele, o falecido Tinguá.
Sérgio – O Meia-Noite era bicha?
Madame Satã -O Meia-Noite era caso do falecido Tinguá, sempre foi. O Edgarzinho foi um farol que
acendeu e apagou logo em seguida. Agora, quem durou mais um pouco foi o Miguelzinho. O Edgar morreu com 26 anos. Fez o primeiro crime ali na rua do Riachuelo, matou o dono do botequim. Foi absolvido porque era menor e logo em seguida fez o segundo crime na rua do Santana. Matou o dono do botequim e o garçom.

Sérgio – E desses compositores: Wilson Batista, Ismael Silva e tal, você conheceu?
Madame Satã – Wilson Batista eu tive uma briga com ele muito grande quando ele desceu lá do
morro com aquela disputa com Noel Rosa. Foi outra briga que eu tive. Foi ali na Galeria Cruzeiro, ele saiu correndo por ali. Foi quando ele tirou aquele samba “Rapaz Folgado”, pro Noel.

Sérgio – E o Ismael Silva?
Madame Satã – Ismael Silva preto? Ele estava sempre ali na Lapa. Era bom sujeito só que quando
bebia muito ficava chato.
Francis – E os cabarés?
Madame Satã – Cabarés tinham muitos. Tinha o da Anita Gagliano, o Cu da Mãe. Sabe ali na esquina
onde tem o Metro? Tinha o Bar-Cabaré Cu da Mãe, de Anita Gagliano.

Chico – Mas esse nome era escrito?
Madame Satã – Era escrito. Tinha uma placa luminosa grande.


Sérgio – Daria pra você dar a receita de um prato que você goste de jazer?
Madame Satã – Eu gosto de fazer uma peixada de coco, um peixe com banana. O peixe ao leite de
coco é assim: o peixe é cavala, é anchova, badejo, robalo, que na minha terra chama-se camurim.

Jaguar – Pra jazer um prato pra seis pessoas, por exemplo, que quantidade de peixe precisa?
Madame Satã – Pega-se uns dois quilos de badejo, por exemplo, que não seja a parte com cabeça
porque a cabeça do peixe é uma das partes principais para o tempero do peixe. Então, se pega: cheiro, cebolinha, hortelã, tudo bem picadinho. Depois se pega o peixe, bota numa panela, coloca-se um pouco de vinagre, o tempero completo, cebola, alho, sal e se deixa uma meia hora no aviandalho. Depois se bota ele no fogo com um pouco de azeite e coloca um pouco de água mais ou menos cobrindo o peixe. Aí se bota massa de tomate ou tomate. Se quiser branco não se põe tomate. Quando ele está fervendo, que se nota bem que o peixe está cozido, se escorre aquela água. Com aquela água se faz o pirão. Se faz o pirão e se mexe com azeite português, um azeite bom. Depois se deita o peixe no prato, deixa o prato colocado ali perto do fogo e se faz novo tempero. Quando aquele novo tempero estiver fervendo, então se coloca o leite de coco. De preferência o coco raspado e não ralado.
Jaguar – No liquidificador?
Madame Satã – É isso mesmo. Eu não entendo bem essas coisas, essa linguagem assim é dificil de
eu dizer. Então, a gente pega uma colher e se raspa o coco. É assim que eu faço, dá muito
bem pra se raspar. Depois se põe um pouquinho d’água fervendo naquele coco e machuca
ele bem com as mãos, bem amassadinho. Depois se escorre aquele copo de leite e se coloca
em cima do peixe. Logo que abrir a fervura, se tira e se coloca o tempero em cima e abafa.
Está pronto o peixe ao leite de coco.

Jaguar – E faz um arrozinho pra acompanhar, não é?
Madame Satã – Ah, faz um arrozinho. Agora, se quiser fazer o arroz com leite de coco também pode.
De preferência nunca se deve fazer o arroz branco. Eu, pelo menos, não gosto de arroz branco e considero comida de hospital. Eu gosto de um arrozinho corado, mas não tão vermelho.
Sérgio – Qual foi pra você o maior malandro do Rio de Janeiro?
Madame Satã – O maior malandro do Rio de Janeiro que eu conheci de 1907 até a época de hoje foi o

que me ensinou a ser malandro e me conheceu com 9 anos de idade, foi o falecido Sete Coroas, que morreu em 1923. Quando ele morreu já me deixou como substituto dele, na Saúde e na Lapa.
Garcez – E o Brancura?
Madame Satã – O Brancura nunca foi malandro em negócio de briga. O negócio dele era cafetizar escrava branca.
Garcez – E o Baiaco?
Madame Satã – O negócio dele também era escrava branca. Quando ele estava no auge dele, teve dez
mulheres.

Garcez – O Sete Coroas vivia de quê?
Madame Satã – Ele chegou da Bahia em 1928 no Rio de Janeiro. Veio viver aqui na Lapa, na Ladeira de
Santa Teresa, encostado nos Arcos. Depois ele mudou para Saúde e vivia do nome, porque ele barbarizou muito na Bahia e já veio pra aqui com o nome grande. Aqui ele ajuntou-se com
a falecida Catita do 34, na Joaquim Silva, e criou nome.

