Coligay, torcida formada por homossexuais, tem história contada em livro

Matéria Publicada por Mário Magalhães 05/12/2013- http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/
@mariomagalhaes_

Vem aí um grande acerto de contas com a história do futebol e da luta contra a intolerância no Brasil: já estão nas mãos da Editora Libretos os originais do livro que reconstitui a trajetória da
Coligay, torcida gremista pioneira dos anos 1970, formada por homossexuais.
Ainda não está batido o martelo, conta o jornalista Léo Gerchmann, autor da obra, mas é possível
que título e subtítulo sejam “Coligay – O Grêmio, tricolor e de todas as cores”.
A Coligay nasceu em Porto Alegre, durante a ditadura, no governo do ditador gaúcho Ernesto Geisel, cujo antecessor havia sido outro ditador gaúcho, Emílio Garrastazu Médici. Seus integrantes foram de uma audácia épica, que agora será contada pelo gremista Léo Gerchmann, um dos jornalistas mais talentosos com quem eu tive a oportunidade de trabalhar. Cobrimos juntos a Copa de 98, na França, e ao menos uma eleição para governador do Rio Grande do Sul.
O livro será (foi) lançado em março. Na entrevista ao blog, o Léo fala sobre seu trabalho e a saga da Coligay.

O que foi a Coligay? Como a torcida foi recebida em seu tempo?
A Coligay foi uma torcida organizada do Grêmio formada por homossexuais. Mais precisamente,
por frequentadores da boate gay Coliseu, de Porto Alegre. Foi a primeira torcida desse tipo que
realmente vingou. Dois anos depois, Clóvis Bornay, que ironicamente era vascaíno, fundou a Flagay,
que não chegou a vingar. A Coligay existiu de 1977 a 1983, em plena ditadura militar.
Até hoje, torcedores rivais do Grêmio usam a figura da Coligay como motivo de flauta, e, na época, a própria torcida organizada gremista Eurico Lara, que era oficial do Grêmio, a rejeitou. A direção do clube, porém, na medida em que percebeu o jeito que a moçada torcida, até espaço físico no Olímpico lhes cedeu para guardar as bandeiras e instrumentos de percussão. E que jeito era esse? Eles torciam o tempo todo, independentemente de o time estar ou não jogando bem, e não se envolviam com violência. Os jogadores da época dizem que eles os incentivavam muito.

O primeiro vídeo do Projeto Histórias de Vida e Ação Política conta com a participação de Volmar Santos. Volmar Santos foi o criador da Coligay, uma torcida organizada do Grêmio integrada por homossexuais


Por que a Coligay acabou?
Basicamente, porque seu idealizador e líder, o Volmar Santos, voltou para Passo Fundo, sua cidade, em 1983. O Volmar, gerente e depois proprietário da Coliseu, era a alma da Coligay.

Por que você fez um livro sobre a Coligay?
Em primeiro lugar, porque sou gremista, e acho que o Grêmio tem nessa história uma página muito edificante. Como torcedor, é uma história que me orgulha. Mas ressalvo: não é um livro somente para gremistas, é um livro para todos, mesmo para quem nem gosta de futebol ou torce para outro clube, independentemente, também, de preferências sexuais. Como costumamos dizer nas reuniões de pautas dos jornais, é uma baita história.

Registro do Livro Coligay – O Grêmio, tricolor e de todas as cores

Há flautas homofóbicas?
Claro, mas não são essas as reações que me interessam. Elas, aliás, até justificam a importância de uma obra assim. Também porque sou um entusiasta da diversidade e da evolução dos costumes. Para mim, esse é um tema muito caro, provavelmente por ser judeu, neto de sobreviventes do horror nazista e por trazer esse sentimento muito enraizado. Meu pai era conselheiro gremista, e cresci frequentando o
Estádio Olímpico. Acho que a Coligay foi um grupo transgressor que contribuiu muito para essa evolução. Levou aos estádios um jeito diferente de torcer, mais comprometido com o time e mais vibrante.

Quais as passagens mais marcantes da torcida?
Foram muitas. Eles surgiram em abril de 1977, quando o Grêmio formava um grande time (Corbo;
Eurico, Ancheta, Oberdan e Ladinho; Vitor Hugo, Tadeu e Iúra; Tarciso, André e Éder), que terminou com a hegemonia do Internacional, à época octacampeão gaúcho (na época, os títulos regionais tinham bem mais importância), contando com jogadores como Falcão e Valdomiro.
Sempre tive a opinião de que esse time do Internacional e o do Flamengo do início dos anos 80 foram os melhores que vi jogar, talvez rivalizando com a academia palmeirense de 1972, que mal peguei, porque era ainda muito guri.
Hoje, relativizo um pouco essa visão, o próprio Grêmio formou grandes times, que idealizei menos porque a idade já era outra. A Coligay ficou, então, com a fama de pé quente. Mas há muitos episódios interessantes dessa época difícil, em que pessoas eram torturadas nos porões da ditadura, e um grupo de gays se aventurou nas arquibancadas.

Registro do Livro Coligay – O Grêmio, tricolor e de todas as cores

Hoje há mais tolerância para a existência de torcidas como a Coligay ou o futebol continua
sendo um meio muito preconceituoso?

Apesar da truculência das atuais organizadas, hoje as pessoas ficam mais à vontade para assumir suas preferências sexuais. As próprias mulheres, quando iam ao estádio, 40 anos atrás, eram xingadas. Sim, isso acontecia! Eram chamadas de putas, vadias etc. São coisas, hoje, inconcebíveis, inimagináveis. Espero que quando nossos filhos crescerem eles olhem para trás e pensem, “Pô, por que os caras não podiam se casar, levar a vida como querem, se não prejudicam os outros?’’ Me parece meio básico.
Tenho dois filhos (um menino de 11 anos e uma menina de seis) e percebo neles que sentimentos
como a homofobia e outros preconceitos ficarão como uma triste e incompreensível história, a exemplo da escravidão, o Holocausto e de outras barbáries. A homofobia ainda é aceita socialmente, o que faz dela um grande tema a ser abordado e, evidentemente, repudiado por todos nós que respeitamos as diferenças, quaisquer que sejam elas.

O que fazem hoje os principais integrantes da Coligay? Ainda acompanham o Grêmio onde o
Grêmio estiver?

É triste, mas em meio a tudo isso houve a aids. A maioria deles morreu. Os integrantes com quem falei continuam acompanhando o Grêmio de perto. O Volmar Santos é colunista social e agitador cultural em Passo Fundo, outro é cabeleireiro. Todos frequentam a Arena quando possível. O Volmar chega a viajar de Passo Fundo a Porto Alegre no seu carro, mais de 300 quilômetros, e passar a noite num hotel só para ir a jogos do Grêmio.

Registro do Livro Coligay – O Grêmio, tricolor e de todas as cores

Para um gremista, como você, qual a principal lembrança da Coligay?
Quando eles surgiram, eu tinha entre 12 e 13 anos. No Olímpico, eu assistia ao jogo das cadeiras,
e eles ficavam longe. Mas em Gre‑Nais que ocorriam no Beira‑Rio, o espaço reservado aos torcedores do Grêmio, os visitantes, era o mesmo. Tchê, era divertidíssimo. Eu e meus colegas dávamos risada com o humor dos caras, que realmente não paravam de incentivar o time e de dançar, com uma charanga muito
barulhenta e ritmada.

Esse texto foi republicado na 2ª edição da Revista Memória LGBT.

Ode a Giuseppe Campuzano

Esse texto foi publicado em 2014 na 2ª edição da Revista Memória LGBT, em co-autoria entre Jean Baptista e Tony Boita.

Não queremos falar da dor que nos provoca a morte de Giuseppe Campuzano, fundador do Museu Travesti (Peru). Queremos nostravestir de Campuzano, usar maquiagem incaica, manto de plumas da aves sagradas e peruca de longos fios negros para pensar a imensa contribuição que deixa não só para seu país de origem, mas para todos nós, profissionais de museus interessados na democratização da memória no Brasil.

Giusepe Campuzano, 2009 – Hemispheric Institute of Performance and Politics

Há dez anos, Campuzano criou uma vivência museal que se tornou um marco na museologia LGBT: El Museu Travesti possuía no corpo do próprio diretor pilares de seu acervo e na história do Peru os fundamentos da natureza trans dos museus. “O Museu Travesti do Peru nasce da necessidade de uma história própria”, diz Giuseppe no site do Museu, “ensaiando uma arqueologia das maquiagens e uma filosofia dos corpos para propor uma elaboração de metáforas mais produtivas que qualquer catalogação excludente”. Na vanguarda do debate, Campuzano traveste­‑se em Virgem Maria, em deusas incaicas, em virgens destinadas a sacrifícios ritualísticos de antigos povos indígenas. Na metáfora, denuncia o racismo e a transfobia católica, estatal, peruana, latino­‑americana, o não­‑lugar de cada um de nós LGBT. E o fez respondendo toda brutalidade com uma exposição exemplar, com cores vivas, com figurinos extraordinários, com pesquisas antropológicas e com discursos de união/paz que encontravam seu próprio corpo em performances que não podem ser esquecidas.


Embora a transfobia tenha determinado a exclusão do pensamento trans da produção museológica, Campuzano demonstrou que a capacidade de transicionar esta na essência da museologia.
Nos museus, transicionamos patrimônio, reencontramos suas identidades em espaços contemporâneos e travestimos os objetos com novos sentidos, sentidos contemporâneos. O Museu, é de fato, um espaço travesti.

Giuseppe Campuzano, Museu Travesti do Peru, Intervenção no Parque da Exposição, Lima, 2004. Foto: Claudia Alva, Cortesia do arquivo Giuseppe Campuzano. https://www.gasworks.org.uk/events/museum-musex-mutext-mutant-giuseppe-campuzanos-transvestite-machine-2016-06-23/


Das musas gregas (em verdade, dos musos travestidos no teatro antigo), acompanhamos a transformação constante dos museus. Hoje pretendem ser inclusivos, combater discriminações, defender o direito à memória. No contexto latino­‑americano e no Brasil que mais mata LGBT no mundo, essa nova performance dos museus é emergencial. Contudo, o direito à memória se tornou um grande chavão na museologia, ao menos no que se refere aos LGBT e em especial aos T da longa sigla. No Brasil, a ideia de
um Museu Trans ou LGBT demora a pegar: seja pela força da fobia aos LGBT que domina as políticas culturais, seja pelo lugar do museu no Brasil, intencionalmente excludente, que teima em coquetéis e escandalosos banquetes do mais do mesmo ao invés de se democratizar.

Giuseppe Campuzano, Hemispheric Institute 7th Encuentro: Staging Citizenship, Cultural Rights in the Americas (Bogotá, Colômbia, Agosto de 2009)

No âmbito geral dos museus, impera o raciocínio excludente: “não tenho nada contra”, nos disse certo diretor de um museu mantido por fundos públicos, “mas esta não é a missão do meu museu”. Assim tem sido: os museus de arte, medicina, história, tecnologia ou até mesmo os comunitários protegem­‑se em suas missões que, evidentemente, não incluem a questão LGBT justamente por terem sido construídas em contextos fóbicos aos mesmos. Perde­‑se, com isso, a possibilidade de discutir com a sociedade os
resultados de uma história violenta e as alternativas de paz que se poderiam construir.

Silêncios nos museus, silêncios na academia. A falta de políticas de combate à fobia aos LGBT nas
universidades, a incapacidade das Ifes em possuir um programa de acesso (onde o nome social fosse utilizado desde o início dos processos seletivos) e permanência LGBT, a ausência de linhas de pesquisa ou publicações sobre o tema, a negativa de orientação constante aos estudantes interessados em pesquisar o tema (a desculpa recorrente é a ausência de produção), entre outros fatores, evidenciam a conivência acadêmica com a homo, lesbo e transfobia. Eventos da museologia tratando especificamente do tema? Nenhum até o momento, é claro.

Disso tudo, longas dúvidas: o que podemos afirmar sobre a comunidade museológica brasileira a partir do fato dos mais de 3 mil museus do Brasil não abordarem a questão LGBT? O que faz com que nem mesmo exposições temporárias, com curadoria trans por exemplo, possam ser montadas? E por que não uma Primavera nos Museus LGBT promovida pelo Ibram? Por que parece ser absolutamente impossível pensar que o Brasil possa ter uma experiência como a do Museu Travesti no Peru? Será a comunidade museológica brasileira homo, lesbo e transfóbica?

Giuseppe Campuzano, 2008, Centro Cultural de España, Limahttp://archivoartea.uclm.es/obras/museo-travesti-del-peru/

Novidades recentes, entretanto, temos para contar a partir de 2013. O Museu da Diversidade em São Paulo, um museu sub‑way na estação da República, dedicou sua primeira exposição, O T da questão, para população trans. Foi a primeira exposição em um museu mantido por fundos públicos a adotar este tema, ao menos que temos notícia. Logo em seguida, esse mesmo museu montou a exposição Crisálidas, composta por fotografias de Madalena Schwartz feitas com a população trans dos anos de 1970. Já o Museu das Bandeiras (Muban) promoveu a I Semana do Babado, dedicada a discutir a homo, lesbo e
transfobia em Goiás: rodas de conversas, espetáculos de divas trans e uma exposição com fotos de membros da comunidade LGBT de todo país fizeram parte da extensa programação. Na fachada do Muban, uma imensa bandeira arco­‑íris foi erguida pela primeira vez em um museu do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram­‑Minc). Tanto no Museu da Diversidade quanto no Muban, avanços democratizantes: a população LGBT percorrendo os espaços museais, representando­‑se e vendo­‑se representar. Paralelamente, o absurdo da segregação: protestos de setores conservadores que insistem em afirmar que o lugar dos LGBT não é nos museus.

Giuseppe Campuzano, 2008, Centro Cultural de España, Limahttp://archivoartea.uclm.es/obras/museo-travesti-del-peru/


Obviamente, nascidos em um mundo que diz não ser para nós, encontramos alternativas criativas para essas barreiras – trata­‑se da capacidade de se recriar que o pensamento trans possibilita. Nesse sentido, temos feito nossa parte. A criação da Rede LGBT de Memória e Museologia Social e a presente revista são algumas das ações que tem feito diferença em amplos setores. Na universidade, tocamos em fren‑
te um programa de Extensão chamado Comuf (Comunidades+Universidades Federais), onde um de seus projetos é destinado a acolher o membro comunitário e o acadêmico LGBT, possibilitando seu acesso e permanência ao Ensino Superior por meio da formação do extensionista‑pesquisador LGBT: não queremos ficar falando em nome dos T; queremos, sim, formar museóloges trans!

Giuseppe Campuzano, 2008, Centro Cultural de España, Limahttp://archivoartea.uclm.es/obras/museo-travesti-del-peru/

Também oferecemos um mini­‑curso para cursos de museologia, museus, escolas e movimentos sociais sobre a história e memória LGBT – até o momento, nenhum museu ou universidade solicitou tal serviço ao contrário dos demais setores. Mas bora lá trabalhar, sem desanimar.

Mas e você, profissional de museus­‑patrimônio‑memória, o que tem feito? Sugiro que comece se travestindo para experimentar na pele o brilho de outras almas, como a de Campuzano, e com isso encontrar caminhos que recriem a museologia brasileira, transicionando­‑a, de fato, em uma museologia efetivamente democratizadora.

Ao que parece esse foi o último registro fotográfico e performace de Giuseppe.
Performance em cores realizada para a inauguração da última exposição do Museo Travesti del Perú em Lima, março de 2013.
https://thereisnoithaca.tumblr.com/post/77829554599/dos-reinterpretaciones-de-las-dos-fridas-1

Conheça o site do Museu Travesti, com fotos, vídeos e textos:
http://hemi.nyu.edu/hemi/es/campuzano‑presentacion

Entrevista Madame Satã

De família pobre, o pernambucano João Francisco dos Santos (1900-1976), o Madame Satã, fixou residência na Lapa, bairro boêmio e maldito do Rio de Janeiro. Em 1971, quando já figura
célebre no cenário nacional, cedeu uma entrevista ao Pasquim, gerando um importante documento para a história e memória LGBT no Brasil. Faleceu em 12 de abril de 1976.


Entrevistado por Sergio Cabral, Paulo Francis, Millôr Fernandes, Chico Júnior, Paulo Garcez, Jaguar e Fortuna, para O Pasquim, de 05/05/1971, e republicada no livro ALTMAN, Fábio. A arte da entrevista. São Paulo: Scritta, 1995.


A personagem da entrevista desta semana era lenda no meu tempo de menino em Botafogo.
Uma espécie de gunfighter da Lapa, fechando bares e enfrentando as terríveis Polícia Especial e D.G.I. (Departamento Geral de Investigações), que enchiam de pavor quem andasse nas ruas, coisa
que os garotos da época, na maioria, faziam. E havia o paradoxo aparente de homossexualismo de Madame Satã. Aparente, sim, porque e Julio César, Alexandre o Grande, ou, próximo de nós, Heydrich e Goering? Pensar que violência é característica heterossexual não passa de balela primitiva.
Satã nos impressionou bastante, porque é um tipo completamente fora do nosso âmbito de experiência. Todos nós duvidamos de tudo, inclusive de nós mesmos. Convertemos nossos superegos em catedrais em que nos ajoelhamos e pedimos perdão a nós mesmos, sem resultado. Satã tem certeza das coisas que faz. Eu disse, na entrevista, que ele me parece literatura, à parte mais sofisticado e legítimo do que Jean Genet (o que Sartre escreveria sobre ele, fico pensando). Não esconde o jogo. Se aceita como é. Há coisa mais dificil? Pra nós (um mítico nós e todos, bem entendido, mas os incluídos se reconhecerão) impossível.
Eu diria mais: que Satã representa a verdadeira contracultura brasileira, que essa que aí está, apesar de seus valores intrínsecos e universais, nos foi imposta de fora pra dentro, o que às vezes é bom, outras, não. Já Satã emergiu deste asfalto, deste clima, deste ragu cultural brasileiro, que tentamos negar inutilmente, mas que, tal qual o rio do poema de Eliot, é um deus primitivo, capaz de adormecer, apenas e sempre vivo, vingativo
e traiçoeiro. A sociedade urbana, de consumo, aqui, é puro verniz, descascando visivelmente. Outras forças, suprimidas, estão aí, poderosamente latentes, acumulando impacto.
A inocência de Satã das coisas da moda elitista, de modelos de raciocínio, é completa.
Mas nenhum de nós se sentiu tentado a ironizá-lo. Não por medo. Ele é bem mais educado do que a maioria dos grã-finos que conheço (um bom número, acrescento). Foi por respeito. Sentimos uma personalidade realizada. Quantos de nós podem dizer a mesma coisa? Nesse mundinho de classe média pra cima, que muita gente boa (tradução poderosa) imagina ser o Brasil, e que é, no duro, uma ínfima e arrogante minoria, pouco existe de igual em termos de tipo. Quem vai prevalecer? Não percam o próximo e emocionante capítulo.
(Paulo Francis)


Sérgio – Quantos anos você esteve preso?
Madame Satã – Ao todo eu tirei 27 anos e oito meses.
Sérgio – E há quantos anos você está liberdade
Madame Satã – Há seis anos. Saí no dia 3 de maio, há seis anos.
Sérgio – Mas você continua morando na Ilha Grande.
Madame Satã – Continuo morando na Ilha Grande porque eu achei que é um lugar onde eu posso viver mais sossegado, mais descansado das perseguições da polícia e mesmo da vida agitada
que eu levava.

Millôr – Que idade você tem?
Madame Satã -Tenho 71 anos de idade.
Sérgio – Com essa cara?! É verdade que você tem mãe viva, ainda?
Madame Satã – Tenho sim, está com 103 anos e mora no interior de Pernambuco.