Fortuna – O que você vai comer?
Madame Satã – Eu quero um bife mal passado com cebola crua e uma Caracu. Sempre foi a minha
comida durante quarenta anos de malandragem. Uma vez eu tomei um porre de Caracu, foi
o maior porre que eu tomei na minha vida. Tomei uma caixa de Caracu de manhã cedinho e
depois não chamava nem cachorro. Se vocês quiserem vocês podem dar o prazer de almoçar na minha casa. Na minha casa não, porque pobre não tem casa. Na minha maloca. Eu vou fazer um pato ao molho pardo pra vocês lá na Ilha Grande.

Jaguar – É uma boa dica.
Madame Satã – O Nelson Pereira dos Santos me levou num tal de Saracura, um restaurante ali no posto 4, que tem comida do Norte, eu comi um pato no tucupi que pelo amor de Deus. De pato só tem o nome e de tucupi só tinha água. Chega na nossa mesa o Lido, da Lapa, que vende bilhetes de loterias há cinqüenta anos, na Lapa. Começou vendendo na porta do Capela. Conhece muito o Satã, que pergunta qual era o apelido da Araci de Almeida.
Lido – Bituca.
Satã reclama da comida e chama o garçom.
Madame Satã – Vem cá, eu pedi um bife, não um pedaço de sola. Você sabe que eu sou freguês do Capela há mais de quarenta anos.
O garçom leva o bife dele e traz outro.
Madame Satã – Agora sim, é um bife.
Chico – Você conheceu ou viu o Getúlio?
Madame Satã – Vi, falei, conheci por causa da amizade que eu tinha com o Gregório.
Chico – E o que você diz dele?
Madame Satã – Para mim o Getúlio Vargas foi um dos homens que mais favoreceram a classe pobre
do Brasil e que mais aniquilou o país.

Garcez – Você conheceu o Prestes nessa época de cadeia? General Luís Carlos Prestes? Eu tirei cadeia com ele na Casa de Correção. Ele, Elias Toras e doutor Belmiro Valverde. O Prestes foi um grande companheiro e as regalias dele eram as mesmas que as minhas. O direito que ele tinha eu tinha.
Jaguar – Quais outros presos políticos que estiveram em sua companhia?
Madame Satã – No meu tempo teve esse menino, o Agildo Barata, um engenheiro não sei o que
Pinto, o Graciliano Ramos.

Jaguar – Diz alguma coisa sobre o Graciliano Ramos.
Madame Satã – Isso é meio difícil, porque ele era preso político e eu era preso comum.
Jaguar – Eles eram bem tratados?
Madame Satã – Os presos políticos do Brasil, na época de Getúlio Vargas, sempre foram bem tratados e muito bem acolhidos.
Fortuna – Bem acolhidos não há a menor dúvida.
Millôr – Você conheceu o Manso de Paiva, que assassinou o Pinheiro Machado?
Madame Satã – Conheci na Casa de Correção. Foi um bom detento, nunca deu alteração. Ele tirou 19
anos de cadeia dentro da cela número 2 da Casa de Correção.
Jaguar – Era manso, mesmo.
Fortuna – Qual é a sua concepção da Lapa de hoje?
Madame Satã – Olha, enquanto eu for vivo a Lapa não morrerá.

Chamada para Publicação: As Memórias LGBT em tempos de COVID-19

Lançada em 2013, a Revista Memória LGBT – RMLGBT, é um periódico digital colaborativo e gratuito. Possui o Número Internacional Para Publicações Seriadas – ISSN (International Standard Serial Number) 2318-6275.

Objetiva-se mapear, salvaguardar e comunicar o patrimônio cultural, museus, exposições e iniciativas em memória e museologia social da comunidade LGBT. Publica artigos inéditos e/ou traduzidos, ensaios, resenhas, documentos, textos e entrevistas oriundos de publicações fora de catálogo. Desde sua criação publicou 12 edições.

O tema proposto, visa refletir sobre a preservação dos vestígios, histórias e indicadores de memória de Lésbicas, Travestis, Transexuais, Intersexuais, Bissexuais, Gays e Queers durante a pandêmia Covid-19.Também poderá ser abordado relatos pessoais de ações, atividades e reflexões.

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Envie seu texto redigido em programa editor de texto padrão, de 1 a 7 páginas, preferencialmente em Word. Fonte: Times New Roman, tamanho 12. Papel A4; Espaço entre linhas: 1,5; Alinhamento justificado; Margens: Superior 3,0 cm, Inferior 2,0 cm, Esquerda 3,0 cm; Direita 2,0 cm; não usar parágrafos com recuos, espaçamentos ou tabulações. As figuras, mapas, tabelas e gráficos, serão limitadas a 3, além de encontrar-se devidamente referenciadas,se for o caso, deverão vir no corpo do texto e não como apêndices ou anexos.

Prazo para Envio do texto: 26/06/2020

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