Mestre de Cerimônia da Boate Cafona’s 5/07/1971 – Arquivo Nacional (Fundo Correio da Manhã)


Millôr – Você é pernambucano?
Madame Satã – Sou.
Millôr – Você está no Rio há quantos anos?
Madame Satã – Eu cheguei no Rio em 1907 e fui morar na rua Moraes e Vale, 27, ali no largo da Lapa.


Millôr – E que profissão você exercia?
Madame Satã – Eu sempre fui cozinheiro. Até 1923 eu fui cozinheiro. Em 1924 eu ingressei na Casa de Caboclo.
Millôr – Que nível de instrução você tem?
Madame Satã – Sou analfabeto de pai e mãe.
Millôr – Pelos seus amigos você é chamado como? De Madame Satã ou é chamado pelo seu
próprio nome?
Madame Satã – De Satã.
Millôr – Como é seu nome todo?
Madame Satã – Meu nome todo é João Francisco dos Santos, sou filho de Manoel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição.
Millôr – Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?
Madame Satã – É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.
Millôr – Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter
uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção
em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi
um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.
Madame Satã – Isso é o que diz a história, né?

Sérgio – Mas você é homossexual?
Madame Satã – Sempre fui, sou e serei.


Millôr – De onde vem a sua fama de extraordinária masculinidade? Eu sei que foi através de inúmeras brigas. Conte alguma coisa.
Madame Satã – Eu comecei em 1928. Deram um tiro em um guarda civil na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá e mataram, né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso. Eu tinha 28 anos. Aí eu fui para o Depósito de Presos e daí para a Penitenciária e fui condenado a 26 anos. Na penitenciária, não. Na Casa de Correção.
Millôr – Segundo você, injustamente.
Madame Satã – Injustamente.
Sérgio – Mas você não deu o tiro no guarda?
Madame Satã – Não, o revólver é que disparou na minha mão. Casualmente.
Sérgio – Foi a bala que matou?
Madame Satã – Não, a bala fez o buraco. Quem matou foi Deus.
Sérgio – Balas que saíram do seu revólver mataram quantos?
Madame Satã – Bala que saiu do meu revólver só matou esse porque os outros era a polícia que matava
e dizia que era eu.

Sérgio – Mas você usava muito era a navalha, né?
Madame Satã – Às vezes, não era sempre não.
Chico – Eu ouvi dizer que você matou um com um soco.
Madame Satã – Não, eu fui acusado de ter matado o falecido compositor Geraldo Pereira com um
soco. Mas o caso foi o seguinte: eu entrei no Capela e estava sentado tomando um chope.
Ele chegou com uma amante dele (ainda vive essa mulher), pediu dois chopes e sentou ao
meu lado. Aí tomou uns goles do chope dele e cismou que eu tinha que tomar o chope dele e
ele tinha que tomar o meu. Ele pegou o meu copo e eu disse pra ele: olha, esse copo é meu.
Aí ele achou que aquele copo era dele e não era o meu. Então eu peguei meu copo e levei
para a minha mesa. Aí ele levantou e chamou pra briga. Disse uma porção de desaforos, uma
porção de palavras obscenas, eu não sei nem dizer essas coisas. Aí eu perdi a paciência, dei
um soco nele, ele caiu com a cabeça no meio-fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo do
médico, porque foi para a assistência vivo.

Sérgio – Teve uma vez que você deu uma navalhada na traseira de um sargento. Como é que foi
essa história?
Madame Satã – Eu não dei navalhada na traseira do sargento não. Eu estava sentado ali no Canaã
e entrou um sargento do Exército e me deu seis tiros. Não me conhecia, não sabia quem
era eu, eu nunca tinha visto ele, não avisou nem nada, de uma mesa pra outra. Quando
ele acabou de dar o último tiro guardou a Mauser e saiu pela porta afora. Eu olhei prum
lado e olhei pro outro, não vi sangue e falei: bem, então eu estou vivo. E saí correndo atrás
dele. Quando estava subindo ali a rua Taylor, parece que ele passou por uma cerca de
arame farpado, sei lá, e se rasgou todo. Eu sei que ele levou quarenta e poucos pontos.

Millôr – Você ainda briga hoje, ainda tem energia?
Madame Satã – Brigar eu não brigo porque eu nunca briguei, mas na minha casa a gente come o que Deus dá e o que faltar Nossa Senhora inteira.
Chico – Satã, você respondeu a quantos processos?
Madame Satã – Eu tenho 29 processos, sendo 19 absolvições e 10 condenações.
Chico – E quantos homicídios?
Madame Satã – Três.
Chico – E agressões?
Madame Satã – Ah, meu filho, somente nove.
Millôr – Em quantas brigas você calcula que tenha entrado?
Madame Satã – Ah, que eu não fui preso, deve ter umas três mil. Eu gostava da briga. Eu nunca briguei com paisano na minha vida. Essa mania da polícia chegar, bater e começar a fazer covardia, eu levantava e pedia a eles pra não fazer isso. Afinal de contas, se o sujeito estiver errado, eles prendam, botem na cadeia, processem,tá certo.Agora, bater no meio da rua fica ridiculo. Afinal nós
somos seres humanos. Eles achavam que eu estava conspirando contra eles, então já viu, né.

Millôr – Quer dizer que você tinha raiva da opressão policial.
Madame Satã – Sempre tive e morro com ela.
Sérgio – Satã, me diga uma coisa: essa história de que você pegava garoto à força é verdadeira?
Madame Satã – É coisa que eu nunca fiz na minha vida, porque era coisa que não precisava fazer. O senhor deve entender, o senhor que é da vida moderna, sabe muito bem que isso é uma coisa que não se precisa pegar ninguém à força.
Sérgio – Eu sempre ouvi falar, desde garotinho, quando eu ia passear na Lapa e falavam comigo: cuidado que o Madame Satã vai te pegar.
Madame Satã – Conversa fiada, eu não era tão tarado assim.
Millôr – A Lapa foi durante muito tempo um centro de boemia. Você conheceu gente famosa,
além dos marginais?
Madame Satã – Fui amicíssimo do Chico Alves, fiz muitas serenatas com ele, Noel Rosa, Orlando
Silva, Vicente Celestino.


Chico – Quem é que te deu esse apelido de Madame Satã?
Madame Satã – Esse apelido de Madame Satã ganhei em 1938, no Bloco Caçador de Veados, depois passou para Caçador da Floresta e morreu com esse nome. Depois nasceu como Turunas de Monte Alegre.
Sérgio – Mas você era caçado ou caçador?
Madame Satã – Eu era caçador.

Madame Satã – Arquivo Nacional (Fundo Correio da Manhã)


Chico – Mas conta a história do apelido.
Madame Satã – Bem, havia o baile de carnaval e o concurso. Então eu me exibi com a fantasia de
Madame Satã no Teatro da República e ganhei o primeiro lugar. Ganhei um tapete de mesa e um rádio Emerson, feito um balezinho, ele abria do lado, assim, feito uma portinha. O último ano que eu desfilei foi em 1941. Eu estava preso, mas anulei um processo e vim passar o carnaval na rua. Desfilei com a Dama de Vermelho.

Sérgio – O que que você acha do Clóvis Bornay?
Madame Satã – Eu vou te explicar uma coisa: eu não tenho o que dizer dessas bichas velhas, não.
Chico – Ainda agora nós estávamos conversando sobre Osvaldo Nunes. É verdade que ele
briga bem?
Madame Satã – Eu conheci o Osvaldo Nunes, mas ele não era cantor ainda. Mas eu não acho que ele
brigue bem, não. De quando em quando eu fico sabendo dos escândalos que eles fazem por aí. Eu acho que do jeito que eles brigam não é briga, é escândalo.

Millôr – O Osvaldo Nunes declara publicamente que o homossexualismo dele veio através da prisão. Ele teria sido preso e foi violentado.
Madame Satã – Conversa fiada, é mentira. É mentira porque na cadeia ninguém faz isso no peito.Tirei
27 anos e oito meses de cadeia e nunca vi ninguém fazer isso no peito. Fazem por livre e espontânea vontade porque querem fazer. Quando eu fui para a cadeia já era pederasta, já era viciado, nunca fiz isso no peito.

Millôr – Peraí, você está chamando isso de viciado? Eu não chamo de viciado não. Você está dando outro nome.
Madame Satã – Eu não desdigo o que digo, mas para uma parte é.
Jaguar – Nesse negócio de prisão, o Lucena tá me falando aí, que todo criminoso primário tem que
entrar em pua. É verdade isso?
Madame Satã – Isso é conversa fiada.
Chico – E a história do xerife? O garoto novo entra na cela e o xerife, ó.
Madame Satã – Houve a história do xerife.
Paulo Garcez – O Paulo Francis foi o nosso xerife.
Madame Satã – Mesmo no tempo do xerife só se viciava quem queria. O sujeito chegava lá, filho de
papai e mamãe, tinha o olho grande, apanhava o cigarro do chefe do alojamento, comia a comida do chefe do alojamento porque queria comer uma comidinha melhor, queria dormir na manta do chefe do alojamento, queria tomar banho com o sabão do chefe do alojamento, ora

Millôr – Alguma vez você já foi violentamente apaixonado? Você já foi casado no sentido homossexual?
Madame Satã – Não, eu nunca fui dessas coisas não, esse negócio de amiguinho, casamento. Nunca fui porque sempre achei feio, achava ridículo. Esse negócio de andar apaixonado, de fazer escândalo no meio da rua, isso é pouca vergonha.
Millôr – E com mulher, você é casado?
Madame Satã – Sou casado. Tenho seis filhos de criação.
Chico – Esse seu passado não influiu na sua relação com a sua mulher? Como é que ela encara o
seu passado?
Madame Satã – Se ela não quiser encarar, ela que se suicide. O que é que eu tenho com isso? Quando ela me conheceu já sabia minha vida, casou comigo porque quis casar.
Millôr – Você casou com que idade?
Madame Satã – Casei com 34 anos.
Millôr – E está com a mesma mulher até hoje?
Madame Satã – A mesma mulher.
Sérgio – Você disse que foi amigo do Francisco Alves. O que você achava dele?
Madame Satã – O Chico Alves pra mim foi uma grande pessoa, não só como cantor, mas também
como companheiro de farra e como amigo.

Sérgio – E Noel Rosa, era bom sujeito?
Madame Satã – Noel Rosa já desceu de Vila Isabel como um bom sujeito, pelo menos como cantor e
como companheiro.

Jaguar – Você conheceu a Araci de Almeida?
Madame Satã – Araci de Almeida eu conheci menina, ainda, quando ela começou a gravar as músicas de Noel Rosa. Pra mim foi uma grande amiga e uma grande companheira. Era o meu tipo, o tipo assim que quando se queimava já viu, né.
Millôr – Nessas suas prisões qual foi o criminoso mais bárbaro que você conheceu?
Madame Satã – O criminoso mais bárbaro que eu conheci na cadeia foi o falecido Feliciano.
Sérgio – O que é que ele fez?
Madame Satã – Me parece que o crime dele foi em 1945 ou 1946. Ele tinha matado o sogro e botado
fogo. Na cadeia, quase todo o ano ele matava dois. O último que ele matou foi o Gregório.

Millôr – Ah, ele é o tal que matou o Gregório. E você conheceu o Gregório?
Madame Satã – Eu conhecia o Gregório desde o tempo de São Borja.
Sérgio – E o que você foi fazer lá?
Madame Satã – Eu era muito amigo da família Mostardero, do Rio Grande do Sul, o capitão Manoel
Mostardero, que veio ser diretor da penitenciária várias vezes, e eu ia sempre lá passear. O Gregório era cocheiro do pai do falecido Getúlio.

Millôr – E você foi amigo do Gregório (chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas)?
Madame Satã – Amicíssimo, ele morreu nos meus braços. Eu estava a uns 15 metros quando ele levou a facada.
Millôr – Você quer contar a história?
Madame Satã – O que eu sei é a legítima história, a verdadeira. Isso eu sei porque na época eu estava sumariando, porque tinha muito processo, e muitas vezes eu desci da Colônia para a penitenciária e trouxe muito bilhete do Feliciano para o Gregório e levei muita roupa e muito dinheiro para o Feliciano na Colônia. Mas a história é a seguinte: entrou em cana um rapazinho lá de São Borja, muito amigo do Gregório. Trabalhava na rouparia com o falecido Gregório, mas um dia o rapazinho brigou no pátio e foi para a Colônia, de castigo.
Sérgio – Frota Aguiar, que é o presidente do IPEG hoje?
Madame Satã – Por mim ele pode ser até presidente da República. Ele vivia me perseguindo. Um dia eu telefonei para ele e disse que era mentira. Ele disse que não era, que ia me dar um pau e me mandar pra cadeia. Então, eu disse pra ele: bem, eu vou falar com o senhor, já sabe que eu vou quebrar a sua cara. Aí eu fui.
Sérgio – E como é que foi?
Madame Satã – Quebrei a cara dele e me deram uma surra que quase que me mataram, mas quebrei a cara dele. Ele ia me bater na minha casa, eu já estava lá, lá mesmo apanhava.
Sérgio – Está me chamando atenção uma coisa: você não sabia capoeira, nenhuma luta especial e
no entanto você brigava contra rádio-patrulhas?
Madame Satã – Eu não brigava, eu me defendia.
Sérgio – Mas você se defendia contra vários e no entanto você não é nenhum atleta. Você tem que
altura?
Madame Satã – Eu devo ter 1,85m, mais ou menos.
Sérgio – E quanto que você pesa?
Madame Satã – Agora eu devo estar pesando 73 quilos.
Sérgio – Pois é, você não é um físico privilegiado.
Madame Satã – Naquela época eu pesava 88,89.
Millôr – Você acha que você tem o corpo fechado?
Madame Satã – Bom, eu não tenho corpo aberto. Se eu tivesse corpo aberto eu estava fedendo. Fechado eu tenho que ter.
Millôr – Por que você se fixou na idade de 84 anos?
Madame Satã – Pode anotar aí. Se o senhor não estiver vivo, talvez seus filhos estejam. Deixe gravado
aí porque eu vou morrer com 84 anos.

Millôr – Você disse que é analfabeto. Mas eu queria saber qual é o tipo de informação que você tem
a respeito das coisas. Você está sempre a par da política nacional? Você sabe, por exemplo, quem
é o presidente da República? Quem é Aristóteles Onassis, casado com a Jacqueline Kennedy?
Madame Satã – Eu sei que ele é a primeira fortuna dos Estados Unidos.Agora, o que ele é eu não sei.
Millôr – Charles de Gaulle, você sabe quem é?
Madame Satã – Foi durante muitos anos o primeiro-ministro da França, não é?
Millôr – Você sabe o que é um avião supersônico?
Madame Satã – “O governador Carlos Lacerda? Eu conheci muito o falecido pai dele, conheci menino ainda. O Carlos passeava sempre na Lapa quando era rapazinho.”Eu não sei explicar muito bem, não.
Millôr – Eu acho que ninguém aqui sabe.
Jaguar – Quando Nelson Cavaquinho foi da polícia, ele nunca te prendeu, não?
Madame Satã – Nunca. Nelson Cavaquinho é muito meu amigo, sempre foi.
Jaguar – Mas ele não era civil.
Madame Satã – Mas era muito meu amigo.
Millôr – Pra você saber como você é um homem glorioso na história do Rio de Janeiro, eu já escrevi um show musical em que tinha um quadro em que você entrava. Você brigava na Lapa com
uma rádio-patrulha inteira, eles não tinham maneira de prender você. De repente eles empurram
você em cima de um carrinho-de-mão, te amarram e saem no pau com você no carrinho-de-mão
amarrado. Isso nunca aconteceu, não?
Madame Satã – Aconteceu quase igual. Antes de vir a Viúva Alegre eu saí muitas vezes num carrinho-de-mão amarrado.
Millôr – Que coisa impressionante! Eu não sabia disso.
Fortuna – O que era a Viúva Alegre e por que tinha esse nome?
Madame Satã – A Viúva Alegre era um carro de polícia assim como esses jipes, mas não era bacana
assim. Era um tipo de viúva bem mixa. Era um tipo de jipe com grade em volta era pintado
de preto. Depois é que veio o tintureiro.

Millôr – E os seus filhos e a sua mulher?
Madame Satã – Eu tenho uma filha que é professora de acordeão e funcionária pública do Ministério
da Justiça.Tenho outro que mora em Nova Iguaçu e é delegado de Polícia.

Millôr – Delegado?
Madame Satã – É. Tenho outro que é soldado da polícia e tem uma que mora em Belém do Pará.
Chico – São filhos de criação, não é?
Madame Satã – São.
Millôr – Você não ganha ordenado?
Madame Satã – Não, eu tenho ordenado. Eu crio galinha, crio pato, dou peixadas, cozinho em festas de casamento, faço tudo.
Millôr – Você não cobra um preço por isso?
Madame Satã – Eu cobro, mas não é todo dia que se encontra um casamento, né?
Sérgio – Se alguém quiser utilizar os seus serviços o que faz? Se uma família quiser que você
faça uma peixada, como é que faz?
Madame Satã – É só escrever: Ilha Grande, Vila Abraão, Madame Satã.
Millôr – Apesar de toda luta que você teve na vida, se você tiver que dizer alguma coisa sobre a
sua vida você vai dizer que você foi um homem feliz?
Madame Satã – Eu fui sempre um homem muito feliz porque, graças a Deus, eu fui sempre um sujeito de muita saúde.
Francis – Talvez você não conheça a pessoa, mas é um grande elogio. Você é muito mais autêntico e muito mais sofisticado do que Jean Genet. Você conheceu um homem chamado Frade Ávalo?
Madame Satã – Não.
Sérgio – E Manuel Bandeira?
Madame Satã – Manuel Bandeira?
Sérgio – Morava no beco.
Madame Satã – No Beco das Carmelitas?
Sérgio – É
Madame Satã – Não, assim de nome, não.
Sérgio – E Carlos Lacerda?
Madame Satã – O governador Carlos Lacerda? Eu conheci muito o falecido pai dele, conheci menino
ainda. O Carlos passeava sempre na Lapa quando era rapazinho.

Millôr – Odilo Costa Filho?
Madame Satã – Não, eu conheci um Odilo que hoje é major da polícia.
Millôr – Mário de Andrade?
Madame Satã – O Mário de Andrade que eu conheci era bicheiro.
Millôr – Você conheceu algum jornalista, intelectual, escritor, daquele tempo?
Madame Satã – O jornalista que eu conheci lá foi o falecido Mário dos Santos e um tal de Macedo.
Chico – Satã, você respondeu os seus processos sob vários nomes. Quantos nomes você tem?
Madame Satã – Acho que uns cinco só. Gilvan Vasconcelos Dutra, Satã Etambatajá.
Millôr – É francês?
Madame Satã – Etambatajá não é francês não, é indígena. Tem ainda Gilvan da Silva e Pedro Filismino. Quando um nome tava muito cheio de processo eu dava outro.
Millôr – Você conheceu um cara famosíssimo na vida marginal, o Meneghetti?
Madame Satã – O Meneghetti não era marginal, era ladrão de jóias. Eu tirei cana dura com ele em São Paulo. Ainda até pouco tempo ele estava recolhendo dinheiro para pagar a passagem dele para a Itália. Ele podia dar um curso de ladroagem, foi um dos maiores ladrões de jóias. Ele e o Alexandre Lacombe.
Millôr – Você ouviu falar no Febrônio?
Madame Satã – Índio Febrônio do Brasil
Sérgio – Como é que é? Febrônio Índio do Brasil?
Madame Satã – Não, Índio Febrônio do Brasil.
Millôr – Peraí, vamos esclarecer. Ele pegou garotos, esses troços?
Madame Satã -Quando ele praticou aqueles crimes ele morava na avenida Gomes Freire, 115. Ele
era dentista. Eu me dava muito bem com ele.

Millôr – Qual foi o crime dele?
Madame Satã – Parece que ele matou uns dez ou 12 garotos. Ele matava, enterrava, depois ficava
comendo até apodrecer. Quando apodrecia, ele matava outro. Foi para o Manicômio Judiciário.
Francis – Você conheceu um rapaz, eu não sei o nome dele todo, mas eu jogava sinuca muito
com ele, malandro muito perigoso. Eu só me lembro do primeiro nome dele: Pedrinho. Sei que
ele pegou uma cana feroz.
Madame Satã – O Pedrinho do Catete, eu me dava muito com ele.
Francis – Onde é que ele está, hein?
Madame Satã – Eu não sei porque a última cadeia que ele tirou foi na Colônia Penal Cândido Mendes. Depois que ele saiu nunca mais eu vi.
Francis – Ele quis ser meu guarda-costas, uma vez.
Sérgio – E aqueles malandros famosos na Lapa, o Edgar, o Meia-Noite?
Madame Satã – O Meia-noite não era propriamente valente. Valente era o fantoche dele, o falecido Tinguá.
Sérgio – O Meia-Noite era bicha?
Madame Satã -O Meia-Noite era caso do falecido Tinguá, sempre foi. O Edgarzinho foi um farol que
acendeu e apagou logo em seguida. Agora, quem durou mais um pouco foi o Miguelzinho. O Edgar morreu com 26 anos. Fez o primeiro crime ali na rua do Riachuelo, matou o dono do botequim. Foi absolvido porque era menor e logo em seguida fez o segundo crime na rua do Santana. Matou o dono do botequim e o garçom.

Sérgio – E desses compositores: Wilson Batista, Ismael Silva e tal, você conheceu?
Madame Satã – Wilson Batista eu tive uma briga com ele muito grande quando ele desceu lá do
morro com aquela disputa com Noel Rosa. Foi outra briga que eu tive. Foi ali na Galeria Cruzeiro, ele saiu correndo por ali. Foi quando ele tirou aquele samba “Rapaz Folgado”, pro Noel.

Sérgio – E o Ismael Silva?
Madame Satã – Ismael Silva preto? Ele estava sempre ali na Lapa. Era bom sujeito só que quando
bebia muito ficava chato.
Francis – E os cabarés?
Madame Satã – Cabarés tinham muitos. Tinha o da Anita Gagliano, o Cu da Mãe. Sabe ali na esquina
onde tem o Metro? Tinha o Bar-Cabaré Cu da Mãe, de Anita Gagliano.

Chico – Mas esse nome era escrito?
Madame Satã – Era escrito. Tinha uma placa luminosa grande.


Sérgio – Daria pra você dar a receita de um prato que você goste de jazer?
Madame Satã – Eu gosto de fazer uma peixada de coco, um peixe com banana. O peixe ao leite de
coco é assim: o peixe é cavala, é anchova, badejo, robalo, que na minha terra chama-se camurim.

Jaguar – Pra jazer um prato pra seis pessoas, por exemplo, que quantidade de peixe precisa?
Madame Satã – Pega-se uns dois quilos de badejo, por exemplo, que não seja a parte com cabeça
porque a cabeça do peixe é uma das partes principais para o tempero do peixe. Então, se pega: cheiro, cebolinha, hortelã, tudo bem picadinho. Depois se pega o peixe, bota numa panela, coloca-se um pouco de vinagre, o tempero completo, cebola, alho, sal e se deixa uma meia hora no aviandalho. Depois se bota ele no fogo com um pouco de azeite e coloca um pouco de água mais ou menos cobrindo o peixe. Aí se bota massa de tomate ou tomate. Se quiser branco não se põe tomate. Quando ele está fervendo, que se nota bem que o peixe está cozido, se escorre aquela água. Com aquela água se faz o pirão. Se faz o pirão e se mexe com azeite português, um azeite bom. Depois se deita o peixe no prato, deixa o prato colocado ali perto do fogo e se faz novo tempero. Quando aquele novo tempero estiver fervendo, então se coloca o leite de coco. De preferência o coco raspado e não ralado.
Jaguar – No liquidificador?
Madame Satã – É isso mesmo. Eu não entendo bem essas coisas, essa linguagem assim é dificil de
eu dizer. Então, a gente pega uma colher e se raspa o coco. É assim que eu faço, dá muito
bem pra se raspar. Depois se põe um pouquinho d’água fervendo naquele coco e machuca
ele bem com as mãos, bem amassadinho. Depois se escorre aquele copo de leite e se coloca
em cima do peixe. Logo que abrir a fervura, se tira e se coloca o tempero em cima e abafa.
Está pronto o peixe ao leite de coco.

Jaguar – E faz um arrozinho pra acompanhar, não é?
Madame Satã – Ah, faz um arrozinho. Agora, se quiser fazer o arroz com leite de coco também pode.
De preferência nunca se deve fazer o arroz branco. Eu, pelo menos, não gosto de arroz branco e considero comida de hospital. Eu gosto de um arrozinho corado, mas não tão vermelho.
Sérgio – Qual foi pra você o maior malandro do Rio de Janeiro?
Madame Satã – O maior malandro do Rio de Janeiro que eu conheci de 1907 até a época de hoje foi o

que me ensinou a ser malandro e me conheceu com 9 anos de idade, foi o falecido Sete Coroas, que morreu em 1923. Quando ele morreu já me deixou como substituto dele, na Saúde e na Lapa.
Garcez – E o Brancura?
Madame Satã – O Brancura nunca foi malandro em negócio de briga. O negócio dele era cafetizar escrava branca.
Garcez – E o Baiaco?
Madame Satã – O negócio dele também era escrava branca. Quando ele estava no auge dele, teve dez
mulheres.

Garcez – O Sete Coroas vivia de quê?
Madame Satã – Ele chegou da Bahia em 1928 no Rio de Janeiro. Veio viver aqui na Lapa, na Ladeira de
Santa Teresa, encostado nos Arcos. Depois ele mudou para Saúde e vivia do nome, porque ele barbarizou muito na Bahia e já veio pra aqui com o nome grande. Aqui ele ajuntou-se com
a falecida Catita do 34, na Joaquim Silva, e criou nome.

Fortuna – O que você vai comer?
Madame Satã – Eu quero um bife mal passado com cebola crua e uma Caracu. Sempre foi a minha
comida durante quarenta anos de malandragem. Uma vez eu tomei um porre de Caracu, foi
o maior porre que eu tomei na minha vida. Tomei uma caixa de Caracu de manhã cedinho e
depois não chamava nem cachorro. Se vocês quiserem vocês podem dar o prazer de almoçar na minha casa. Na minha casa não, porque pobre não tem casa. Na minha maloca. Eu vou fazer um pato ao molho pardo pra vocês lá na Ilha Grande.

Jaguar – É uma boa dica.
Madame Satã – O Nelson Pereira dos Santos me levou num tal de Saracura, um restaurante ali no posto 4, que tem comida do Norte, eu comi um pato no tucupi que pelo amor de Deus. De pato só tem o nome e de tucupi só tinha água. Chega na nossa mesa o Lido, da Lapa, que vende bilhetes de loterias há cinqüenta anos, na Lapa. Começou vendendo na porta do Capela. Conhece muito o Satã, que pergunta qual era o apelido da Araci de Almeida.
Lido – Bituca.
Satã reclama da comida e chama o garçom.
Madame Satã – Vem cá, eu pedi um bife, não um pedaço de sola. Você sabe que eu sou freguês do Capela há mais de quarenta anos.
O garçom leva o bife dele e traz outro.
Madame Satã – Agora sim, é um bife.
Chico – Você conheceu ou viu o Getúlio?
Madame Satã – Vi, falei, conheci por causa da amizade que eu tinha com o Gregório.
Chico – E o que você diz dele?
Madame Satã – Para mim o Getúlio Vargas foi um dos homens que mais favoreceram a classe pobre
do Brasil e que mais aniquilou o país.

Garcez – Você conheceu o Prestes nessa época de cadeia? General Luís Carlos Prestes? Eu tirei cadeia com ele na Casa de Correção. Ele, Elias Toras e doutor Belmiro Valverde. O Prestes foi um grande companheiro e as regalias dele eram as mesmas que as minhas. O direito que ele tinha eu tinha.
Jaguar – Quais outros presos políticos que estiveram em sua companhia?
Madame Satã – No meu tempo teve esse menino, o Agildo Barata, um engenheiro não sei o que
Pinto, o Graciliano Ramos.

Jaguar – Diz alguma coisa sobre o Graciliano Ramos.
Madame Satã – Isso é meio difícil, porque ele era preso político e eu era preso comum.
Jaguar – Eles eram bem tratados?
Madame Satã – Os presos políticos do Brasil, na época de Getúlio Vargas, sempre foram bem tratados e muito bem acolhidos.
Fortuna – Bem acolhidos não há a menor dúvida.
Millôr – Você conheceu o Manso de Paiva, que assassinou o Pinheiro Machado?
Madame Satã – Conheci na Casa de Correção. Foi um bom detento, nunca deu alteração. Ele tirou 19
anos de cadeia dentro da cela número 2 da Casa de Correção.
Jaguar – Era manso, mesmo.
Fortuna – Qual é a sua concepção da Lapa de hoje?
Madame Satã – Olha, enquanto eu for vivo a Lapa não morrerá.

Chamada para Publicação: As Memórias LGBT em tempos de COVID-19

Lançada em 2013, a Revista Memória LGBT – RMLGBT, é um periódico digital colaborativo e gratuito. Possui o Número Internacional Para Publicações Seriadas – ISSN (International Standard Serial Number) 2318-6275.

Objetiva-se mapear, salvaguardar e comunicar o patrimônio cultural, museus, exposições e iniciativas em memória e museologia social da comunidade LGBT. Publica artigos inéditos e/ou traduzidos, ensaios, resenhas, documentos, textos e entrevistas oriundos de publicações fora de catálogo. Desde sua criação publicou 12 edições.

O tema proposto, visa refletir sobre a preservação dos vestígios, histórias e indicadores de memória de Lésbicas, Travestis, Transexuais, Intersexuais, Bissexuais, Gays e Queers durante a pandêmia Covid-19.Também poderá ser abordado relatos pessoais de ações, atividades e reflexões.

Orientação para submissão:

Envie seu texto redigido em programa editor de texto padrão, de 1 a 7 páginas, preferencialmente em Word. Fonte: Times New Roman, tamanho 12. Papel A4; Espaço entre linhas: 1,5; Alinhamento justificado; Margens: Superior 3,0 cm, Inferior 2,0 cm, Esquerda 3,0 cm; Direita 2,0 cm; não usar parágrafos com recuos, espaçamentos ou tabulações. As figuras, mapas, tabelas e gráficos, serão limitadas a 3, além de encontrar-se devidamente referenciadas,se for o caso, deverão vir no corpo do texto e não como apêndices ou anexos.

Prazo para Envio do texto: 26/06/2020

Envie para: revista@memorialgbt.org

#Exposição (em Revista) Memórias de Luiz Fernando Prado Uchoa

Desde 2013 a Revista Memória LGBTIQ+ desenvolve estratégias de preservação e promoção de memórias das sexualidades não normativas, normalmente invisibilizadas nos museus e espaços de memória. Um dos exemplos destas ações é a #ExposiçãoemRevista. Por meio desta metodologia expográfica, apresentam-se para o público memórias e histórias significativas para a população de trans homens, trans mulheres, travestis, lésbicas, intersexuais,  gays, bissexuais e queer que não costumam ser incorporadas em museus.

 Afinal, todas memórias, merecem ser preservadas!

Em nossa primeira #exposição em Revista do ano, apresentamos as memórias de Luiz Fernando Prado Uchoa.

Luiz é jornalista, professor e palestrante de 36 anos, morador de Guarulhos (SP), graduado em comunicação social (habilitação em jornalismo) e atualmente está se graduando em licenciatura e bacharelado em Filosofia. 

Conheça esta importante trajetória!

RLGBTIQ+: Quais são suas principais atividades neste momento?

Luiz: Elaboração de formações sobre transmasculinidades, divulgando campanhas sociais e meu livro sobre transmasculinidades chamado Simplesmente homem: sobre a experiência cotidiana de homens trans, publicado pela editora Metanóia.

RLGBTIQ+:  Como tornou-se escritor? Como surgiu a ideia de escrever?

Luiz:  Me tornei escritor para expressar ao mundo minhas inquietudes, sonhos e angústias e esse processo de utilizar a escrita como meio de exposição de ideias começou com a elaboração de diários em minha adolescência.

RLGBTIQ+: Fale do seu primeiro livro.

Luiz: No meu primeiro livro chamado Simplesmente homem: sobre a experiência cotidiana de homens trans, publicado pela Editora Metanoia, tive objetivo de trazer seis histórias que visam desconstruir os padrões impostos de masculinidade, afeto e sexualidade vigentes numa sociedade cisgênera e heteronormativa. E o principal da obra é relatar o cotidiano dos homens trans e proporcionar aos leitores a ampliação acerca dos papéis, expressões e identidades de gênero, como também, salientar a importância de refletir a respeito da reprodução de estereótipos existentes quanto à identidade masculina.

Numa conjuntura cisheteronormativa em todo o tempo se depara com modelos formados do que se é considerado masculino e viril. Na contramão destes estereótipos impostos socialmente homens trans lutam pelo reconhecimento de sua identidade e por direitos básicos como ir à escola sem sofrer represálias, usar o banheiro no gênero no qual se identifica, ser amado e respeitado por sua família e acima de tudo ter a liberdade de expressar sua identidade de gênero sem necessitar atender nenhuma expectativa social.

RLGBTIQ+: Você nos procurou recentemente falando da importância das iniciativas que visibilizassem homens trans e pessoas transmasculinas. Como você acredita que a memória e os museus podem contribuir nessa realidade?

Luiz: Os museus podem modificar essa realidade de invisibilização histórica e social, a partir do momento que mostrarem personalidades históricas e narrativas cotidianas deste segmentos suas exposições e acervos  para assim a sociedade compreender as diversidades presentes no universo masculino, como também trazer a tona a produção das epistemologias em diversas áreas vigentes na trajetória destes indivíduos e indivídues.

Além disso possibilitar uma discussão ampliada acerca  dos estereótipos cisheteronormativos de existência, afeto e sexualidade desse modo proporcionando quebras de paradigma em espaços como museus que são conhecidos muitas vezes por oprimir e aniquilar processos históricos e existenciais tidos como dissidentes, ou seja, fornecer os múltiplos lados da história e não só perpetuando visões estereotipadas e manequistas.

RLGBTIQ+: Quais são as suas melhores memórias? Aquelas que você nunca gostaria de esquecer!

Luiz: A conquista do nome nos documentos, realização da mamoplastia masculinizadora, cirurgia que remove os seios e constrói um peitoral masculino e a notícia da publicação do meu primeiro livro.

RLGBTIQ+:  Como foi o procedimento para a retificação dos documentos?

Luiz: Entrei com o processo judicial via Centro Acadêmico XI agosto ligado a faculdade direito da USP, largo São  Francisco em que estagiários orientados por professores desenvolvem todo o trâmite e o acompanhavam e para isto ocorrer reuni fotos, prints de redes sociais com nome social, cartas de cinco testemunhas alegando que me conheciam há mais de 2 anos utilizando o nome e que vivia num contexto identitário masculino, laudo psiquiátrico e psicológico para ser entregue e iniciar a elaboração do processo para retificação de nome e gênero.

Só que no meu caso para ficar mais rápido se optou para entrar com o nome primeiro. O processo durou 2 anos para o juiz finalmente aprovar. Quando consegui a sentença judicial favorável tive de me dirigir ao Poupatempo, receita Federal e outros lugares para mudar tudo.

Mas um adendo que gostaria de fazer o chefe do cartório no qual nasci me olhou e disse que não haveria sentido colocar um nome masculino e sexo feminino e ele fez a modificação no sexo também facilitando o processo de atualização dos demais documentos.

Um fator engraçado foi a retirada do tal certificado de reservista já que eu era maior de 30 anos sem a carteira de reservista e por isso tive de ficar meia hora numa sala respondendo umas perguntas estranhas. Mas, nem sei como driblei a situação e me falaram para retirar a tal carteira após 10 dias.

RLGBTIQ+: Como você descreve este momento que estamos vivendo e como isso tem influenciado as vidas transmasculinas?

Luiz: Um momento tenso e preocupante devido a estarmos com um projeto de governo preocupado em perpetuar o modelo cisheteronormativo identitário e sexual para obter ganhos financeiros e manter um sistema neoliberal onde a divisão de categorias impere para nunca a classe trabalhadora ligada a segmentos identitários compreenda sua força no combate às opressões estruturais. 

Devido a este panorama as vidas transmasculinas escolhem muitas vezes viver no anonimato para não se serem vítimas físicas e mentais e também assegurarem o seu status social nos diversos sociais, ou não se assumirem enquanto pessoas trans ou pior dos cenários revelam ao mundo sua transmasculinidade e se veem sem nenhum tipo de apoio e são abandonados a própria sorte.

RLGBTIQ+: Quem você admira?

Luiz: Minha mãe, meu pai de família LGBTQIA+ e meus filhos desta mesma família.

RLGBTIQ+:  Que objetos pessoais você doaria para um Museu?

Luiz: Livros.

“ Sem palavras para te agradecer por visibilizar uma narrativa transmasculina numa sociedade que silencia e invisibiliza indivíduos que representam a dissidência como é o caso de homens trans e pessoas transmasculinas.” Luiz Fernando Prado Uchoa

5 museus (+iniciativas) travesti e trans para visitar online

Por Tony Boita (tony@memorialgbt.org)

As pessoas T* ainda são invisibilizadas na ampla maioria dos museus e iniciativas em memória no Brasil e no mundo. Suas memórias, histórias e trajetórias são ocultadas de forma explícita.

Isso se dá pelo fato dos museus também serem construídos a partir de uma “matriz heterossexual” (Butler, 2003), colaborando, com isso, na violenta distinção entre os “corpos que importam” e os “que não importam” (Butler 1993).

Apresentei em minha dissertação de mestrado um mapeamento dos museus do mundo dedicados à questão da memória e direitos LGBTIQ+.  Recentemente compartilhei aqui um resultado parcial desta pesquisa e agora o faço focando especialmente nessa parcela de nossa comunidade.

Tenha uma ótima visita virtual a estes importantes museus!

1. Arquivo Digital Trans dos Estados Unidos: Disponibiliza e digitaliza em formato de arquivo um montão de documentos sobre memórias e histórias de pessoas trans estadunidenses. O arquivo possui da travesti Marsha P. Johnson.

Créditos: Digital Transgender Archive – Link https://www.digitaltransgenderarchive.net

2. Archivo da Memória Trans: Esse arquivo comunitário foi criado em 2012 por María Belén Correa. Com o objetivo de valorizar, preservar e difundir memórias de pessoas travestis e transexuais na Argentina, promove capacitações e exposições itinerantes com/para o grupo T.

3.      Museu Travesti: este museu foi o primeiro (e parece seguir sendo o único) a se dedicar exclusivamente à memória das pessoas travestis. Foi criado e idealizado pel@ saudos@ Giusepe Campuzano, podendo ser encontrado no site algumas de suas entrevistas e performances.

https://hemi.nyu.edu/hemi/pt/campuzano-presentation

Créditos da Imagem: Museu Travesti do Peru – https://hemi.nyu.edu/hemi/pt/campuzano-presentation

4. Museu da Pessoa: Este é um importante museu virtual que possui um valioso acervo digital com registros de pessoas LGBT. Ali se destacam as memórias do saudoso João W. Nery, primeiro trans-homem operado no Brasil na década de 70.

Créditos: Diana Blok – Link: https://www.museudapessoa.org/pt/conteudo/historia/o-primeiro-transhomem-operado-no-brasil-94491

5. Revista Memória LGBTIQ+: Criada para ampliar o debate sobre museus e museologia no Brasil, o site reúne exposições em revista, estudos, notícias e eventos sobre a temática. Publicou duas edições para sobre pessoas travestis e transexuais. https://memoriaslgbt.com

Referências

BUTLER, Judith. Bodies that matter: on the discursive limits of “sex”. New York: Roudedge, 1993.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

Gostou desta matéria? Deixe seu comentário e sugira outros museus e exposições voltados para a comunidade LGBTIQ+!

#SomosTodasVelhos: notas sobre grupo de risco em tempos de pandemia

Luiz Mello (Sociólogo)

Jean Baptista (Historiador)

Professores da Universidade Federal de Goiás e do Ser-Tão – Núcleo de Ensino, Extensão e Pesquisa em Gênero e Sexualidade (UFG)

V, de viado. V, de velho. A tragédia do V renascida na ideia de “grupo de risco”. Muitas de nós fomos mortas sem termos estado doentes. E muitos correm o risco de outra vez morrerem de morte matada.

Em meio à epidemia do HIV dos anos 1980, deveríamos ter sido tod@s VIADOS — aqui entendido como coletivo de gays, travestis, transexuais, bichas, bissexuais, HSH e outros. Conhecemos a história e sabemos o rumo que tomou. Em meio à pandemia da Covid-19, é nossa obrigação agora sermos tod@s VELH@S.

Nas disputas de narrativas entre partidários da quarentena vertical (específica para “grupos de risco”, em particular idosos), geralmente fundados no senso comum religioso e no achismo narcisista, e defensores da quarentena horizontal (para todas as pessoas, indistintamente), quem viver verá o acerto da estratégia que urgentemente precisamos adotar, sem dúvida a segunda, reconhecida em consenso científico em escala planetária.

Como mostrou Sidarta Ribeiro em artigo impressionante, assim como Gregório Duvivier em vídeo genial, o coronavírus e o fascismo de nossas autoridades, em nível mundial mas especialmente no Brasil, nos colocam diante de uma nova era. E nessa era o risco não atinge mais apenas viados e velhos. Mas a espécie inteira, a humanidade como um todo.

Como que a reviver um pesadelo, nós, sobreviventes do HIV, estamos diante de histórias e memórias traumáticas com a chegada da atual pandemia. Não apenas por reencontrarmos o medo de uma doença e da morte, mas também por sabermos que junto a uma pandemia surge inevitavelmente uma onda de ignorância e preconceito tão letal quanto o vírus que a causa.

Cientistas sociais, historiador@s e pesquisador@s de várias áreas, estudamos há muitas décadas o comportamento social ao longo das pandemias de varíola, sarampo, gripe espanhola, peste bubônica e Aids, entre outras. Tal qual em outros momentos da história humana, costumamos, como sociedades e grupos, repetir dois comportamentos: primeiro, a perseguição e o abandono social dos considerados difusores da doença, suas vítimas iniciais; segundo, a contaminação daqueles que, ao se julgarem imunes, tornam-se presas fáceis dos vírus, espalhando-os ainda mais rápido.

O que estamos vendo hoje é uma versão hiperbolizada dos mesmos fenômenos a partir da  lógica nefasta do mercado neoliberal de ultra-ultra direita, cujos representantes mais desavergonhados inescrupulosamente vêm a público dizer: que morram os velhos e os que não tem trajetória de “atleta”; a produção e o consumo não podem parar; que siga o baile.

Uma prévia disso tudo, em escala menor, mas não menos trágica, ocorreu durante o surgimento e a difusão da epidemia de Aids. Batizada de “peste gay” em seus primeiros anos, governos, jornalistas, cientistas e profissionais da saúde costumavam tranquilizar a população: “Não se preocupem, mata apenas gays”. Mais tarde, viram-se impelidos a ampliar o horizonte do massacre epidêmico a partir de uma nova versão da ideia de grupo de risco – não mais apenas gays, mas os 4Hs: Homossexuais, Heroinômanos, Hemofílicos e Haitianos.

Ao nos abandonarem, os difusores deste pensamento justificaram no mínimo uma década sem investimentos, estudos e estratégias de testagem e prevenção em escala global, convertendo-se em corresponsáveis por milhões de mortes não apenas de gays, mas também de não-gays, hemofílicos, bebês, mulheres casadas monogâmicas, idosos, jovens, crianças, ricos e, especialmente, POBRES, consideradas as especificidades da materialização da epidemia em cada sociedade e suas respectivas dinâmicas de opressão, a partir das quais se decide quem deve morrer ou viver.

Afinal, os vírus não são imbecis, nem possuem preconceitos. Ao contrário, são inclusivos e não respeitam qualquer marcador social de diferença. Mas, definitivamente, a desigualdade estrutural das sociedades humanas sempre coloca em posição de maior vulnerabilidade as pessoas mais pobres, as menos escolarizadas, as sem acesso à informação e as imersas em lógicas de subalternidade interseccionadas e  fundadas em eixos de opressão relacionados a cor/raça, sexo/gênero, idade, (d)eficiência, renda/classe, entre outros.

Até praticamente ontem, as pessoas ricas se sentiam protegidas por sua riqueza e os pobres, especialmente no Brasil, começavam a embarcar em discursos genocidas neoliberais, defensores da privatização irrestrita dos sistemas públicos de saúde, educação,  previdência social e todas as demais dimensões da vida humana, que passam a subordinar-se em aparência, mais que em essência, ao deus-mercado. A surpresa do cenário de uma pandemia como a que estamos vivendo é que nem sempre o dinheiro será suficiente para assegurar vida, já que os melhores médicos e equipamentos para enfrentar crises como essas são os oferecidos pelo Estado, no caso específico do Brasil, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), até ontem um vilão que a classe dominante brasileira e seus asseclas menos esclarecidos teimavam em propor extinguir.

Mas ser contaminado pelo novo coronavírus não é por si só uma sentença de morte e aí, como se viu também no caso do HIV, é que os privilégios de renda/classe, cor/raça, sexo/gênero, idade, escolaridade e muitos outros farão toda a diferença. Afinal, quem consegue sobreviver no contexto de pandemia sem salário fixo no final do mês garantido, sem condições de comprar alimentos e material de higiene imprescindíveis à vida, sem morar em espaço seguro e com direito à privacidade pessoal e de sua família, sem um ambiente de convivência livre de violência e abuso sexual ou moral? Quem pode assegurar-se o privilégio de não sair de casa no período de quarentena, a não ser quando estritamente necessário, e, nesses casos, municiado do kit III Guerra Mundial: máscaras, luvas, álcool em gel, transporte privado, cartão de crédito/débito e distância social assegurada por não precisar ir a lugares abarrotados de outras pessoas?

E ainda: quem consegue fazer hoje no Brasil um exame para diagnóstico do novo coronavírus, a não ser que já esteja em estado quase terminal ou possua um quadro de comorbidades muito severas que potencializam enormemente a letalidade do vírus? A resposta é uma só: AS PESSOAS RICAS, usando seus privilégios também de cor e de gênero, incluídos não só os donos do capital no sentido clássico, mas também artistas, influenciadores digitais e atletas. Definitivamente, os vírus até tentam, mas não conseguem ser democráticos em sua potência de morte. Tânatos rima com miséria, especialmente em sociedades absurdamente desiguais em tantos níveis como a nossa.

Mas, hoje, somente pessoas ignorantes e egoístas acreditam na legitimidade da descartabilidade de potenciais vítimas integrantes do“grupo de risco” para a Covid-19, entre as quais, tragicamente, o representante máximo do governo brasileiro, e parte dos empresários-políticos e raros jornalistas e profissionais de saúde. Muitos desses ainda insistem em ressuscitar – cada vez menos, é importante dizer – o uso da expressão “grupo de risco” para compreender a dinâmica da atual pandemia. Neste “grupo”, estariam profissionais de saúde, idos@s, imunodepressiv@s, cardiopatas, pneumopatas e fumantes. Quanto tempo essas autoridades negacionistas desperdiçarão na antiluta contra a pandemia, até que o “povo de bem” brasileiro volte-se contra eles?

Ainda hoje muitos argumentam: “basta isolar os idosos”. Já vimos onde isso pode acabar. Filhas e netos saem de casa para o trabalho, voltam com o pão e o vírus. Às vezes, só com o vírus, afinal, a crise de empregabilidade no Brasil antecede a Covid 19, mas agora atinge proporções apocalípticas. E os riscos de morte começam pelos velhos, mas se expandem rapidamente para outros grupos etários, especialmente se marcados pelo que a pobreza tem de inerente no Brasil e no mundo: cor/raça e sexo/gênero. Quantos já morreram e nem foram contabilizados nas estatísticas oficiais, por nunca terem sido testados para o novo coronavírus e muito menos autopsiados antes de serem sepultados?

E mais: ao difundir a noção de “grupo de risco”, o governo federal, especialmente na figura de seu presidente, envia, em escala nacional ridicularizada em nível mundial, a mensagem de que quem não faz parte do tal grupo está seguro, podendo andar despreocupado por aí, furar a quarentena, ir à praia, frequentar baladas, enfim, viver normalmente.

Já lideranças religiosas expressivas no Brasil, especialmente entre grupos neopentecostais fundamentalistas, ainda insistem em manter suas igrejas abertas, indiferentes ao sofrimento que causarão, diante de cada novo doente e de cada nova morte, nas famílias de seus fiéis e na sociedade em geral. Não nos esqueçamos dos casos emblemáticos na França e na Coréia do Sul: igrejas lotadas de fiéis foram grandes centros de contaminação em massa pelo novo coronavírus, para muito além das fronteiras físicas dos templos.

Para piorar, alguns dos que deveriam ser lideranças políticas dão exemplos absolutamente irresponsáveis de interação social massiva, estimulando seus eleitores a terem um comportamento descompromissado com a própria saúde e a dos demais. Demonstram, assim, não possuir qualquer empatia e capacidade de compreender, em uma perspectiva científica, o que está de fato acontecendo, a partir do exemplo da dimensão mortal da pandemia em outros país. Praticamente todas as lideranças políticas de outros reavaliaram nos últimos dias seu negacionismo inicial, a partir da evidência científica e da  pressão da opinião pública de seus países e mundial, curvando-se à trágica constatação: isolamento social é a principal estratégia, hoje, para diminuir a curva de contaminação do vírus, evitando a falência dos sistemas de saúde, a morte generalizada e o caos social.

Poderíamos simplesmente sugerir substituir a expressão “grupo de risco” por “grupo vulnerável”. Em tese, com essa troca, assumiríamos uma terminologia sem a marca do horror profundo relacionado à LGBTfobia e à Aids. Mas isso não seria trocar um risco por outro? Afinal, ser categorizado como “grupo vulnerável”, hoje, de maneira objetiva e empiricamente constatável nas filas de hospitais, não ajuda ninguém. Ao contrário, na Itália, na Espanha e cada vez mais em muitos outros lugares do mundo, com sistemas públicos de saúde exemplares hoje sucateados, médicos estão tendo que escolher a quem dedicarão atenção, equipamentos e leitos.

O pano de fundo, nesses casos, continua a ser se o paciente infectado é ou não integrante de “grupo vulnerável”, mas agora no sentido de possuir “menor chance de sobreviver” ou “levar mais tempo para se recuperar” da Covid-19, mesmo tendo acesso ao melhor que as tecnologias e os cuidados em saúde possam proporcionar. Em face da inevitabilidade da Escolha de Sofia (o filme, para quem não lembra, do diretor Alan Pakula, de 1982), os integrantes de grupos de risco/vulneráveis perdem o lugar de prioridade que supostamente seria seu. A atenção e os cuidados passam a ter como alvo os mais jovens, os bem nutridos, os sem histórico de doenças graves, por possuírem condições prévias que ampliam as chances de sobrevivência no cenário do pandemônio que se descortina. Nesse sentindo, a partir de um critério de elegibilidade clínica, a expressão “grupo de risco” ou “grupo vulnerável” passa a fragilizar ainda mais quem em tese deveria proteger.

A OMS já avisou: crianças, jovens e adultos sem qualquer problema prévio de saúde também podem estar entre os severamente afetados e mortos pela Covid-19. A falência dos sistemas de saúde, que certamente ocorrerá se o isolamento social em larga escala não for implementado, produzirá mortes em massa, não apenas em função do novo coronavírus, mas também de todas as outras doenças que podem nos atingir no dia a dia e não encontrarão possibilidade de atendimento médico adequado, como ocorreria em tempos pré-Covid-19, a despeito do sucateamento galopante que já atingia o SUS nos últimos anos.

No mundo como um todo, mas no Brasil em especial dada nossa abissal desigualdade entre ricos e pobres, também é urgente a implementação de um amplo programa nacional que garanta renda aos mais pobres, particularmente nesse momento em que tantas pessoas, com destaque para as que ocupam as posições de menor prestígio e remuneração no mercado de trabalho, estão sendo privadas de seus empregos, por demissão ou suspensão de salários, ou de fontes de renda informal, dadas as imprescindíveis recomendações de governos estaduais e municipais relativas ao isolamento social.

Finalmente, pouco sabemos ainda, por outro lado, sobre as sequelas físicas e emocionais que o novo coronavírus deixará em quem sobreviver, tendo sido infectado ou não, com sintomas variando de leves a gravíssimos no primeiro caso. Não sabemos quanto tempo demorará para se alcançar uma cura. Não sabemos se o vírus realmente desaparece de quem já o enfrentou e sobreviveu uma vez. Tudo que sabemos, no momento, é que quase nada sabemos sobre essa doença. Mas é sempre assim quando a humanidade se depara com uma nova epidemia ou pandemia. Só se pode afirmar que o vírus que a produz não está nem aí para quem você é ou à qual “grupo de risco” você pertence. Proteger a tod@s é uma obrigação da coletividade e uma tarefa a ser coordenada, da maneira mais democrática possível, pelos governos. 

Mas não tenhamos dúvida acerca de algo que cientistas sociais e historiadorxs nos ensinam há mais de um século: para além das questões biológicas, na vida em sociedade, com pandemias ou não, as delícias do bem viver e dos prazeres do mundo têm sido privilégio dos homens, especialmente os ricos e os brancos. Por isso, siga as três regras básicas que historicamente sempre valeram para os tempos de peste: fique recluso, faça testagem tão logo seja possível e, acima de tudo, supere seus preconceitos. Afinal, esses também têm um poder quase infinito de produzir dor e sofrimento.


Gostou deste texto? Deixei seu comentário!

10 museus e iniciativas LGBTIQ+ para você visitar na quarentena (virtualmente falando, é claro)

Por Tony Boita (tony@memorialgbt.org)

Com a chegada da pandemia COVID-19, aprofunda-se a construção de uma dimensão virtual da realidade material dos equipamentos culturais. Muitas instituições já haviam dado este passo, enquanto outras estão ingressando neste universo. O cenário não é diferente para os museus.

Apresentei em minha dissertação de mestrado um mapeamento dos museus do mundo dedicados à questão da memória e direitos LGBTIQ+. Estou finalizando a versão em livro a ser lançado em breve, mas neste momento quero compartilhar com você a lista de 10 importantes museus dedicados ao tema de modo a contribuir à quarentena, à divulgação dessas instituições e à promoção da memória LGBTIQ+.

Mas lembre-se: fique em casa, não podemos visitar nenhuma dessas instituições neste momento — aliás, as que existem fisicamente encontram-se fechadas. Mas quando reabrirem e nos reerguermos financeiramente, quem sabe não planejamos uma viagem?

Enquanto isso, tenha uma ótima visita virtual a estes importantes museus!

1.       Tucson  Gay Museum: um dos primeiros museus gay do mundo e que segue em funcionamento (ao menos no que foi localizado em minha dissertação) fica no Texas. Em seu website é possível acessar parte do seu acervo e uma linha do tempo com datas importantes para militância LGBTQ nos Estados Unidos.

http://www.tucsongaymuseum.org/

Créditos da Imagem: Tucson Gay Museum http://www.tucsongaymuseum.org/1940.htm

2.       Museu Travesti: este museu foi o primeiro (e parece seguir sendo o único) a se dedicar exclusivamente à memória das pessoas travestis. Foi criado e idealizado pel@ saudos@ Giusepe Campuzano, podendo ser encontrado no site algumas de suas entrevistas e performances.

https://hemi.nyu.edu/hemi/pt/campuzano-presentation

Créditos da Imagem: Museu Travesti do Peru – https://hemi.nyu.edu/hemi/pt/campuzano-presentation

3.        Leslie-Lohman Museum: dedicado à salvaguarda e promoção da arte e artistas LGBIQ+, esta instituição possui um acervo online muito significativo. https://www.leslielohman.org/exhibitions

Créditos da Imagem: Leslie-Lohman Museum

4. Lesbian Herstory Archives:  embora não seja um museu, seu ineditismo enquanto arquivo virtual dedicado a pesquisar, preservar e difundir memórias lésbicas merece destaque. Em seu tour virtual você pode encontrar ricas informações bibliográficas e documentais que não disponíveis em qualquer lugar. Ainda, é possível solicitar o envio de cópias. http://www.lesbianherstoryarchives.org/tourintro.html

Créditos da Imagem: Lesbian Herstory Archives:  http://www.lesbianherstoryarchives.org/tourintro.html

5. Leather Archives & Museum: Sem perder de vista a dimensão política do debate em prol da memória e dos direitos LGBTQ+, este arquivo/museu apresenta uma abordagem mais picante que os demais: concentra-se em falar sobre o sexo, a prevenção, o BDSM, o fetiche e o couro. Se você tiver mais que 18 anos, crie seu login e acesse o onlinecollections e se surpreenda. https://leatherarchives.org/visit/exhibitions

Créditos da imagem: Leather Archives & Museum | https://leatherarchives.org/visit/exhibitions

7. Tom Of Finland Foundation: O espaço preserva as obras homoeróticas produzidas pelo importante cartunista conhecido como Tom Of Finland e promove exposições temporárias e itinerantes no mundo inteiro. Embora não esteja disponibilizando nenhuma visita virtual, o simples passeio pelo site e o contato com aquele universo já é bem divertido. www.tomoffinlandfoundation.org/

Créditos: Tom Of Finland Foundation:

8. GLBT Historical Society: Um dos museus pioneiros a tratar da temática LGBTIQ+, aborda história e política da cultura e memória de pessoas ‘GLBT’.

https://www.glbthistory.org/online-exhibitions

Créditos da Imagem: GLBT Historical Society

9. Revista Memória LGBTIQ+: Criada para ampliar o debate sobre museus e museologia no Brasil, o site reúne exposições em revista, estudos, notícias e eventos sobre a temática. Além das revistas propriamente ditas, que também se encontram online, o site ainda disponibiliza artigos avulsos e recebe contribuições para publicação. https://memoriaslgbt.com

10. Museu da Diversidade Sexual / Centro de Cultura, Memória e Estudos da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo: O primeiro museu institucionalizado do Brasil que salvaguarda, pesquisa, difunde as memórias da comunidade LGBT. Embora não contenha exposições virtuais, a visita ao site vale a pena para conhecer seu amplo leque de ações. http://www.mds.org.br/

Gostou desta matéria? Deixe seu comentário e sugira outros museus e exposições voltados para a comunidade LGBTIQ+!

12ª Edição já está no ar!

Com o tema Preservando as Memórias de LGBTIQ+ a 12ª edição apresentará algumas estratégias de salvaguarda dos acervos, vestígios, histórias e indicadores de memória de travestis, transexuais, intersexuais, queers, lésbicas, gays e bissexuais.

Boa Leitura!

Confira: https://memoriaslgbt.com/edicao-atual